As Calaveritas são um género de literatura
popular especificamente mexicana. Aproximam-se na sua forma e no seu tempo de
criação específico e perene às quadras populares portuguesas, são também elas
poemas em quadra, uma ou várias (embora haja exceções) e tal como as quadras
populares fazem parte de um conjunto amplo de celebrações de um dia específico
do ano, neste caso, o Dia de Mortos celebrado nos dias 1 e 2 de Novembro, o dia
1, dedicado às crianças mortas e o dia 2 aos adultos.
Também como as
quadras populares, as Calaveritas
invocam uma personagem, mas neste caso ao contrário das figuras católicas,
(Santo António, São João, São Pedro), a personagem central da invocação é a
própria personificação da morte, sem qualquer alusão a uma marca religiosa
católica. Essa marca existe nas celebrações uma vez que o Dia de Mortos
coincide com o Dia de Finados ou Dia de Todos os Santos do calendário religioso
de praticamente todos os países onde a religião cristã é predominante, no
entanto nesta festa de dimensão nacional o dia é apenas uma das poucas
apropriações que a igreja católica assumiu de uma festividade ancestral. O Dia
de Mortos é uma celebração de raiz pré-hispânica comemorada há mais de 3.000
anos por praticamente todas as civilizações mesoamericanas. Durante a
civilização asteca as festividades tinham a duração de um mês completo, o nono
mês do calendário solar asteca e tratava-se de um festival de grandes dimensões
que homenageava e celebrava a morte, não como um fim mas como uma passagem e
início de um novo ciclo.
Na atualidade, o
Dia de Mortos é uma das maiores festas mexicanas, a tradição popular acredita
que na noite de 1 para 2 de Novembro os mortos vêm visitar as famílias que
deixaram, por isso mesmo as casas são decoradas com papeis coloridos,
recortados em formas alegóricas específicas e é montado um pequeno altar de
oferenda aos mortos familiares, mesas decoradas com flores e com fotografias,
com as comidas e bebidas preferidas dos familiares que já faleceram, cigarros,
por exemplo no caso de ele ter sido fumador, charutos, uma garrafa de tequila
ou cerveja e objetos que simbolizam afinidades que eles tiveram durante a vida.
Da oferenda faz também sempre parte o pão de mortos, doce típico desta festa,
um pão redondo que em cima tem a forma de ossos que se cruzam no centro. Na
entrada das casas ou na mesa da Oferenda há também pétalas de flores de
diferentes cores dispostas de forma a criarem desenhos, também as campas dos cemitérios
são cobertas com estes desenhos feitos com pétalas. As Oferendas são também
feitas nos lugares de trabalho, nas empresas, nas escolas e universidades.
As Calaveritas
enquadram-se nesta celebração como uma manifestação cultural tipicamente
popular, mas que ao contrário das Oferendas, não são dedicadas aos mortos mas
sim aos vivos, amigos ou familiares a quem aquele que escreve dedica
satirizando algumas das suas características descrevendo o momento da morte da
pessoa a quem é dedicada. A morte aparece assim no poema sob as personagens de:
La Catrina, La Flaca, La Tilica, La Calaca ou la Parca. Os termos Flaca e Tilica (magra, esquelética) fazem
alusão ao esqueleto e de forma eufemística à morte, tal como Calaca (caveira).
A Catrina é a personagem feminina central
do imaginário popular mexicano ligada à morte que ela mesmo personifica, é
representada na forma de um esqueleto com um chapéu e ficou popularizada nas
gravuras do pintor José Guadalupe Posada. A Calaverita é, assim, um género poético
que, redigida em forma de epitáfio, simula o momento da morte. Vejamos este
exemplo:
La catrina llegó a la escuela
y a Laura tomó de la oreja
le dijo te llevo por ser gritona
aunque prometas y prometas
ay huesuda no me lleves
te prometo no gritar
te conozco Laura loca
que lo vas a intentar
la huesuda no creyó
y a Laura se llevó.
y a Laura tomó de la oreja
le dijo te llevo por ser gritona
aunque prometas y prometas
ay huesuda no me lleves
te prometo no gritar
te conozco Laura loca
que lo vas a intentar
la huesuda no creyó
y a Laura se llevó.
Pobre Laura ya murió
y a su amor abandonó
ay Gricell como le llora
a su amiguita adorada
y le dice ay amiguis mía
por qué fuiste tan mal portada…
y a su amor abandonó
ay Gricell como le llora
a su amiguita adorada
y le dice ay amiguis mía
por qué fuiste tan mal portada…
Como género
poético, as Calaveritas seguem um esquema narrativo e salientam ou aumentam de
forma jocosa as características físicas ou psicológicas da pessoa a quem é
dedicada, neste caso, a morte veio buscar a Laura porque ela gritava muito. Em
jeito de caricatura, os traços são exagerados, salientados de forma hiperbólica
e humorística e nem sempre é a morte que ganha porque também ela é satirizada,
por exemplo, a morte veio buscar A mas A era tão feia que a morte fugiu, ou a
morte veio por B mas B era tão gordo que a morte não o conseguiu levar, ou
ainda A Catrina veio buscar C mas ele era tão teimoso que ela desistiu. A morte
humanizada em todas as suas características pode não conseguir realizar o seu
objetivo. Assim na Calaverita pode não ficar fixado o momento da morte, mas sempre
um encontro com a morte, por exemplo na seguinte quadra: Tenía la muerte en
su lista / a Edith como pendiente / más no la reconoció, /pues ahora no tiene
dientes.
A Morte pode não reconhecer, pode
desistir do seu objetivo ou ainda juntar-se àquele que vinha buscar, por
exemplo, Estava D a comer pastéis quando veio a morte que tinha muita fome e
comeu com ele.
O efeito humorístico da Calaverita não passa
só pela sátira à pessoa a quem é dedicada, mas também pela sátira à própria
morte que é tornada risível, ridícula (mais tolerável) porque dela se ri.
Servem-se assim de um humor negro simples e direto para expressar amizade ou
amor, são uma manifestação de afeto através de um intermediário improvável, a
morte. encontram o riso na morte, olhando-a de frente.
Na imprensa mexicana do século XIX as
Calaveritas apareciam como formas de crítica política, eram quase sempre
acompanhadas de gravuras, como neste caso:
Nuno Brito.
