A
Contestação Social e a Criação Literária na Arte Urbana pós 25 de Abril em
Portugal
Conferência Arte e
Cultura Urbana: CELE, UNAM
Nuno Brito, 22 de Abril de 2013
A expressão “Arte Urbana” foi utilizada pela primeira vez
dentro da área da arquitetura. Como conceito académico “Urban Art” começa a ser usado para referir certos traços de grande
inovação e acabamento técnico no urbanismo, no desenho e planeamento de certas
zonas das cidades. O conceito era usado então num sentido lato por arquitetos
pré-urbanistas como John Ruskin ou William Moris. No entanto dentro da
linguagem específica da arquitetura e nomeadamente do planeamento urbano este
termo vai cair em desuso sendo substituído por “Arte Pública”.
O conceito de “Arte Urbana” vai passar a designar então
todo o conjunto de manifestações artísticas realizadas em espaço público.
Designa primeiro o conjunto de inscrições murais e outras expressões criativas
feitos em espaços coletivos.
Como conceito abarcador e dinâmico refere-se a todas as
manifestações artísticas em espaços públicos. Manifestações que percorrem
diferentes áreas artísticas. A pintura mural utiliza diferentes materiais e
técnicas de desenho e escrita no suporte muro (graffiti, estêncil, stickers,
posterbombs). Refere-se não só às artes plásticas realizadas no exterior mas
também a outras áreas como as representações teatrais: o clown, a performance,
as intervenções e instalações, o teatro humorístico ou crítico, o malabarismo
ou as estátuas vivas.
As principais manifestações de arte urbana centram-se na
pintura, desenho ou escrita mural. Mas ainda dentro das artes plásticas
podem-se encontrar esculturas, embora menos comuns. (veremos um exemplo à
frente).
Nos anos 70 deu-se a emergência do movimento cultural e
artístico do hip hop. Um movimento
que surge em contexto urbano (em alguns bairros da cidade de Nova York
habitados sobretudo por comunidades afro-americanas, jamaicanas e latino-americanas)
Tratava-se de comunidades densamente habitadas e marcadas por grandes
desigualdades sociais. O Hip hop surge desde logo como um movimento musical – à
música associada a este movimento, o rap, que se baseava sobretudo no Djing
aliava-se uma série de outras manifestações culturais: estilos de dança próprios: o break dance, o locking e o popping.
Uma forma de vestir e de linguagem também próprias – um socialecto que exprimia
uma forma de estar no mundo.
Um estilo de música que se baseava em batidas rítmicas marcadas
por pausas loop (pequenos excertos de
música com ênfase na sua repetição), o uso do sampling e uma técnica vocal de
grande inovação cujas letras se baseavam em motivos de forte crítica política e
social em que ritmo e poesia se aliavam na passagem de uma mensagem
(normalmente de contestação).
Mais do que um estilo de música o hip hop representava
todo um conjunto de pensamento e forma de estar na vida. O movimento tem o seu
inicio em South Bronx e expande-se muito rapidamente a outros bairros de Nova
York e desse centro extremamente difusor por natureza, expande-se , ao longo
dos anos 70 e inícios de 80 um pouco por todo o mundo. Nestes bairros marcados
sobretudo pela marginalização e problemas sérios de fundo (cenários de
violência, de lutas de gangs e problemas relativos ao tráfico de droga) os
principais membros do movimento hip hop passam a usar o graffiti como meio de
expressão do seu movimento.
A difusão da pintura mural no contexto da arte urbana,
aliado inicialmente a este movimento vai assumir várias funções. Uma delas
meramente territorial, no que diz respeito a uma demarcação de posse de um
gang. Um determinado gang ou grupo usava uma espécie de assinatura ou sinal
comum (identificador do grupo) e essa assinatura ou sinal era pintado na parede
como forma de posse e controlo dessa zona (uma rua, um conjunto de ruas ou
ainda toda a parcela de um bairro ou todo um bairro). Esse sinal mostraria, face
a um grupo rival que aquela era a zona de domínio de outro. Este primeiro
objetivo vai coexistir desde logo com um segundo e principal que será a crítica
e contestação política e social em suporte muro.
A crítica mural pode usar desde logo diferentes áreas
criativas. Tanto “a escrita” como o “desenho ou pintura” ou ainda a conjugação
dos dois, recorrendo a diferentes técnicas que podem potencializar a força da
mensagem.
Antes de partir para o conteúdo destas críticas podemos
ver primeiro o que implica esta forma de expressão artística. Dentro da arte
urbana vamo-nos focalizar agora apenas na pintura mural.
A primeira grande característica da pintura mural é desde
logo a subversão, primeiro porque é um ato ilegal e proibido. Primeiro pelo
dano, por parcial que seja, numa propriedade privada ou num edifício público,
segundo pelo carácter de subversão, que numa certa imagem do senso comum, alia
este movimento artístico a conceitos como “vandalismo” e “marginalização”. Este
aspeto proibitivo vai marcar este movimento desde logo no seu processo
criativo. O graffiti vai ser feito sobretudo à noite por grupos de pessoas
(nunca isoladamente), com um certo risco (normalmente alguns elementos ficam na
esquina da rua ou a respaldar o que pinta para avisar no caso de haver
patrulhamento da polícia por perto). A pintura mural é feita por isso
recorrendo ao mínimo de tempo possível. Condicionado pela situação de risco e
pela falta de tempo, o grafitti vai ganhar com esta situação a de ser quase
sempre uma obra conjunta e uma representação artística anónima ou parcialmente anónima. Pode haver em alguns
casos alguma espécie de signos ou assinaturas que possam identificar um grupo
de pessoas mas nunca, ou muito raramente, uma pessoa isolada. Pode-se assim
dizer que o ato criativo é marcado por uma situação de precariedade, de
fragilidade e de insegurança. Neste sentido a arte urbana liga-se desde logo ao
risco.
Uma outra característica da pintura mural é o seu
carácter, ainda que aparente, de permanência e de prolongamento no tempo. O
suporte muro (em pedra, tijolo ou cimento por exemplo) garante aparentemente
uma maior durabilidade da criação se o compararmos com uma pintura em tela, um
desenho em papel ou noutro suporte menos duradouro. Mas pelo seu carácter de
infração faz com que sejam apagados por estarem em propriedade pública ou
privada. No que diz respeito à durabilidade a fixação da mensagem (pintada ou
escrita) não tem uma duração segura mas o campo da sua visibilidade é
potenciado, a mensagem é vista por uma grande quantidade de pessoas. O que os
artistas praticam nesta forma de
manifestação pública é esse mesmo carácter de abertura ao público, de “Arte
Aberta” completamente acessível no quotidiano, nas ruas, nas praças ao contrário
“de uma arte fechada” em galerias e museus. Reivindicação da expressão
artística na área pública, na cidade aberta, com uma mensagem direta àquele que
passa na rua. Reparemos na interpolação direta com o transeunte na frase “Pára e Pensa” escrita numa parede.
Reivindicação da “Arte aberta” em “Espaços abertos” que têm de conviver com a
sua própria vertente de proibição.
Esta proibição obriga a um fortalecimento da criatividade,
desde logo a criatividade pragmática do conjunto de artistas para não serem apanhados,
por exemplo criando novas técnicas de criação artística que lhes permitam fazer
o trabalho mais rápido e mais eficazmente: o estêncil por exemplo é um processo
que permite a fixação da pintura, desenho ou frase mais rapidamente na parede
uma vez que há uma espécie de molde de papel que permite que o artista apenas
preencha as formas com as diferentes cores, processo que agiliza assim o
momento de fixação da mensagem. Processo que é apenas a sua fase final: fixação
na parede agora não tão demorada e sem tenta exposição ao risco. O estêncil no
entanto obriga a uma maior planificação, a um maior desdobramento do processo
criativo, o trabalho em casa, feito de uma forma segura e com a tranquilidade
necessária que pode implicar novas fases do processo, investigação, reunião em
conjunto por exemplo da ideia a expressar, e o momento final do processo, o da
sua fixação. O carácter proibitivo da pintura mural obriga também a que o
esforço tenha de ser canalizado em conjunto e este carácter unitário é um dos aspetos
fundamentais da pintura mural enquadrada na arte urbana.
Conjuntos anónimos de pessoas que se fortalecem sob a
força do anonimato.
Nesse sentido a arte urbana ao contrário da arte da galeria
ou da arte de museu nunca visaria o reconhecimento pessoal ou individual.
Desvinculada a mensagem do nome que a produziu a arte urbana liberta-se da
questão de autoria, do sentido de posse e propriedade inteletual, sendo que a
única propriedade que a arte urbana reclama é a Cidade como suporte artístico,
como lugar (toda ela) suscetível de ser um suporte para uma mensagem (sendo que
essa mensagem não está ligada a um individuo mas a uma voz coletiva, unitária).
Desvinculada a mensagem da posse de um nome (o autor) a mensagem ganha
impersonalidade, não se terá de preocupar por questões estilísticas que as poderiam
vincular a um individuo. A Cidade liberta-se do Indivíduo e a mensagem não
passará por outros filtros - diretamente ela está acessível à população que
atravessa as ruas (que se pode identificar com ela ou não).
A Cidade como um campo e suporte de mensagens – de
transmissão de informação (artística, crítica, incisiva).
A pintura mural pode adquirir muitas variantes, ter
muitos objetivos, visar diferentes fins mas as suas características
fundamentais serão sempre a Proibição e o Anonimato.
Liberta da questão autoral a pintura mural pode avançar
para um seguinte grau da mensagem e esse grau será o do seu pragmatismo. No
caso da “escrita no muro” aquilo que se quer dizer desvincula-se
individualmente daquele que o diz, do produtor de informação, a mensagem
liberta-se para um sentido de utilidade
centrado agora unicamente no recetor. A crítica social tem assim um
vasto campo de possibilidades aberto: primeiro porque toda a cidade lhe pode
servir de suporte e segundo porque a crítica é anónima e sendo anónima e
pública quase sempre resume um sentimento geral (que pode ser o de
descontentamento coletivo). Focalizando-se no recetor e unicamente no recetor a
pintura mural será o mais prática, incisiva e direta na transmissão da mensagem, porque agora essa
mensagem é dirigida às pessoas da rua.
Na “Arte Urbana” o próprio suporte pode ser, e é muitas vezes,
uma parte determinante da mensagem. Imaginemos que o suporte é um edifício
público (uma prisão por exemplo ou as paredes de um parlamento), a mensagem que
aí estiver escrita é de tal forma condicionada pelo sítio onde está escrita
(essa prisão ou esse parlamento) que passa para um segundo plano.
Na arte Urbana mais do que em qualquer outra, o suporte
pode ser utilizado de formas amplamente inovadoras. É o caso por exemplo do
artista coletivo Banksy que elaborou pinturas murais de grandes dimensões em
várias cidades de países diferentes e que mantém uma força do anonimato de
grande projeção. Banksy assume um papel crítico fundamental em relação a muitos
aspetos da sociedade contemporânea. Os seus trabalhos criativos focam-se
sobretudo em temas de grande relevância a nível global: a crítica ao
capitalismo neoliberal, às desigualdades sociais que criam autênticos enclaves
dentro das próprias cidades e graves abismos sociais. Mas esta crítica funde-se
quase sempre com elementos humorísticos representados em imagens de grande
intensidade denunciando um sistema fachada que está pronto a derribar-se. As
personagens desenhadas repetem-se, desdobram-se para mostrar diferentes
elementos que ele critica através de antíteses fortes, através de um humor que
nos choca, que nos mostra percetível e plenamente palpável uma situação com que
estamos em desacordo mas que os olhos da rotina dão uma aparência de normal.
Mas o facto fundamental que queria referir em Banksy é a forma como explora ao
máximo a importância do suporte. As suas pinturas murais de grandes dimensões
que se encontram no Muro da Palestina feitas num momento crítico e de grande
instabilidade nas relações entre israelitas e palestinianos mostram-nos um
apuradíssimo espírito criativo de denúncia que se eleva ao papel de causa
global. Podemos falar, no caso de Banksy, de um autêntico ativismo artístico. O
facto da pintura de Banksy estar fixada num muro que causa uma autêntica
divisão real e física entre dois povos é só por si um potencializador da
mensagem, um intensificador daquilo que nele possa ser escrito ou pintado. Um
muro político levantado com uma função concreta, a da segregação, de
afastamento antinatural de culturas, de fronteira politica materializada num
sítio de bloqueio é por si só um suporte carregado de simbolismos, é um suporte que contém já uma voz – que conota
um grande conjunto de emoções.
Esta é a grande porta de que a Arte Urbana dispõe – utilizar
uma mensagem em cima de uma outra mensagem (ainda que não construída para isso)
possui já um grande nível de informação que serve a pintura mural: falar agora
mais alto, aproveitar essa voz inicial que de tão marcada já nos fala.(Ver
imagens
Nesse sentido a arte urbana pode ser uma causa global. Podemos
falar de um “Vandalismo Inteligente” que abre novas possibilidades no campo
artístico.
Ainda no que diz respeito ao suporte e a uma escala mais
pequena, um pequeno stencil escrito num balde do lixo está diretamente conotado
com o seu fundo.
Retirar de uma conotação inicial existente no suporte uma
segunda, ou libertar a mensagem (oculta) da primeira. O suporte meramente
físico é algo que dificilmente pode passar nas artes plásticas expostas em
galeria e na literatura publicada nos suportes escritos tradicionais.
A cidade, sítio de circulação de muitas pessoas é para a
Arte Urbana um suporte vivo “um museu vivo” por o enquadramento das pessoas que
dela fazem parte ser não só através do papel de espetador, de recetor das
manifestações artísticas mas ser feito de uma forma completamente ativa. Muitas
das representações artísticas murais são elaboradas a pensar no contacto com as
pessoas que passam nas ruas, nesse contacto em que as pessoas que passam fazem
parte da mesma mensagem artística, a pintura mural passa a ser mais do que isso
entrando no campo da performance, da comunicação total da arte com a cidade. Da
Arte amplamente viva em todos os sentidos em que a pintura mural abre canais de
comunicação de um enquadramento equilibrado com as pessoas e é impossível
(esvazia-se) sem esse enquadramento humano. São as pessoas, os transeuntes em
conjunto com a pintura mural que amplificam a mensagem e que criam novas formas
de a percecionar – de uma simples pintura mural em duas dimensões passamos para
o campo de uma instalação artística, a união criativa e dialogante entre a
cidade e os seus habitantes.
Anonimato, contacto direto com a proibição e o interdito
e maior exposição (a cidade toda) são as características fundamentais da
pintura mural em contexto da arte urbana. Aumento das possibilidades
expressivas no que diz respeito ao aproveitamento do suporte. Extração da voz
que ele implica e extração das diferentes conotações e cargas dos diferentes
edifícios da cidade. Aproveitamento técnico de um conjunto extenso de materiais
e processos gráficos que implica uma atualização constante dos meios utilizados
na criação artística em contexto público. Não só a criação de novos processos
que agilizem o processo de fixação, mas também o desenvolvimento incessante de
novas formas de expressar graficamente uma mensagem.
Antes de passar diretamente para o caso português
gostaria só de desmontar um pouco o conceito. Vimos que “Arte Urbana” evoluiu
de um conceito técnico aliado ao urbanismo (dentro dos estudos académicos da
área da arquitetura) para um conceito que passou a lidar diretamente com um
conjunto de manifestações artísticas – feitas de forma ilegal pelo dano à
propriedade que implicavam – . O conceito tornou-se amplo, englobou distintos
tipos de manifestações entre as quais a pintura mural é a mais representativa.
Mas centremo-nos um pouco no último vocábulo “Urbana” – “Urbana” designará esta
arte. Relembremos que atualmente é muitas vezes preferido o termo “Street Art”: (Arte de Rua) ao de “Urban Art” (Arte Urbana).
O termo “Urbano” remete-nos para um tipo de arte criado
no contexto da cidade. Se bem que este termo faça todo o sentido inicialmente
não devemos deixar-nos cair na sua aceção literal. É na cidade que esta forma
de expressão artística encontra o seu meio por excelência: a abundância de
edifícios públicos e privados, de muros onde por natureza este tipo de movimentação
se estende e propaga mais rapidamente. A cidade habitada agora por múltiplas
vozes, a cidade que fala com os seus habitantes através da voz desses mesmos
habitantes. Mas aqui quero referir que o termo urbano quando levado à letra dá-nos uma ideia falsa da natureza
global deste movimento.
No caso português, como em muitos outros, a pintura mural,
que ganhou uma grande projeção nos anos 70, esteve em alguns casos diretamente
ligada ao meio rural como iremos ver de seguida.
Entremos agora diretamente no caso português. Entre 1933
e 1974 Portugal esteve dominado por um regime fascista e totalitário. Entre
1933 e 1970 António Oliveira Salazar, como Presidente do Conselho, reunia em si
o domínio completo de todos os poderes do Estado. Em 1933 é elaborada uma
constituição que cria todo o aparato legal que protegerá o regime. No mesmo ano
é criada a Direção Geral de Censura que instaura a censura prévia e a polícia
política do regime. Ficam assim criados os aparelhos militares e repressivos
que controlarão o país. A criação de sindicatos, de partidos ou outras
organizações políticas contrárias ao regime vigente passam a ser proibidas. O
País fica completamente controlado pela União Nacional dirigida diretamente por
António Oliveira Salazar. O regime do Estado Novo, um dos regimes fascistas de
maior duração em todo o mundo vai estabelecer a sua direção política no regime
corporativista de Benito Mussolini. As suas bases ideológicas assentarão no
culto do nacionalismo que levará a uma propaganda constante, através do
controlo completo do ensino e dos meios de comunicação. A repressão militar
fará ao longo de quase todo o século XX um grande número de presos e exilados
políticos. Os mecanismos de propaganda, repressão e censura vão sendo
aperfeiçoados. A polícia política associada a um grande número de informadores
vai controlar a vida pública. A censura proibirá a partir de então a realização
de muitos espetáculos teatrais que considerava subversivos. Controlará também
todo o tipo de publicações periódicas filtrando e selecionando toda a
informação. A informação era deturpada também pela propagando que se servia de
todo o tipo de efeitos para manter um regime opressivo. Os interrogatórios a
que os resistentes contra o regime ou os escritores eram submetidos criavam um
clima constante de medo e atuavam como fortes inibidores à contestação social,
à crítica e à criação literária ou artística.
A agravar a situação Portugal isolava-se do contexto
internacional. “Orgulhosamente sós” é uma das máximas de António Oliveira
Salazar. Inicia-se a guerra colonial que Portugal vai manter por cerca de 14
anos com a Guiné Bissau, Moçambique, Angola e Cabo Verde, colónias ultramarinas
onde Portugal mantinha ainda o seu domínio político e económico. O arrastar da
guerra colonial e o prolongamento de um regime fascista ao longo de quase todo
o século XX vai levar à revolução militar de 25 de Abril de 1974 que derruba
finalmente a ditadura.
Logo no dia da revolução é declarado o fim da guerra
colonial, é suspensa a polícia política e a censura. Inicia-se o processo de
transição para um regime democrático que levará ao estabelecimento das
primeiras eleições livres.
A revolução de Abril em Portugal representou a mudança
mais rápida e abrangente de toda a História do País. Em apenas um dia todas as
estruturas do regime fascista são derrubadas.
Antes de Abril de 1974 a arte urbana em Portugal é
praticamente inexistente pelo elevado risco que representava, pelo controlo
total da informação pela polícia política. Mas logo nos dias subsequentes à
revolução as manifestações efusivas de contentamento e de libertação vão-se realizar
a uma grande escala. Em poucas semanas a paisagem urbana muda radicalmente.
Os temas das pinturas murais vão ser sobretudo políticos
e sociais, inicialmente não tanto de contestação ou crítica, mas sim de alegria
pelo fim do regime. Há uma autêntica explosão de pinturas murais. Algumas das
frases escritas são citações de partes de canções de intervenção de músicos
cujos discos eram proibidos pelo regime. Música de carácter subversivo que
andava agora na boca de todos, o acesso aos livros sem limitação alguma, nenhum
controlo da informação. A revolução de Abril representou um salto incrível, um
marco sem precedentes na liberdade de expressão que representou o acesso a um
mundo completamente novo em Portugal. A efusividade da população e o sentimento
de libertação provocou um clima de autêntica febre e euforia coletiva refletido
de imediato nas pinturas murais que se expandem nos contextos urbanos. A Arte
Urbana tem neste cenário pós revolução de Abril um campo de propagação dentro
da realidade portuguesa . O clima que se vivia depois de Abril de 1974 é
intensificado por um conjunto enorme de mudanças sociais. Com a revolução vem o
fim da guerra colonial e os motivos para festejar são muitos. Nesse sentido
quase todas as pinturas murais elaborados depois do 25 de Abril têm como
conteúdo a exaltação da liberdade. As pinturas que incluem textos são sobretudo
aforismos sobre a liberdade, o seu conteúdo é o da celebração. A pintura mural
no âmbito da arte urbana surge em Portugal não tanto sob uma forma subversiva e
com temas de crítica social mas pelo contrário irrompe num cenário de
contentamento geral. A seleção passa por cores bastante vivas e exalta alguns
dos símbolos da revolução, o cravo por exemplo aparece figurado bastantes vezes,
a flor vermelha que no dia 25 de Abril foi distribuída aos soldados em forma de
agradecimento. Alguns dos soldados puseram as flores dentro dos canos das metralhadoras
deixando a flor de fora e esse seria o elemento simbólico central da revolução,
uma revolução que foi conquistada com a ajuda da população de Lisboa que
agradece oferecendo flores aos soldados. Nas primeiras pinturas murais aparecem
cores sobretudo quentes – o vermelho (a cor do cravo) e o amarelo, o azul claro
e as cores vivas dos contrastes cromáticos fortes.
Mas o período que se sucedeu à revolução foi intenso
pelas movimentações gerais que criou. O avanço do comunismo coexistiu com o
período da tentativa de implantação da reforma agrária. Vive-se então um clima
de grande intensidade, de tensões crescentes entre grupos de esquerda e de
direita. No campo, sobretudo na região do Alentejo, zona de grandes
latifúndios, as terras foram tomadas por grupos de camponeses.
Nesse sentido referia que o conceito de “urbano” ligado à
arte em espaços públicos pode ser um pouco limitador, uma vez que vai ser
muitas vezes em centros rurais, onde anteriormente se concentravam grandes
propriedades agrícolas, que vamos ver a emergência de manifestações artísticas
reivindicativas dos direitos da classe camponesa. Uma classe que em Portugal
tinha visto os seus direitos estancados por uma classe de grandes proprietários
agrícolas que possuíam grandes latifúndios (Imagens 6, 7 e 8).
No campo, o espírito da revolução redobra-se e as revindicações
tornam-se mais nítidas.
O Verão Quente de 1975 como depois ficou conhecido foi um
período de grande instabilidade em que certos sectores defendiam uma evolução
mais radical da revolução. Em resposta às expropriações e ocupações de terra
promovidos pela esquerda no sul do país, dão-se alguns confrontos violentos,
atentados bombistas e assaltos às sedes de alguns partidos. O clima de agitação
politica leva a operações militares que poderiam ter desencadeado uma guerra
civil. Os interesses estratégicos dos Estados Unidos da América fazem-se desde
logo sentir. O então dirigente da CIA Frank Carlucci é destacado para Portugal
como embaixador e não excluía a hipótese de uma intervenção armada
norte-americana.
Muita da contestação social na pintura mural desta
altura, mesmo em contexto urbano assume também o carácter de apoio aos
camponeses e de motivação à reforma agrária. A situação dos camponeses é então
um dos temas fortes da pintura mural de 1974 e 1975 tanto no campo como na
cidade.
Às demonstrações de felicidade, ao apoio aos camponeses e
às reivindicações agrícolas juntam-se também outros temas. Um deles é a
demonstrações de contentamento pelo fim da guerra colonial, pelo apoio aos
países africanos que finalmente obtém a independência logo depois de Abril:
Angola, Moçambique, Guiné Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor. As
manifestações de apoio aos movimentos independentistas nestes territórios
fazem-se sentir com mais força e refletem-se nas preocupações registadas nos
muros. Aforismos políticos de
preocupação mais globais como a crítica ao neocapitalismo dominante são também
temas fortes e mais abrangentes registados na arte mural popular.
As principais cidades portuguesas revestem-se de cores
novas: de frases de celebração, unidade e reivindicação de uma sociedade justa
e igualitária liberta para sempre do regime fascista que dominou Portugal ao
longo de grande parte do século XX.
Antes de vermos alguns exemplos gostaria de dizer que
ainda em 1975 com a realização das primeiras eleições democráticas livres uma
grande parte da pintura mural vai servir as campanhas eleitorais dos diferentes
partidos. Vai ser sobretudo o sector dos partidos de esquerda que vai usar mais
este tipo de campanha através dos slogans políticos aliados aos desenhos. Nas
paredes vai predominar a cor vermelha, cor dominante que refletia também os
interesses e esforços dos principais sectores de esquerda. O slogan político
alia-se a todo o tipo de manifestações artísticas de arte urbana tanto nos
meios rurais como urbanos. Em alguns deles através de mensagens que interpelam
diretamente o observador.
A par deste carácter político que determina diretamente a
maior parte das mensagens e do facto de muitas destas manifestações ocorrerem
nos meios rurais há outras características importante da pintura mural deste
período em Portugal, uma das quais é o carácter coletivo deste tipo de
criações. Nas semanas e meses que se seguiram à revolução alguns artistas
plásticos são convidados a pintar murais coletivos em sítios públicos, normalmente
em espaços de ensino ou edifícios de instituições. Murais de grandes dimensões,
em que é impossível reconhecer que parte é pintada por quem, assumem um
carácter unitário de criação artística. Em poucos meses as ruas enchem-se de
cores, de aforismos, de slogans políticos, de atos reivindicativos. Portugal
expressava através da arte urbana aquilo que tinha calado ao longo de quase 70
anos de repressão ditatorial.
A maior parte das frases referem declaradamente o dia da
revolução, por exemplo “25 de Abril Sempre”. “Dá mais força à Liberdade” ou
“O Sol Brilhará para todos nós” são outras das mensagens recorrentes
apropriadas depois em slogans de campanha do Partido Comunista Português,
aquele que vai usar mais as paredes como Voz.
A Cidade, com as suas paredes e muros vai ser uma mostra
de um sentimento geral de libertação e nesse sentido a pintura mural do pós 25
de Abril pode ser vista como um amplo acervo de documentação histórica pois
reflete as perspetivas, ansiedades, contentamentos, instabilidades e o espírito
da população do pós Revolução de Abril.
Nesse sentido o Centro de Documentação 25 de Abril,
criado pela Universidade de Coimbra possui um vasto arquivo fotográfico das
pinturas murais mais representativas dos primeiros anos pós revolução. São mais
de 500 fotografias. Um arquivo que o Centro de Documentação 25 de Abril
disponibiliza via on-line e que pode ser consultado por todos. Um arquivo que
pode servir aos diferentes domínios das ciências sociais, a História, a
Sociologia mas também à Literatura Comparada que pode encontrar na Pintura e
inscrição mural um vasto campo de pesquisa – o da literatura marginal (marginal
em relação à sua forma de transmissão diferente da tradicional: o muro como um
novo suporte). Um vasto campo de pesquisa em que a Literatura Comparada e os
estudos literários de inter-artes podem explorar a relação direta da literatura
com o fenómeno da arte urbana e mais diretamente da pintura ou inscrição mural.
Fenómenos interartísticos que devem ser integrados como um todo numa pesquisa
abrangente deste período. Também a música (neste caso a música de intervenção)
vai dialogar diretamente com o tipo de inscrições murais. Algumas partes das
letras de músicas de intervenção (proibidas antes de 1974) vão ser escritas nas
paredes como símbolos da conquista da democracia e da liberdade de expressão: “Grândola Vila Morena” ou “A Morte saiu à rua” tornaram-se símbolos
musicais da revolução. A letra desta última foi reformulada em “O povo saiu à
rua”.
A contestação social, a criação literária, as artes
plásticas agora vistos como documentos históricos, reflexos de um dos períodos
com as mutações mais rápidas e profundas de que há memória no país. A Arte
Urbana, a expressão popular e sincera deste período histórico foi mais do que
um veículo para expressar esta mudança - As paredes refletiram, como nunca
antes, toda a expressividade reprimida em anos de opressão.
A cidade e o campo vestiram-se de novas cores e
refletiram um sentimento geral que retira de uma primeira voz (a cidade
habitada pelos seus habitantes em que os diferentes edifícios têm já conotações
primeiras, carregadas já de primeiras impressões) uma segunda voz, a que
reflete um sentimento quase sempre geral, o de todos.
Créditos Fotográficos:
Imagens Recolhidas do Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de
Coimbra:
Arquivo Fotográfico On-line: http://www1.ci.uc.pt/cd25a/wikka.php?wakka=Galeria&pn=0&album=Murais+Neuparth
Nuno Brito







