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sábado, 20 de setembro de 2014

Bruno Béu


enquanto sonhas, as coisas tremem
como se as desfocassem
lágrimas já preparadas para serem
do sonho o teu real rosto.

acordas, porque as coisas tremem muito
e são quase uma só com muitos lados: o corpo
treme agora bem real com elas. as lágrimas

afinal escorrem. nos jornais
amanhã vão escrever seis graus
na escala do richter
que as mediu não sei bem como.

Bruno Béu, partilhado a partir de There´s Only one Alice.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Bruno Béu.


I.                    
Organonon[1]

a mão manifesta: quando
manifesta esconde. Azul
pelo vitral meia manhã tanto
pelo lado esquerdo, como
direito, a luz. por um segundo
olhava-a nas mãos. Suspenso
(no centro da simetria) ele tocava
um órgão alto. mas nesse instante, só
as mãos tocavam: sem ele
(ele via). por cima dos seus ombros, muito mais
do lado nascente (afinal meia manhã) vinha pelo vitral, o
azul nas mãos: sem ele. nenhuma vontade, como se
tudo já fora feito. música por si. As mãos nada
agarravam, tocando em tudo
só um som: o sopro longuíssimo
de um órgão alto. e lá atrás
do som, do êxtase, vitral, da simetria
escondido, só um mesmo movimento
de um homem pequeno no fole.

II
[relato posterior, já claro quanto ao local da morte]

A Joaquina Paes[2] hoje ainda
colocou as meias verdes, pela
manhã cedo (pouco antes
tinha saído para o banho) junto
do roupeiro claro, e alto: entre
o espelho quando se entra,
e ao longo, e larga («No princípio
era desfeita») a minha cama.

III
[nota de João torrêncio bompasto ao seu singular falecimento]

Morri hoje. Não posso dizer
muito mais de quem morreu:
fui eu.

Bruno Béu, in Meditações sobre o Fim: Os Últimos Poemas, Lisboa, Hariemuj, 2012.




[1] Texto encontrado junto ao seu corpo nu, ainda molhado e oleroso.
[2] Sua empregada de longos anos.