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domingo, 29 de maio de 2016

D. H. Lawrence

A poesia, dizem, é uma questão de palavras. E é verdade, tanto quanto a pintura é uma questão de tinta e o afresco, uma questão de água e ocra. Mas isso está tão longe de ser toda a verdade que soa um tanto simplista quando dito secamente.
A poesia é uma questão de palavras. A poesia consiste em combinar palavras para fazê-las ondular e vibrar e colorir. A poesia é um jogo de imagens. A poesia é a iridescente sugestão de um idéia. A poesia é todas essas coisas e, contudo, é algo mais. […]
A qualidade essencial da poesia consiste em que ela exige um esforço renovado da atenção, e que “descobre” um mundo novo no interior do mundo conhecido. O homem, e os animais, e as flores, vivem todos dentro de um caos estranho e permanentemente revolto. Chamamos cosmo ao caos ao qual nos acostumamos. Chamamos consciência – e mente, e também civilização –  ao indizível caos interior de que somos compostos. Mas trata-se, em última instância, do caos, iluminado por visões, ou não iluminado por visões. Exatamente como o arco-íris pode ou não iluminar a tempestade. E, tal como o arco-íris, a visão perece.
Mas o homem não pode viver no caos. Os animais podem. Para o animal tudo é caos, havendo apenas algumas poucas e recorrentes agitações e aparências em meio ao tumulto. E o animal fica feliz. Mas o homem não. O homem deve envolver-se em uma visão e construir uma casa que tenha uma forma evidente e que seja estável e fixa. No pavor que tem do caos, começa por levantar um guarda-chuva entre ele e o permanente redemoinho. Então, pinta o interior do guarda-chuva como um firmamento. Depois, anda à volta, vive, e morre sob seu guarda-chuva. Deixado em herança a seus descendentes, o guarda-chuva transforma-se em uma cúpula, uma abóbada, e os homens começam a sentir que algo está errado.
O homem ergue, entre ele e o selvagem caos, algum maravilhoso edifício de sua própria criação, e gradualmente torna-se pálido e rígido embaixo de seu pára-sol. Então ele se torna um poeta, um inimigo da convenção, e faz um furo no guarda-chuva; e oba!, o vislumbre do caos é uma visão, uma janela para o sol. Mas depois de um certo tempo, tendo se acostumado à visão, e não lhe agradando a genuína golfada de ar do caos, o homem do lugar-comum rascunha um simulacro da janela que se abre para o caos, e remenda o guarda-chuva com o remendo pintado do simulacro. Isto é, ele se acostumou à visão; ela faz parte da decoração de sua casa. De maneira que o guarda-chuva finalmente parece um amplo e brilhante firmamento, de vistas variadas. Mas, que pena!, é tudo simulacro, feito de inumeráveis remendos. Homero e Keats, cheios de anotações e acompanhados de um glossário.
Esta é a história da poesia em nosso tempo. Alguém vê Titãs no ar selvagem do caos, e o Titã torna-se uma parede entre as sucessivas gerações e o caos que elas deveriam ter herdado. O céu selvagem pôs-se em movimento e cantou. Até isso torna-se um grande guarda-chuva entre a humanidade e o céu de ar fresco; ele tornou-se, então, uma abóbada pintada, um afresco num teto abobadado, sob o qual os homens empalidecem e se tornam infelizes. Até que um outro poeta faça um buraco no amplo e tempestuoso caos.

D.H. Lawrence – in Selected Critical Writings, p. 234

Partilhado a partir de Olho de Corvo

quarta-feira, 30 de abril de 2014

D.H. Lawrence


Figos


A maneira correcta de comer um figo à mesa

É parti-Io em quatro, pegando no pedúnculo,

E abri-Io para dele fazer uma flor de mel, brilhante, rósea, húmida,

desabrochada em quatro espessas pétalas.


Depois põe-se de lado a casca

Que é como um cálice quadrissépalo,

E colhe-se a flor com os lábios.


Mas a maneira vulgar

É pôr a boca na fenda, e de um sorvo só aspirar toda a carne.


Cada fruta tem o seu segredo.

O figo é uma fruta muito secreta.

Quando se vê como desponta direito, sente-se logo que é simbólico:

Parece masculino.

Mas quando se conhece melhor, pensa-se como os romanos que é

uma fruta feminina.


Os italianos apelidam de figo os órgãos sexuais da fêmea:

A fenda, o yoni,

Magnífica via húmida que conduz ao centro.

Enredada,

Inflectida,

Florescendo toda para dentro com suas fibras matriciais;

Com um orifício apenas.


O figo, a ferradura, a flor da abóbora.

Símbolos.


Era uma flor que brotava para dentro, para a matriz;

Agora é uma fruta, a matriz madura.


Foi sempre um segredo.

E assim deveria ser, a fêmea deveria manter-se para sempre

secreta.


Nunca foi evidente, expandida num galho

Como outras flores, numa revelação de pétalas;

Rosa-prateado das flores do pessegueiro, verde vidraria veneziana

das flores da nespereira e da sorveira,

Taças de vinho pouco profundas em curtos caules túmidos,

Clara promessa do paraíso:

Ao espinheiro florido! À Revelação!

A corajosa, a aventurosa rosácea.


Dobrado sobre si mesmo, indizível segredo,

A seiva leitosa que coalha o leite quando se faz a ricotta,

Seiva tão estranhamente impregnando os dedos que afugenta as

próprias cabras;

Dobrado sobre si mesmo, velado como uma mulher muçulmana,

A nudez oculta, a floração para sempre invisível,


Apenas uma estreita via de acesso, cortinas corridas diante da luz;

Figo, fruta do mistério feminino, escondida e intima,

Fruta do Mediterrâneo com tua nudez coberta,

Onde tudo se passa no invisível, floração e fecundação, e maturação

Na intimidade mais profunda, que nenhuns olhos conseguem

devassar

Antes que tudo acabe, e demasiado madura te abras entregando

a alma.


Até que a gota da maturidade exsude,

E o ano chegue ao fim.


O figo guardou muito tempo o seu segredo.

Então abre-se e vê-se o escarlate através da fenda.

E o figo está completo, fechou-se o ano.


Assim morre o figo, revelando o carmesim através da fenda púrpura

Como uma ferida, a exposição do segredo à luz do dia.

Como uma prostituta, a fruta aberta mostra o segredo.


Assim também morrem as mulheres.


Demasiado maduro, esgotou-se o ano,

O ano das nossas mulheres.

Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.

Foi desvendado o segredo.

E em breve tudo estará podre.


Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.


Quando no seu espírito Eva soube que estava nua

Coseu folhas de figueira para si e para o homem.

Sempre estivera nua,

Mas nunca se importara com isso antes da maçã da ciência.


Soube-o no seu espírito, e coseu folhas de figueira.

E desde então as mulheres não pararam de coser.

Agora bordam, não para esconder, mas para adornar o figo aberto.


Têm agora mais que nunca a sua nudez no espírito,

E não hão-de nunca deixar que o esqueçamos.


Agora, o segredo

Tornou-se uma afirmação através dos lábios húmidos e escarlates

Que riem perante a indignação do Senhor.


Pois quê, bom Deus! gritam as mulheres.

Muito tempo guardámos o nosso segredo.

Somos um figo maduro.

Deixa-nos abrir em afirmação.


Elas esquecem que os figos maduros não se ocultam.

Os figos maduros não se ocultam.

Figos branco-mel do Norte, negros figos de entranhas escarlates do Sul.

Os figos maduros não se ocultam, não se ocultam sob nenhum clima.

Que fazer então quando todas as mulheres do mundo se abrirem na

sua afirmação?

Quando os figos abertos se não ocultarem?



D.H. Lawrence (1885-1930)