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domingo, 13 de abril de 2014

Inês Fonseca Santos

Por muito que

…como se correr perigo não fosse talvez a minha mais profunda razão de vida

Ruy Belo


Como se correr perigo não fosse talvez
a minha mais profunda incapacidade

(por muito que os significantes possam significar)

escrevo melhor nos sítios onde o papel se desfaz
durante o mergulho
no banho
à chuva

num dilúvio, sei, teria escrito apenas

isto

Inês Foneca Santos, in Revista Correntes de Escrita, 2014.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Inês Fonseca Santos: Sobre o asfalto I

Os poemas apanham-se como doenças
mas curam
assim que chegam à base
da existência (O’Neill

tomando banho após quebrar
o gelo). Lá, onde palavra
nenhuma existe, apenas
a tentativa do som.

É sobre o asfalto que tudo existe – e contra
o esquecimento. Mesmo o primeiro poema
sobre a pedra escrito e apagado; o primeiro,
esquecido por todos, causa última

de tanta literatura e interpretação. Lá, onde
a memória já se confunde com a imaginação.
Lá, onde se pode morrer de morte irreal,
lá, onde se pode acreditar:

o pai de Kate fazia nevar
 dentro de um livro.


Inês Fonseca Santos, in Meditações sobre o fim: os últimos poemas, Lisboa, Hariemuj, 2012.

sábado, 20 de julho de 2013

As Coisas Conhecidas



Não são coisas se lhes soubermos os limites,
Conhecermos as formas, o volume, a superfície.
As coisas conhecidas são pedras e poemas. E o teu nome
sempre infiltrado nos versos.
Colecciono-as: pedras. Clecciono-os: poemas.
Tenho por hábito roubá-los. E, todavia, possuo apenas uma
coisa conhecida. Colhida numa praia de vidro
fundido pelo ar quente do Adriático, a pedra polida
é o melhor poema (o nosso melhor poema).
Guardo-a no bolso, onde meto a mão;
guardo-a na mão, onde se encaixa,
fria, macia, perfeita, uma pedra cinzenta,
a única coisa conhecida.
Leio-a. Tem o teu nome.
Largo-a
ao sentir o peso que lhe falta.

Como as andorinhas anunciam a Primavera,
os papeis velhos têm outros mistérios a anunciar:
o teu nome e a impossibilidade de o roubar.
Não é deste tempo. Não pertence a ninguém.

                                                   
Inês Fonseca Santos, in As Coisas. Lisboa: Editora Abysmo, 2012.



sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Inês Fonseca Santos

AS COISAS INANIMADAS

Os meus dedos morrem muitas vezes.
Começa pelas pontas e, de minuto em minuto,
pequenos insectos descem à palma da mão.
Como o exército de um país em guerra,
avisam ser possível – até aceitável – desaprender
o teu nome. Insisto
em escrevê-lo. De minuto em minuto,
os dedos são os meus, os teus,
outros no fecho dos caixões e
mais: aqueles com que fumas
as coisas inanimadas.

Se é isto a morte?
Tenho poucas dúvidas
e ainda a impossibilidade
e o tempo
de as anotar.
 
 
Inês Fonseca Santos, As Coisas, Abysmo, 2012.