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sábado, 13 de julho de 2013
domingo, 22 de janeiro de 2012
Ana Paula Inácio
A ti,
leitor implícito não representado
a quem chamarei Jorge
pela confusão a que se permite com George
fonia de um país maior
e ainda distante
- a distância revela um amor mais límpido -
pergunto
como ressoam as frases dos meus versos
e que resposta dás
às minhas perguntas
sabes Jorge
quantas manhãs tem um dia
ou quantas noites
ou será que já tás deitado
e o meu mail
encontra o teu ecrã desligado
ou será que tens o coração em on
ou entristecido de
dor ou tédio
risca o que não interessar
e preenche a cheio
(desculpa o pleonasmo)
o traço descontínuo
Ana Paula Inácio, 2010-2011, Averno.
leitor implícito não representado
a quem chamarei Jorge
pela confusão a que se permite com George
fonia de um país maior
e ainda distante
- a distância revela um amor mais límpido -
pergunto
como ressoam as frases dos meus versos
e que resposta dás
às minhas perguntas
sabes Jorge
quantas manhãs tem um dia
ou quantas noites
ou será que já tás deitado
e o meu mail
encontra o teu ecrã desligado
ou será que tens o coração em on
ou entristecido de
dor ou tédio
risca o que não interessar
e preenche a cheio
(desculpa o pleonasmo)
o traço descontínuo
Ana Paula Inácio, 2010-2011, Averno.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Rosa Maria Martelo
Ar
O bico da tesoura a levantar ligeiramente
a pele. E o ar da manhã. Todas as manhãs a
amanhecerem assim. «Um pouco dentro
de mais», poderá alguém dizer, talvez
pensando em sangue, ou carne viva. Mas
não é isso. A tesoura é aqui apenas uma
imagem, não serve para cortar, nem perfurar,
não deixa à vista mais nada que uma leve
sensação de atrito, já muito destilada:
uma porta aberta pela manhã - e o ar
muito fresco ainda, quase húmido. Sei que
ver é uma maneira de ser visto. Não uma
ferida, mas um estar a descoberto, e nem
sequer muito fundo, porque não há fundo.
Antes uma certa transparência da matéria,
sob a qual o sangue corre como fora corre
um rio.
A Porta de Duchamp, Averno.
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Rosa Maria Martelo: A Porta de Duchamp

A Porta de Duchamp – Rosa Maria Martelo: Averno, Lisboa 2009
“Quando vivia em Paris, no pequeno apartamento da rua Larrey, nº 11, Duchamp fez instalar dentro de casa uma porta que não podia estar aberta nem fechada porque estava sempre aberta e fechada ao mesmo tempo” Assim começa “A Porta de Duchamp” de Rosa Maria Martelo, narrativa fragmentada de 17 partes, todas elas com um ponto em comum: as portas como ligação / o que abre / o que fecha - O que mesmo que esteja fechado está aberto. A reflexividade é marcadamente forte neste texto, injectado de uma emotividade sensorial muito acesa e de uma profunda e muito viva perspicácia. Logo no início, as citações iniciais revelam um pouco da narrativa:
“Ouvi bater à porta.
Não há porta. Porque haviam de bater à porta que não há?”
Mário Cesariny
“Há algum que tenha a chave da porta do ser, que não tem porta, e me possa abrir com razão a inteligência do mundo? “
Álvaro de Campos
Duchamp, Fernando Pessoa, Cesariny abriram muitas portas, Rosa Maria Martelo também com este livro, sobretudo muitas perspectivas. Trata-se de um livro múltiplo, coerente e vital, sobretudo de grandes revitalizações.
A reflexão sobre a passagem / o abrir caminhos, é muito atenta e inteligente “Uma porta que ele abria quando a fechava (fechada mesmo aberta como, alguém disse acontecer com os livros”: A frase incluí reflexão sobre o fenómeno literário que continua no texto seguinte: “Há quem fale de livros entrados na carne, como agulhas, de venenos incolores descompassando veias”
O elemento – entrada / saída é revisitado em outras partes do livro – Entrar com força, sair com força. A viagem prossegue com outras pequenas histórias interligadas por este factor, A fotografia está presente. A fotografia usada como registo frágil, suporte perene, pode ser uma das múltiplas aberturas / perspectivas e interpretações do texto “Lama”: “O que faz um fotógrafo de nuvens e de estrelas, neste dia de chuva, de temporal desfeito, quase deitado no chão, fotografias espalhadas no meio da lama”. Em “Infância”, há uma Imagem fortíssima de grande carga sensorial mantendo um registo único: “subtrair à passagem das ondas e do tempo pedacinhos de nada, menos que conchas (búzios partidos, por exemplo de que ficara o centro em espiral). Há uma revitalização da infância: portas que se abrem e fecham na memória e são invocadas (abertas / ou fechadas) nunca por completo: “nada pode ser verdadeiramente deste mundo”. Em “Filme” são invocado Gregory Peck, Ingrid Bergman e Hitchcock: “É então que Hitchcock abre porta atrás de porta, naquele movimento contínuo de certos filmes que aceleram a vida das plantas para as vermos nascer e abrir e abri mais, mas não morrer”. É de grande importância o uso da repetição e a pontuação em “folhas nascem e abrem) e abrem) e abrem)” O parêntesis é fechado, mas não aberto – A abertura está na frase. Outros recursos de grande vitalidade criativa são usados na criação de palavras por repetição e hífen, como “porta-porta”: As palavras abrem.
Muito mais poderia ter sido dito de um livro que é uma porta aberta e de um livro que é uma porta fechada (aberta e fechada ao mesmo tempo). É um livro que Abre muitas portas / perspectivas, onde se deve entrar e sair várias vezes.
Nuno Brito
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
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