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terça-feira, 22 de abril de 2014

Daniel Jonas: Nó


Do ventre da baleia ergui meu grito:
Senhor! (dizer teu nome só é bom),
Em fé, em fé o digo, mesmo com
Um coração pesado e contrito
Que és de tudo verdade e não mito,
O coração do amor, de todo o dom,
Conquanto seja raro o bem e o bom
E toda a luz aqui me falhe, és grito
Que chama toda a chama de esperança
E acorda a luz que resta à réstia eterna,
Conquanto viva o mártir na espelunca
Da vida (quem espera amiúde alcança)…:
Possa o nazireu preso na cisterna
Sofrer de ser só tarde mas não nunca.

Daniel Jonas, in «Nó». Assírio & Alvim 


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Daniel Jonas: Passageiro Frequente

DENTE-DE-LEÃO

A juba encanecida do dente-de-leão.
Eu soprei-a como velas
de aniversários
e ele envelheceu anos.

Ali, tão calvo agora, o ancião,
um leão glabro
entupido de testosterona,
um Sanção

com a sua cerviz rente
descravando
dos quadris da fêmea
a fome de uma semente.



Daniel Jonas, Passageiro Frequente, Língua Morta, 2013.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Daniel Jonas



MODORRA

Despe-te.

Já nada resta em mim que possas ocupar.
O fumo envolve-te na sua imprecisão.
Como, aliás, todas as coisas.
Tens-me a mim de pescoço decepado.

Leva-me.

não peso mais que a vida.
Respiro cidades de pólvora atrás do teu ouvido.
Sou o teu servo fiel. Chamo-te amo.

Das carúnculas vão-me servir aves, sangue.
Feneço. Sou um espírito perfeitamente incompatível
comigo mesmo. Serei coxo se fores coxo.
Serei implacavelmente belo se o fores também.

Durmo de joelhos. Deus às vezes esquece-se
da sua condição (É da idade). Planeio um
programa de dissolução sem retorno possível.
Sou um barco e gosto.

Das arquibancadas de mim mesmo
aplaude-se a minha capacidade de acreditar.
Sou um produto da revolução industrial, isso é
indiscutível. Caminho para um fim tóxico, alarmante.

Gostaria de filmar o teu pouco à-vontade.
A ti que perdeste o estilo.
Gostaria de filmar a tua queda
com calças de licra ou com óculos de sol.
Gostaria de te olhar nos olhos e dizer:
Estou espantado com a tua condição humana,
Joana ou Gonçalo.

Silencia-me .

As minhas ideias não são minhas. Na verdade,
quem terá ideias próprias? Uma ideia
é apenas um constrangimento, nada mais.
Enterra o teu machado de guerra nas minhas
costas e fuma depois o teu cachimbo da paz.

Será que tudo o que digo é poesia?
Quais serão os limites para a minha arte?
Dizer qualidade de vida será impossível
face a essência do éter?



                                                     Serei um marginal?

Tenho como maior ambição ser um poeta menor.
Conhecido por este ou aquele dito jocoso, pouco mais.
Quero levar versos às tuas presilhas e passar
notavelmente despercebido.
Quero beber cerveja pela tua boca. É tudo meu amor.


Daniel Jonas - O corpo está com o rei.


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Daniel Jonas


É OUTONO E CHOVE NO MEU SONETO.

Pingam as rosas, partem os comboios,
Aquela rapariga de olhos lóios
Tapou as belas gemas em véu preto.
O relógio da torre executa as horas:
Brada dobre balada o sino algoz.
Quem sou não foi quem fui, um albatroz
Debica-me quem resto, crava esporas.
Não choram arcadas mas traves mestras,
Arqueia o pé direito do meu dorso;
Num saco levo o corpo, um pobre torso
Que dou aos pobres pombos das fenestras.
Um sopro do precórdio asfixiado
Afrouxa a corda e sai triste e cansado.

Daniel Jonas: in "Sonótono", Cotovia 2007.