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sábado, 10 de junho de 2017

Ana Hatherly: A palavra poética em metáfora de obsidiana


A obsidiana é um vidro vulcânico
negro como a antracite, o ónix, o azeviche.
Antes de ser vidro, porém, foi lava ardente
pedra líquida
vómito das profundezas
válvula de escapa
massa de bolo cru
concha de pedra que estala
revelando o seu recheio
que escorre ácido e fétido
como tumor que arrebenta.
Explusão de estupenda cor
jacto feérico, pirotécnico
solta estrelas vivas
fogo de oiro
que cintilia contra o céu que ferve
raivoso ao contacto com o mar
Quando por fim arrefece e se transforma em cinza
a obsidiana concentra-se
e do nada faz o seu diamante.
                                                                                   

Ana Hatherly, O Pavão Negro. Lisboa: Assírio & Alvim, 2003.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Ana Hatherly: As palavras aproximam


As palavras aproximam:
prendem-soltam
são montanhas de espuma
que se faz-desfaz
na areia da fala

Soltam freios
abrem clareiras no medo
fazem pausa na aflição

Ou então não
                       matam
            afogam
                       separam definitivamente

Amando muito muito
ficamos sem palavras


Ana Hatherly. O pavão negro. Lisboa: Assírio e Alvim, 2003.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Ana Hatherly. Casamento do Céu e da Guerra



Não, meu caro Blake
Esta não é, como a tua
Uma guerra mental
Para as cósmicas acrobacias
Que atravessam o fogo 
Das tuas fantasias
A acção heróica
Que outrora seduzia
Agora é um puro teste
E o campo de batalha
Visto de longe
de cima
de muito alto
É pura geometria
No rectângulo do scanner
As novas armas que cruzam nossos céus
Caem sobre a terra
Distraidamente
Errando o alvo
Enquanto os corpos desencarnam
À sombra das destruídas pontes da lembrança
Que queres de nós, Doctor Clash?
Que nos dizes lá do alto?
Um cruel pai nos entrega a este conúbio
Atirando a bola
Para o campo do adversário
Onde o árbitro já foi despedido
E vestido de preto
É uma mosquinha
No imenso campo
Verde
Porque a teimosa relva
Continua a crescer
para ser pisada 
para ser esmagada
Porque esse é o seu cruel programa
Do céu
Donde sempre nos veio
O fogo e a água
Continua a vir
O sustento da morte

 Ana Hatherly, Itinerários, Vila Nova de Famalicão, Quasi, 2003.

Ana Hatherly. As lágrimas do poeta


Um poeta barroco disse:
As palavras são
As línguas dos olhos
Mas o que é um poema
Senão
Um telescópio do desejo
Fixado pela língua?
O voo sinuoso das aves
As altas ondas do mar
A calmaria do vento:
Tudo
Tudo cabe dentro das palavras
E o poeta que vê
Chora lágrimas de tinta


Ana Hatherly, O Pavão Negro, Lisboa, Assírio & Alvim, 2003.