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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O Desenhador de Sóis IV. (Poema de Vida)


A vida irrompe, brota nos teus olhos. O poema é uma coisa que treme, uma coisa quente, fechada entre as mãos, em concha, uma coisa viva que é urgente soltar (Uma nascente de pássaros). As palavras vêm em ondas de fogo. A sua vibração quente e segura. O seu silêncio mágico. Há um canto muito antigo, um nadador que atravessa o sol a nado, os seus braços, de nervo e fogo; vistos a esta luz, (visto sempre de cima) tudo é um poema de vida, como a voz humana, o canto, a dança, os beijos, o sol. Tudo aqui é fogo. Poema de Vida. Batimento. Canto. Sopro. Somos intermináveis. Intermináveis e belos. Sabemos, como toda a nascente, o nosso caminho. Sabemos com o coração, que não param nunca de se misturarem as águas, que elas cruzam os seus fogos, que nos dão as coisas pequenas, o milagre das coisas pequenas, (os grãos de areia, os poemas de amor). Não esquecer essa força primeira: (O silêncio do abraço mais puro, o coração das árvores antigas). Viver é um movimento de liberdade nunca acabado. Viver é um canto do fogo. Os poemas vêm com as suas ondas. O seu sopro quente. O seu sopro primeiro. (Nascente) Só ver a vida como poema de vida. Impessoal. Quente. Honesta. Ela ganha sempre. Duas meninas arménias dão as mãos numa praia de luz. As ondas e a sua música. O coração e as células em dança. O fogo. O seu silêncio mineral. A nossa terra treme à passagem de tantos colossos, há um canto das montanhas, há um canto dos desertos, o mar noturno também canta, cantam e riem os olhos, as mãos, os braços, pernas entrelaçados. As fontes cantam. Os rios cantam. No fundo tudo isto pode ser um símbolo da nossa esperança. Tudo isto é um símbolo da nossa esperança, (Um só símbolo para a vida. Um só canto de fogo). Único, Primordial, Eterno. Nadamos juntos em direção à nascente de tudo, a corrente segura de um canto Antigo: os braços em bruços. Potentes, Perfeitos: Os Olhos. As Mãos. O Coração... O seu silêncio branco: (Nascente) … (Nascente) ... (Nascente).

Nuno Brito. 28 de Dezembro de 2016.

O Desenhador de Sóis. II. (Nascente)


A vida trabalha impessoal, quente, honesta. A mais honesta. O Coração da Baleia, o Coração do Cavalo, o elétrico Coração do Pirilampo. A Vida trabalha com os seus fogos. Podemos falar com deus enquanto a vida trabalha com os seus fogos. É uma explosão de luz dentro de cada célula (Nascente). Mãos, braços, dedos, cabelos, pontas acesas de vida. Como o baixar a cabeça de um remador, vamos juntos em direção à nascente de tudo. Remamos com sinceridade. O céu está claro, branco, brilhante. E dizemos com sinceridade:
 A minha cara é de todo o mundo, a luz que bate na minha cara é a mesma que bate em todos, e esta luz pulsa, segura, viva como uma canção muito antiga; o poderoso silêncio do sol dobrado no meu coração (Nascente). O potente silêncio do sol a arder no meu coração. Inteiro, Invencível, Eterno. Somos tantos homens e mulheres com as suas mãos quentes. O fogo na linha da vida como uma certeza antiga. Desenhamos uma luz que é também caminho e vamos juntos em direção à nascente de tudo. Se a vida é um jogo, ela só nos permite a vitória, e essa vontade de rir, tão profunda e quente, de todas as coisas. Ela é colossal e gigante e bela. Agora mesmo um louva-a-deus na nossa janela. Perguntamo-nos se ele vai mudar de pele, se ele criou aí o seu ninho, se vai ter um filho? É verde e quando vira a cabeça para nós parece um extraterrestre. É belo. Leva três dias ali. Penso na fonte de tudo, penso com amor na fonte de tudo e bendigo o bem deste caminho. Comunico um batimento antigo (uma chama tão perfeita), um estremecimento de prazer. A mensagem que quero deixar é tão pura que todas as células se riam, todas elas vibram, todas elas cruzam os seus fogos. A nascente jorra, múltipla, sincera, infinita. Viva, a nascente flui o seu prazer puro, a sua vibração eterna. Penso nessa fonte, no doce nascimento do sol. No louva-a-deus que nos olha com uma sabedoria mineral, uma sabedoria de árvore que pode mover os seus ramos, devagar, extremamente devagar. As suas patas compridas, o seu lento virar da cabeça perfeito. De agora em diante movemo-nos rápidos, em ondas, e vemos tudo mergulhado em sonho. A nossa vida inteira é uma onda (assim nos deve ver o louva-a-deus) assim nos deve ver um girassol com o seu levantar a cabeça paciente de remador antigo. De agora em diante seremos felizes como o centro de um girassol, a sua seiva quente, doseada, prolongada e vital; como o leite gordo de baleia. De agora em diante a nossa sabedoria (de louva-a-deus) será esse virar a cabeça seguro e humilde como o centro de um cacto. De agora em diante o nosso corpo virará as suas patas para o céu e os nossos olhos espelharão algo grande, colossal e perfeito como estas montanhas ao fim da tarde.

Nuno Brito  

O Desenhador de Sóis V.


Uma abelha traz um girassol (futuro),
uma vida traz outra vida
e um marinheiro são sempre dois marinheiros.
Talvez toda a poesia queira só dizer como tudo é outra coisa,
e todas as sementes
tragam só o seu regresso ao sol
talvez usemos um só símbolo
para dizer como tudo está vivo,

Talvez os poemas sobre barcos sejam, de longe, os mais honestos.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

O Desenhador de Sóis V.


Há no centro de tudo um tambor potente: a sua respiração é profunda, ela é o centro da vida. O coração de trezentos cavalos bate também no centro de um único homem. Falo do corpo e dos seus caminhos de luz, de uma ânfora, de um barco ao sol; Um rio não acaba nunca, a sua corrente adentra-se numa água maior, não param nunca de se misturarem as águas. A terra quente, a respiração dos homens, abraçam-se no mesmo batimento. Falo do corpo, dos seus pulsos potentes, dos veios azuis, (de uma música do centro) dos cabelos por trás das orelhas, de um riso cheio de criança, dos poetas que viveram antes de nós; A terra quente, a respiração dos homens, abraçam-se no mesmo movimento.

A Vida é um canto do fogo.

O canto é alto e colossal e perfeito como um remador antigo. A respiração da estrela é o centro da estrela, a sua explosão de luz em todas as direções. Esta terra treme e move-se e está viva; e gira à volta de uma esfera maior, e a sua terra é mineral; é a terra de um milagre. E tudo – absolutamente tudo – está vivo e treme. Este é o movimento: a mãe do canto - Falo de uma pulsação segura e quente e húmida, de um centro potente; falo da fluorescente respiração da terra.  Do seu canto de fogo.

Há no centro do poema um farol imenso que nos mostra as linhas das costas, as pequenas línguas de areia que se adentram pelo mar, planícies, golfos, paredões, dedos finíssimos de terra, geografia humana, enfim, (a sua reprodução celeste em tudo). Há no centro do poema um farol que nos permite ver de cima. Ali, onde acaba o verso, onde as ondas se quebram, onde os fogos se cruzam. Ali mesmo, no centro, a vida nasce.  


Nuno Brito


quinta-feira, 23 de junho de 2016

O Desenhador de Sóis XXII.


Falarei do Sol
De um milagre que vai acontecer a cada segundo dentro do teu peito
Falarei do sol – Falarei Sempre do Sol.
Do início dos teus ombros, de faróis, de meninos
Que desenham nas suas sebentas a linha da costa
Dos seus dedos pequeninos, do milagre dos seus dedos pequeninos
Falarei de uma Cartografia imaginária do paraíso,
Que nos coube entre mãos, falarei de sebentas perdidas,
De olhares cruzados, de túneis, de estradas
Falarei do sol, falarei sempre do sol
com os dentes tortos, com os olhos estrábicos
Com mãos tão seguras, falarei do sol;

Falarei sempre do Sol.


Nuno Brito

quarta-feira, 15 de junho de 2016

O Desenhador de Sóis XX


O poema ensina o seu coração, o seu batimento, ele é muitas cidades a arderem em desejo; há no centro do poema um sol que irradia para todos os lados, uma afirmação de vida, uma múltipla fonte de luz. As palavras são centros de vibração, elas tocam-se, expandem-se em ondas, elas são estrelas em pleno nascimento, em nascimento continuo, cada olhar sobre elas as faz renascer. O poema é uma constelação que faz acender a linguagem, que a faz viver; A constelação que é o poema faz nascer a palavra a cada segundo, a cada batimento do coração a palavra é nova, ela tem novo sopro, ela é uma nova afirmação de vida, uma nova fonte, uma nova onda expansiva, a cada batimento do coração do poema surge um novo acendimento, (muitas cidades a arderem em desejo), a estação de serviço em mercúrio, o olhar da minha filha. Cada novo olhar sobre o poema cria um novo nascimento, uma aceleração diferente: eu acelero o poema quando o olho, eu o faço nascer. O poema é um animal invencível, ele é a vitória da linguagem. Quando eu afirmo:

O poema ensina o seu coração
e o seu coração é um céu azul.

Eu digo que esse coração é um núcleo que acende tudo o que o rodeia; o poema não pergunta o que é o fogo, ele afirma, ele cria uma comunidade, ele une, ele não para nunca de unir. As constelações comunicam, acendem-se, dançam, cruzam os seus fogos, a sua dança pode ser perfeita e - por essa mesma possibilidade - ela é já perfeita. O animal invencível é a possibilidade mesma da vida, a afirmação mesma da vida. Se o poema nasce em frente a um promontório com Safo ou se ele nasce no meio da rua com Cesário Verde, o que os une é esse nascimento, o mesmo batimento que implica diferentes vibrações, o mesmo início, que implica diferentes processos. O poema ensina a cair no chão ou ensina a rir dessa queda, o poema ensina a ver o outro mas também a ser sempre outro, doutra forma diríamos: o poema faz nascer, o poema faz brotar, o poema multiplica ângulos e nisso é tão humilde como uma raiz ou um semente que leva a vida no seu interior e que só necessita um pouco de água, um pouco de terra, um pouco de luz, uma comunicação (que é também assonância e conversa) da natureza. Tudo aqui é soma, tudo aqui é mudança, acrescento, comunicação, comunhão; união enfim, é disso que falamos quando falamos de poesia, de um abraço com uma geração intemporal, de um abraço com Orfeu, de um abraço com Diógenes; este é o contacto que a poesia inaugura, um gesto que se pretende infinito, um mergulho, um abraço, nisso a poesia parece-se muito ao ato de nadar, de atravessar, de romper, quando escrevo um poema atravesso o teu peito a nada e isso é a minha comunhão, o momento de erguer a cabeça e continuar a olhar o chão, aquele momento de acendimento que se dá antes das grandes viagens. O poema antecede a viagem. Ele dá-se num mergulho de luz, num momento de celebração, de encontro (com o todo e com o mínimo), com a flor que rompe o asfalto, com um mundo que se afirma quando o afirmamos. Este é o mundo, resta celebrá-lo, bendizê-lo, elevá-lo, acendê-lo, esse é o momento poético, o momento de criação de ênfase.

Nuno Brito.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

O Desenhador de Sóis: O meu coração

O Desenhador de Sóis: O meu coração

O meu coração é um boi que atravessa este campo quente com seus olhos húmidos
mais as moscas que o picam de cada lado das orelhas,
é uma aguarela de criança com os seus traços seguros
Que deixou pequenos restos de areia, terra e alguns pelos de pincel
no centro do sol - O meu coração é uma memória do sol em cada célula,
 uma vontade de rir, Tão quente e tão quente - de tudo e de tudo…


O meu coração é um campo de girassóis,
Um pintor de olhos grandes que desenha caminhos a lápis de cor,
as fontes, o feno, o guarda-rios mais a sua família feliz
e um grande sol central no meio da cartolina,
por ele bebo a jorros, com os olhos todos:
Com a vida inteira.

O meu coração é uma criança que tira catotas do nariz
E tem no bolso o lenço mais sujo e mais seco que o avô lhe deu
O meu coração é só meu coração e não tem iniciais nem nome nem roupa,
E bombeia a música para todo o lado como qualquer coração feliz
E dança e brinca e agora mesmo ele é uma enchente de nós todos.
O meu coração é das cores mais quentes, das cores do fogo,
Nele se beijam as memórias mais doces e os faroleiros descansam
Depois de dar luz a tantos barcos na noite mais longa do ano.

Olha então de frente a nascente disto tudo e enche-se de luz,
sou então um animal feliz e abro muitos livros;
deixo tudo sublinhado: as casas, as ruas, as paisagens
os policias, os cães policias, o que as pessoas dizem e contam,
os segredos e os que os guardam,
O meu coração deixa a vida toda sublinhada a marcador fluorescente,
E escreve em todas as margens, e apaga e reescreve e completa e une,
e deita-se ao fim da noite para descansar, completo e cheio como um pôr do sol,
saciado e feliz como um vento quente que faz tremer as folhas lá em cima
e nasce e nasce e nasce ainda a cada instante.


Nuno Brito



quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

O Desenhador de Sóis


I.

Quero-te enquanto corrente de vida ininterrompida, corrente de vida contínua, o olhar líquido que abraça, o abraço mais quente do sul, essas pegadas que deixaste ao sair da ilha, ao fechar a porta. Quero-te enquanto porta aberta que tem o mesmo nome que o meu pai, as mesmas pegadas de saída, ali onde poderia ser areia, mesmo que só para escrever no cimento uma pegada fresca, um nome desenhado com uma chave, um coração - sempre um coração entre dois nomes - e qualquer data de qualquer século só para nos tornar mais palpáveis - o número da turma, o nome da escola - Dizer os amigos imortais seria um pleonasmo desnecessário. Imaginei hoje uma voz que me enchesse o coração e o meu coração encheu-se de luz. Ele hoje está cheio: é impossível apagar, riscar, parcelar, interromper uma vida. O caminho não é a lápis, nem a vida é uma corda ou fio, porque nada disto se parte a meio, nada disto se detém meu amor.


II.

Escrevo como quem desenha sóis que sabe de cor na memória. Depois de fechar os olhos a luz é perfeita.


III.

 Só aceito no humano o que aquece - o que verdadeiramente aquece - olho para cima e esqueço como um desenhador de sóis, quando fecho os olhos as ondas vêm limpar a minha memória. Hoje nasci algumas vezes e o meu batimento é seguro como estas montanhas ao fim da tarde.


IV.

Esta é a história da estrela: alguém a trouxe com os olhos grandes do fundo do mar e a pousou em cima de uma sebenta, e desenhou-a viva com o lápis firme entre as pontas que se mexiam e a estrela dançava entre os traços, entre uma e outra linha viva foi levada para a praia. Com os olhos grandes alguém a pintou de azul, o pulso seguro picotava o desenho – os nossos passos são seguros – ouvi isto dentro de mim, o nosso mundo acelera. Ofereceram-me um dia um desenho, levado vivo para a praia e por ele soube da estrela noutro sítio e agradeci-a sem nunca a ter visto e acreditei na estrela pelo desenho da estrela e guardei-a na gaveta das coisas que me dizem que há.
  
  
Com os olhos quentes alguém desenhou várias pontas e folha a folha desenhava-as afastadas poucos milímetros para produzir movimento, e depois folheou rápido a sebenta e disse: esta pode ser a bandeira da minha família, esta é a bandeira da minha família.

V.

Acreditar é tornar real, os meus sonhos são reais, os meus sonhos não são profundos, são coisas que sobem e acendem o que tocam, são como balões numa noite de São João. Quando era pequeno pensava que eles nunca caiam, hoje sei que as coisas não caem, aquilo que parece cair está a tornar-se mais completo. Isto não é um planeta, é um livro de autoajuda, leio-o até os olhos arderem, sublinho, escrevo nas margens, encho-o de vida. Sublinho com luz esta vida toda.


 VI.

Tenho sol e mar nos olhos e visito uma e outra vez esse miradouro onde os meus pensamentos são água cristalina, lambi a vida de muitos pratos e fui morar para o centro: aqui vemo-lo grande, cheio, quase que rebenta de riso, o sol de frente na Estação de Serviço em Mercúrio.

Aqui no chão, com telhados por baixo, vemos desejo a caminhar, desejo a entrar, desejo a pedir, a comprar, a dar, a trocar, a subir, aqui no chão entre um telhado e outro, sou movimento puro, o tempo a sorrir, a música, a nossa pele. Confundem-se os traços, expandem-se as linhas. Tenho sol e mar nos olhos e visito uma e outra vez esse miradouro onde os meus pensamentos são água cristalina.


 VII.

  
Abro às vezes a porta
para o ver sorrir,
inteiro, honesto, animal invencível:

Pego então num giz e desenho os raios,
Sublinho com vida:
a luz dos teus olhos é perfeita

A fé é uma invenção do fogo.


VIII.

A música enrola-se em cada célula,
como se fosse deus, e por isso já o é:
ser criado a cada segundo é a sua matéria
Desenho rápido, Ribossoma feliz.
Museu volátil do amor.


IX.

Tudo é já outra coisa,
Tudo é já outra coisa meu amor,
esta é a lição do vento e do fogo e deste mar
Até a nossa cara é movimento puro
Tudo é já outra coisa:
Uma borboleta pousa-te nos braços como se fosse uma catedral
Mudam, mudam os gestos, mudam as vozes,
muda a pele, mudam as formas,
Mudam, mudam, mudam…
Esta é a lição do vento, do fogo e deste mar,
Tudo é já outra coisa meu amor.


  
X.

Se as linhas não existem,
O amor é só uma canção de despedida a um mundo velho,
desenhada dentro de um barco de papel.
Nuclearmente ansiosos de riso, vamos de mãos dadas:
Luzes entre luzes / luzes procurando luzes: Sinopse da vida,

O coração bombeia a música para todo o lado.


XI.

Somos um Sol em frente ao espelho
 com o seu olhar sáfico
de quem se despede para voltar com mais força
e posso dizer como Rilke
Vamos te construindo com mãos a tremer
ou então desenhar por cima,
Descer esta vila onde o sol pousa à entrada das tabernas
e se parece com duas mãos pequenas de criança
que deixa escorrer areia por entre os dedos:
procurar-te em todos os cafés,
e encontrar-te no lugar mais improvável

Somos uma geração de luz com os seus olhos grandes
captados a meio de um documentário sempre incompleto
sobre a Ilha dos Amores. Este é o nosso país, a nossa família,
a nossa bandeira, um texto que a vida nos foi dando
como uma semente sobre a terra vermelha,
Somos uma geração de luz com os seus olhos grandes
sabendo que o coração que pulsa entre nós
é de todas, a nossa ultrapassagem mais perfeita.


XII.


Eu sei que posso caminhar na beleza durante todo o dia,
como na oração navajo.
e a meio do caminho abrir os olhos
Dizer: Começou algo novo. Nasceu algo maior.
Algo em nós arde agora com mais força,
Este é o espírito das montanhas e da terra
e destes animais e destes frutos,
este é o espírito de tudo o que nos rodeia,
antes a minha imaginação era violenta
e agora ela é como um moinho de vento.
É sempre verão e o vento quente sopra seguro
sem nunca se deter,
Eu sei que posso caminhar na beleza durante todo o dia
e a meio do caminho abrir os olhos
com a certeza que este fogo é eterno
e ilumina todo o caminho.


XIII.


Obrigado irmão pelo sol que me deste
Obrigado irmão pelo vento
Clara manhã, obrigado.


XIV.

Os olhos enrolam paisagens na memória
como ondas de espuma na praia
O coração esquece e brilha,
Cada célula dança. Cada célula celebra o sol.
Cada célula bendiz, agradece, reflecte, um grande sol central.
  
Olha a luz como uma maneira de afirmar
Olha a luz como quem rema,
Estas montanhas são belas
e nunca pensei dizê-lo assim, mas dizê-lo assim basta
e deixa-me cheio e contente como um moinho de vento.



XV.

Uma abelha traz um girassol (futuro),
 uma vida traz outra vida
e um marinheiro são sempre dois marinheiros.
Talvez toda a poesia queira só dizer como tudo é outra coisa,
e todas as sementes
tragam só o seu regresso ao sol
a uma vida contínua,
talvez usemos um só símbolo
 para dizer tudo porque tudo está vivo.
Talvez os poemas sobre barcos sejam, de longe, os mais honestos.

***

XVI.

                       
Disponho as fotografias na cortiça,
do centro para as margens, as memórias mais doces,
o conto do canguru voltado ao contrário
ou o postal dos girassóis afixado no centro
É um painel vivo,
um museu eterno dos melhores momentos atesourados,
mesmo ao lado de onde escrevo os meus melhores poemas.
Posso alterar a ordem, Sobrepor recordações,
a minha memória é como um castelo na areia,
espalho as recordações como uma onda, levo-as pela praia toda,
dissolvo, apago com espuma, levo para o oceano,
é como a memória do fogo, do sal, a memória do vento
ou a memória do degelo; esqueço como quem guarda
os melhores momentos no centro do sol.

Mas gosto desta cortiça disposta assim;
 há nela uma ordem que vem do centro,
parece às vezes uma janela na parede,

e gosto de a sentir ao meu lado enquanto escrevo.

*** 



Os poemas sobre barcos

Talvez os textos mais perfeitos do nosso tempo estejam a ser escritos na nossa língua e falem do sepultamento dos navios, talvez só possamos falar sobre barcos, de países inteiros que se sentam à volta de uma mesa, de bandeiras que se abraçam.
Talvez só possamos falar de barcos numa cama, nas traseiras de um livro, com o Livro de Cesário Verde como mastro, vela e capitão do olhar, Guardador de Rebanhos todo sublinhado a verde - A minha pátria é a língua portuguesa e a minha família é o meu país – e talvez não haja Portugal, mas sim uma mistura ignóbil de "estrangeiros do interior" a governar-nos e a estropiar-nos o resto do que somos. (Pessoa, Carta a um herói estúpido) - Talvez esteja apenas cruel, frenético, exigente e não querer ver mais sofrimento em nenhuma cara do meu país seja a minha bandeira: bandeira imaterial de cor nenhuma, haste completa, cheia pelo vento quente como uma saia que abana lá em cima. Essa eu abano, com essa eu celebro, a essa eu bebo, essa eu abraço no tempo certo e não deixo cair.


Nuno Brito, 2015 / 2016.


domingo, 20 de dezembro de 2015

Os poemas sobre barcos


Talvez os textos mais perfeitos do nosso tempo estejam a ser escritos na nossa língua e falem do sepultamento dos navios, talvez só possamos falar sobre barcos, de países inteiros que se sentam à volta de uma mesa, de bandeiras que se abraçam.

Talvez só possamos falar de barcos numa cama, nas traseiras de um livro, com o Livro de Cesário Verde como mastro, vela e capitão do olhar, Guardador de Rebanhos todo sublinhado a verde - A minha pátria é a língua portuguesa e a minha família é o meu país – e talvez não haja Portugal, mas sim uma mistura ignóbil de "estrangeiros do interior" a governar-nos e a estropiar-nos o resto do que somos. (Pessoa, Carta a um herói estúpido) - Talvez esteja apenas cruel, frenético, exigente e não querer ver mais sofrimento em nenhuma cara do meu país seja a minha bandeira: bandeira imaterial de cor nenhuma, haste completa, cheia pelo vento quente como uma saia que abana lá em cima. Essa eu abano, com essa eu celebro, a essa eu bebo, essa eu abraço no tempo certo e não deixo cair.

domingo, 10 de maio de 2015

Ode que ferve


Vários comboios se descarrilam dentro do meu peito, várzea à noite com muitos pirilampos acesos:

fervem e cruzam-se todas as linhas –

uma pirâmide de olhares cruzados em fogo, muitas rotundas, auto-estradas, viadutos,

linhas de metro, passa estridente um comboio a alta velocidade, bebo toda a cidade

e caio rotundo no chão -

sinto o suor de todos, o doce espasmo de uma jovem etrusca e todo o

Sol a incendiar-te o sorriso: fizemos um pacto com ele, com a vida com o futuro
(Comboio estranho que derrete) fizemos um pacto com tudo que fluí, as linhas
entrelaçaram-se, sinto a tua pulsação no meu peito e beijo-te os pulsos, a ansiedade

nervosa da cidade, o doce espasmo das borboletas e a Contracção de cada recém-nascido que parte –
A febre recheia a cidade –

O peito cheio de praças e cidades inteiras por dentro, viadutos, túneis, contigo em cada

esquina, dentro de cada café – com o pôr-do-sol dentro dos pul-sos – a injectar o sol
líquido no peito, não há mais caminho para trás – tenho a tua sede de futuro, são seis e
vinte da manhã e a cidade acorda e adormece ao mesmo tempo

– Sinto o calor de todos

os que aquecem – A cidade a subir-me pela espinha dorsal, como uma nuvem branca,
quando te abraço faço um pacto com a Vida

………………………………………………

A cidade chama por nós e faz nós dentro de nós, tudo flui a uma velocidade frenética e todos os poetas futu-ristas, italianos, russos, franceses, portugueses, espanhóis levantam a cortina pesada da noite à velocidade do dia – enchem os teus olhos de sol – bebo por eles toda a cidade, todos eles sabem quanto te amo (cidade industrial, ceroulas, pastor alemão, civilização assustada, seringas e preservativos no chão, cave com vários fundos húmidos) a boca cheia de vidros – lambo-te o peito, os pulsos, os dentes, a língua (uma abelha na auto-estrada) o relógio de sol funciona à noite – se formos rápidos e seguirmos o dia – quando se patina sobre gelo fino a velocidade é a única salvação – e aqui cito todos os que não disseram a frase porque a sabem
e sabem que o tempo corre – Sinto todo o desconforto dos cães à toa antes de serem atropelados estou nas mãos dos fabricantes de carros que atropelam os cães, nas mãos dos operários, nos muros contra os quais urinam, os operários com as suas mãos – com a linha da vida a arder até ao pulso, e no fim do dia as mesmas mãos com a linha da vida a arder, ou várias linhas que se cruzam, a segurar o pulso da mulher, a acordá-la, a segurar o pulso de todas as mulheres dos ope-rários – preciso tanto de calor – sou a sede, a raiva, o medo, a Vontade líquida de estar dentro de ti, sou líquido e fervo por ti dentro, amo os teus olhos, a tua boca, os teus dentes, os teus pulsos, os teus medos as tuas inseguranças, as tuas dúvidas, os teus tornozelos, a tua saliva, a tua língua, os teus olhos, a tua boca, os teus dentes, amo os teus braços, as tuas mãos, braços, pernas, pés, e atravesso a peito a tua nuca quente, o teu peito a nado, sou líquido – vejo pelos teus olhos – todos – beijo-te os tornozelos, se penso em escrever um poema sobre o fogo lembro-me da bombeira voluntária de vinte e um anos que morreu a combater os fogos – con-tinuamos a subir – são 6:35 da manhã e a cidade acorda por ti adentro,



Vejo por trás de ti Por trás de nós Por dentro de nós,                                                                                   

a cidade acorda: o sol dos teus olhos a injectar-me no peito uma Vontade Nova – Em tudo Nova – Amo tudo o que ferve a noite láctea que te atravessa o peito de Calor Ode que ferve e liga pelo skype, nado por ti adentro.



 Nuno Brito

sexta-feira, 8 de maio de 2015

sexta-feira, 17 de abril de 2015

OS BEIJOS QUE VAIS DAR



À Gisel

Na entrada e na saída do metro, nas carruagens, rápidos, longos, os beijos que vais dar na praia, na montanha, no carro, as mãos que vais dar, rápidos, longos, o Sol que tantas vezes se vai ver a ele próprio nos teus olhos, os beijos no elevador, no carro, na faculdade, que vais dar, as mãos rápidas, os braços que te vão abraçar, os sinos passados, fotografias, as torres que vais subir, os espelhos todos em que te vais ver, segura, extremamente segura, linda, feia, obcecada, feliz, vazia, cheia, gorda, magra, dando-lhe as costas, experimentando vestidos, feliz, sentindo que a vida é um mergulho, dando a volta, que não há tempo, que há muito tempo, extremamente feliz, a euforia, o tédio, o que vais ver e dar, os sonhos abandonados, os sonhos realizados, a salitre depois do mergulho, o sol que vai ficar sempre dentro de ti e que tantas vezes se vai ver ao espelho em ti — e dentro, a corrente de vida segura, a felicidade extrema, a felicidade-mergulho ou a felicidade-estrela, as portas que vais abrir, a vida com todas as suas pegadas, dias vazios, dias citrinos, dias de chumbo, de calor ou de frio — mas dias de ganhar sempre e ganhar sempre contra ninguém, vais sentir neve nos olhos, neve nos pés, abraços nos polos, abraços no centro, um olhar para cima que te vai libertar, sentir-te protegida, abraçada, ter recordações que te vão magoar, que te vão fazer mais forte, que vais ter que esquecer, os beijos que vais dar — no metro, rápidos na subida do autocarro, atrás, dentro, fora dos prédios, a chuva e o vento que te vai bater, todas as cores que vais vestir, todas as formas que vais tocar, sentir, modelar, guiar e ser guiada, pela estrela ou como estrela. Mas pensa, guarda e mantém, em todos os momentos, que está sempre ao teu lado o Capitão Soninho, ao lado de todos os beijos e de todas as páginas que vais virar, marcar, reler, saltar rápido, comer — páginas, capítulos marcados, sublinhados, limpos, abandonados, livros que vais esquecer numa paragem, num autocarro, ou que vais querer incendiar, poemas que vais deixar em sítios a que não voltas — acidentes voluntários ou involuntários, conquistas, perdas que não existem, ajustes — páginas rápidas, demoradas, relidas, reescritas, apagadas, riscadas, escritas nas margens, escritas no fundo, escritas por cima: sempre escritas por cima com o privilégio de renovar, em várias cores e fundos. Em muitos espelhos te vais sentir desejada, sozinha, cheia, desejada com mais força, um diadema verde, o cabelo liso, puxado para trás, apanhado, comprido, curto, pintado, frisado nos dias de verão e a mudança percetível e palpável na libido do planeta que sempre gira sem que nos demos conta enquanto mudam ainda mais rápido as linhas da tua mão, a cada nascimento e decisão — endireitar umas, fortalecer outras, encaminhar, orientar — encaminhar com mais força a vitória, que se for verdadeira, nunca aceitará que haja um único homem derrotado. E em todas elas vais sentir o Capitão Soninho ao teu lado, a dar-te a segurança quando mais precisares de segurança e a dar-te o sono quando quiseres dormir, a vigília quando mais precisares dela. Calor, segurança e milagres quando deles precisares. Sempre, o Capitão, com a estrela debaixo do braço, nos caminhos, túneis, autoestradas, carris, funiculares, elétricos, desertos, decisões, Caminho enfim: num único símbolo resumido; em todo ele, em todos eles, o Capitão ao teu lado com a estrela debaixo do braço e nos seus olhos refletidos os beijos que vais dar — enquanto o Sol se vê a si mesmo, em nova e maior escala, como quem nada nos teus olhos, vindo em raios rápidos outra vez enquanto dormes. Escrevo rápido contigo no colo.


                                                 Nuno Brito

segunda-feira, 16 de março de 2015

Nuno Moura: Canto Nono

Nuno Moura
 Canto Nono
Lisboa, Douda Correria / 2013


Canto Nono é a mais recente publicação de Nuno Moura, apresenta-se como uma unidade poética dividida em 9 partes que se liga intertextualmente ao episódio camoniano. Tal como a Ilha dos Amores, Canto Nono inaugura um espaço de utopia amorosa, um lugar de posse e encontro ideal que se funda na idealização de um tempo épico em que “ninguém abusava da sua posição” (5) e “a presença de um filho era a pose que o amor mais admirava” (6); é, por isso mesmo, o pretérito imperfeito o tempo nuclear desta unidade poética. Mas Canto Nono fala essencialmente do nosso tempo, dos desequilíbrios e excessos do nosso tempo, do presente enquanto transbordo, do presente em que tudo passa e do presente tal como a primeira geração modernista o viu, enquanto tempo limite polarizado pela euforia e disforia, pelo desmedido e colossal. Nesse sentido o sujeito poético de Canto Nono é itinerante, deambulatório, multiplica-se por diferentes espaços, fala através do cruzamento de diferentes vozes, tempos e linguagens, aproxima-se, ora do olhar urbano de Cesário Verde, ora da apurada experimentação plástica da língua em Ângelo de Lima e encontra no Modernismo Português uma zona de diálogo permanente com o nosso tempo. Por isso mesmo, o tempo incerto e indefinido de um passado vago serve a própria mitificação do presente que é construída neste poema. O presente é estranhado nos seus milagres quotidianos, captado no que ele tem de insólito mas também de intemporal, de não-lugar e de utópico, por um olhar poético transfigurado a partir de um tratamento do humor bastante específico e singular, facto a que nos foi habituando nos seus livros anteriores. Este tratamento do humor e esta visão de mitificação do presente é o que mais afasta Nuno Moura dos restantes autores presentes na Antologia Os Poetas sem qualidades e o que mais singulariza a sua criação poética.
A velocidade do fluxo de imagens de Canto Nono é intensificada pela multiplicidade de referências, pelo equilíbrio entre a fluidez e a fragmentação, por um lado a fluência do registo narrativo e a quase inexistência da pontuação em detrimento do polissíndeto: “havia itinerância antes de haver autocarros / e os dragões vermelhos cerimoniavam aulas fúnebres / ainda a morte não tinha conhecimento de prosa / e era comum a paixão súbita por cadelas / e explicava-se a velocidade aos filhos / sem loção solar / e as correntes de ar cheiravam à planta do café / e já admirávamos as estrelas / sentados no colo do João dos Santos” (6), e por outro, a fragmentação imposta pela quebra da oração, pelo anacoluto, pela justaposição de diferentes tempos verbais “e acionista era um local difícil de visitar / e expludo, não olhes para mim / e Não mintas era abrir por aqui / e Tens os meus livros todos era hã / e Encanta-me era Quando acabares de olhar devolve-me” (12); Esta sugestão de fragmentação potencia, paradoxalmente, a fluidez e o fluxo das imagens ao permitir uma multiplicidade de vozes e referências que se interrompem, sobrepõem e cruzam. Esta rede de sobreposição de discursos serve também a simulação da oralidade através das suas quebras, do recurso à linguagem popular, aos provérbios e aos trocadilhos: “a mim pranto se me dá […] ah meu rimão” (7), “Dama de Copos” (17). A criação de Nuno Moura manifesta-se em Canto Nono como uma Poética de múltiplos recursos, onde imperam as figuras fónicas, a valorização do tecido rítmico do texto, conseguido singularmente através da assonância e da aliteração, da anáfora, do recurso à paronímia e aos jogos de palavras, do emprego de neologismos e sugestões onomatopaicas, da alternância entre o verso longo e o verso curto e da coexistência do português e do inglês que complementa as inúmeras referências: “e trazer livros à random / para ler poemas avulso” (17), “ninguém queria saber da gráfica Private Space / de Barcelona, nem do Olin Regular / ou do imuro Recycle, Symbol Mat / Cotton Wove” (16).
Em Canto Nono o recurso ao humor alia-se à ironia para denunciar o que de artificialidade pode haver no literário “somos o cânone do signo do texto / vendeu bem / eu não tenho tento na tristeza / vendeu muito bem” (20), “desperspicácia era criação de pássaros” (17), denúncia humorística de um discurso erudito e humor omnipresente sobre o qual as múltiplas imagens vão sendo criadas, muitas vezes seguindo um tipo de construção surrealista “ainda se imaginava o que estaria a arder pelo sorriso das flores / e tudo o que se comia era através do nó da colher do sobreiro / e sabem o que é uma lágrima no metro de Lisboa? / pois vos digo que é uma meloneia” (8). Do diálogo entre dois tempos culmina uma promessa de futuro, apresentada nos últimos versos de Canto Nono “e o que ficava sempre bem era / vou fazer-te uma coisa linda / adicionar música / adicionar intersecções / adicionar caules / adicionar feridas / adicionar contrapesos / adicionar ir / vamos” (23). A passagem do infinitivo para o imperativo que culmina no verso final “vamos” serve o cruzamento dinâmico de tempos e vozes que confluem à subversão de um discurso que se pretende plural. Subversão também em alguns elementos extratextuais lançados nesta edição, como a ausência do número de página e a colocação da nota prévia no final do livro. O diálogo intertextual que este livro nos oferece é extenso, são vários os poetas invocados, Miguel Manso, Miguel Cardoso, Raquel Nobre Guerra ou Rui Costa são alguns dos exemplos aludidos, poetas representativos da novíssima poesia portuguesa que, tal como Camões, viveram numa época tocada por milagres em que a utopia se poderia sentir mais nitidamente. Essa poderia ser uma das mensagens deste Canto Nono enquanto lugar de celebração de um lugar impossível, que se pode no entanto sentir no batimento do presente.



Nuno Brito



sexta-feira, 13 de março de 2015

Olhos que abraçam



Somos um Sol em frente ao espelho
 com o seu olhar sáfico
de quem se despede para voltar com mais força
e posso dizer como Rilke
Vamos te construindo com mãos a tremer
descer esta vila onde o sol
 pousa à entrada das tabernas
e se parece com muitas mãos pequeninas
de crianças que deixam escorrer areia por entre os dedos.

O sopro que vira a página, a possibilidade
cheia de luz da nossa geração.
É um sonho e o sonho tem razão.

Sublinho tudo, ligo todas as pontas
deixo um ou dois castelos desfeitos,
uma bola esquecida na areia,
uno as minhas pontas a esta vida quente
que me  multiplica, ilimita e acelera,
abraço a estrela que tenho à minha frente,
até ficar pastoril, cheio, contente
como um fim de festa de Verão.

Uno as minhas pontas, até então desconexas,
a esta vida quente que me acelera
com um olhar sáfico de quem ri e regressa.
Alto, colossal, criança, olhos de urso,
cabelo de gaivota. Uno as minhas pontas
a este coração,
faço-o rir

como um sol em frente ao espelho.

A Verticalidade do Desejo: recensão a [Espartilho] de Beatriz Hierro Lopes


  
Beatriz Hierro Lopes
[Espartilho]
Coimbra, Debout sur l’oeuf / 2015


Gostava de vestir as linhas de um corpo mais salgado (17)
Quando eu morrer enterras-me um pouco mais perto do sol (38)

A Poética de Beatriz Hierro Lopes revela um apurado exercício estilístico de múltiplos recursos dentro do panorama da Poesia Portuguesa Contemporânea, marcada por uma visão hiperconsciente e hipersensitiva em que toda a realidade palpável e imediata é constantemente recriada e polarizada na sua ligação com o corpo. Temas como a memória, a morte, a família, o contexto urbano e a consciência geracional (transmitidos em frescos narrativos de ampla nitidez e potência sensorial) são tratados com recurso a cruzamentos de imagens percetivas e aforismos de grande vitalidade numa unidade fragmentária pautada pela fluidez e valorização do tecido musical do texto.
Depois de É quase Noite (2013), [Espartilho] é o seu segundo livro. Divide-se em duas partes e reúne um conjunto de 35 poemas em que os temas centrais de Beatriz Hierro Lopes são focados mas desta vez manifestam-se, todos, pelo lugar hegemónico que é atribuído ao corpo. Lugar nuclear, invocado desde logo no título, o [espartilho], e mais à frente “entre costas demasiado afastadas” com “a verticalidade da escrita em queda” (9). Espartilho que serve também a imagem de uma “prosa de coluna partida” (11), algo que não acontece na poética de Beatriz Hierro Lopes onde temos sempre a sensação de estar (entre a fluidez e o fragmento) numa unidade fragmentada, sem que dela tenhamos a sensação de fortes partições. Para isto concorre o uso de uma pontuação muito própria (o ponto e vírgula, os dois pontos, e o ponto final recorrentes) que serve a ampla expressividade de uma sugestão rítmica ao serviço da sugestão simbólica. “Minto. Não sou montra. Nem cara feita de cera, muito embora os meus antepassados tenham nisso investido mais do que as suas testamentárias vontades; sou inquieta, radioactiva e frequentemente indecisa. De uma anatomia avessa ao mar e às suas inquietudes” (33). O ponto final, por exemplo, é usado para criar uma pausa maior, mantendo ao mesmo tempo a fluidez da oração - sugerindo-a, pautando-a entre diferentes velocidades.
 A memória, a identidade, os afetos são visíveis pelo corpo, na imagem de um espaço total, plenamente tangível, na aceção que Roland Barthes dá ao Prazer do Texto “o momento em que o meu corpo segue as suas próprias ideias”, a escrita das próprias ideias do corpo, inseparáveis dele, na sua linguagem “a respiração, o ar que te deixa e o ar que te chega, o movimento secreto do teu peito” (p. 19) possibilita as “Coisas que o teu corpo apenas a mim me diz”: (p. 19). Em [Espartilho] o corpo é um epicentro do qual tudo se ramifica, do qual tudo parte e aonde tudo retorna, (origem e fim), ele é o lugar onde bate o “sentir anatómico do tempo” (p. 40). Lugar múltiplo, orgânico, onde tudo se reflete, ele é cruzado por memórias e é, por isso mesmo, o resultado de diferentes trajetórias e velocidades; no texto [Violeta] por exemplo: “A trajectória do medo no meu corpo não conhece factos ou história. Tem o nome de uma consoante e de uma sílaba: atravessa-me e atira todas as flores da praça ao chão” (35), através deste exercício corpo, identidade e memória dissolvem-se, fundem-se num todo percetivo. Da memória genética que invoca a família nos textos [antecomeço] e [lição para meninas espartilhadas] à “memória solar” (38) ou ao “involuntário desta cidade”(15) em [Espartilho] tudo se manifesta no corpo  - tudo se passa à sua escala e na sua dimensão. De uma anatomia  revitalizadora são feitas as seguintes imagens “o espaço do fim do indicador ao fim do polegar; o que usava em criança para criar a metade da cúpula de um palácio de inverno” (15); anatomia que se confunde com a paisagem, que se torna expansiva: “Tenho uma cidade em cada perna, e em cada coxa o tráfego, a espera, a ira do taxista”, “Nego, nego tudo; e há sinos que tocam apenas nas minhas costas, santos de olhar baço a que somente o meu olhar dá luz” (16), ou ainda “sou maleável e o mesmo é dizer que caio estrondosamente em qualquer calçada só pela atracção dos meus joelhos pelas pedras”. O corpo enquanto lugar de ampliação, “em que me multiplico em sonhos de outros” (19), assume-se como espaço de desdobramento e multiplicação do sujeito poético que dialoga, de forma inovadora, com a tradição modernista: “Eu, multiplicando-me no interior da água” (p. 30). O corpo de [Espartilho] é universalizado, colossal e espelho absoluto de todas as condições, ele é: “Novembro sorrindo-me por trás das articulações dos ossos, dizendo-me que há tempestades no corpo que só os tornozelos entendem por ser deles a ausência de verticalidade” (17). Através da revitalização da anatomia, e da evidência dos seus milagres, Beatriz Hierro Lopes cria algumas das imagens mais consistentes e apuradas da novíssima poesia portuguesa, pelo seu equilíbrio, vitalidade e potência de visualização, pelo seu alto grau de nitidez e concreção imagética. Atentemos à seguinte passagem do poema [rio]:
“Quando o rio já não é rio, guardada na escuridão da caixa de papelão, a pinha respira, e a sua respiração que fora leve correnteza de rio, é pesada como os anos em que as mãos esquecidas das linhas pisaram as linhas de outras linhas em vão. Ela abre-a. Ao abri-la com a ponta dos dedos percorre as linhas secretas da terra, tentando recordar-se se eram as suas mãos linhas de pinhas oferecidas em tardes leves de rio, ou a memória dos anos que tornaram árida a corrente”

Para Beatriz Hierro Lopes revitalizar a anatomia é ajustá-la pelo que ela tem de desejo. Assim, enquanto realidade totalizante, o corpo manifesta-se e transfigura-se expansivamente (inverte e reinventa a anatomia) “ao fazer-se e ao pensar-se, repensa e refaz cada um desses lugares. Inverte a anatomia e converte-a na verticalidade do desejo” (41). A recriação da realidade poética que BHL nos apresenta é não só feita, à escala do corpo, e à escala do chão, mas também à escala do Presente. Estamos assim também, tal como Manuel de Freitas salientou no prefácio à antologia Poetas sem Qualidades, perante uma poesia que valoriza o “predomínio do temporal sobre o eterno”1, marcada pela indissociabilidade entre o poeta e o seu tempo, exercício que tende assim a desconstruir a idealidade do Futuro, trazê-lo, pelo menos, um pouco mais para o chão: “o meu futuro abusa da opacidade burocrática de funcionário público. Só vira as costas quando pouso os pés no chão, que o futuro, como todas as mulheres, demora demasiado tempo a arrumar o corpo longe das rugas.” (41), quebra desse lugar de futuro idealizado também no poema [Centro], “enquanto lá fora se seca o futuro. Linhas vermelhas e brancas que servirão ao conforto de uma cama sem lados. A sagração do tempo em que o meu corpo será apenas centro” (23) e no poema [Corpo]: “E se o futuro chama ele não ouve” (41). Trata-se de mostrar a linguagem tangível, de evidenciar também a materialidade da língua: “O meu nome visto de baixo” (18),“Por carris, ao longo de subterrâneos, uma colheita de ossos finos a quem não pouparei o cansaço de haver demasiadas asas entre as palavras” (40). Sobre a língua portuguesa e o país atual fala o texto [Infâmia], um retrato apurado sobre a língua portuguesa e a condição de ser português.
O mundo da infância, enquanto memória pessoal, coletiva ou genética introduz um deslumbramento imaginativo de grande intensidade pelo que ele tem de palpável, nítido e desconectado de qualquer idealização da infância. É o caso do texto [Fonte], de onde se destaca a imagem de “Uma toupeira decapitada por uma sachola” que “serviu de adubo às raízes anorécticas de uma roseira mais velha do que eu agora, conta-se. Havia corpos de pássaros pequenos por identificar e nenhuma estátua que fizesse frente à entrada organicamente pensada de dois salgueiros cujos ramos se entrelaçavam numa estrutura de ferro” (42).
[Espartilho] assume-se, assim, como lugar gerador de transparências e constitui uma ampla afirmação de vida no panorama da novíssima poesia portuguesa, pelo seu poder de imaginação, (rapidez e deslumbramento) criado por uma das vozes mais novas da poesia portuguesa atual.

Nota
Manuel de Freitas, Poetas sem Qualidades, Lisboa, Averno, 2002, p. 11.


Nuno Brito

domingo, 1 de março de 2015

Dizia-se em Oaxaca


Falava­se em Oaxaca da tua sede e de uma menina que injectou petróleo no peito — Cristalizou na sua boca um líquido em fogo a formar­se no canto do lábio em ponto de açúcar, em ponto de sol e fuga e conjunto de limões e conjunto de homens que acedem os faróis: e descia da sua boca, pela casa, pelo chão, descendo as escadas, descendo o passeio, descendo a montanha, e pela montanha abaixo descia um sol líquido adocicado pela memória de todos — toda a memória do mundo a descer como um degelo solar pela montanha abaixo, todas as montanhas abaixo: À beira do mar pensava­se que o Vesúvio tinha irrompido. Todos saíam para os seus trabalhos e acendiam todos os faróis vermelhos que anunciam a nova era e os faroleiros entravam com uma mensagem nova, e as mulheres dos faroleiros iam aos faróis levarem um tupperware com sopa e trazer a roupa suja para lavar, e sacavam a roupa suja e voltavam a levar a roupa suja. E faziam amor com eles no cimo de todos os faróis. E da montanha descia a memória em direcção ao mar, em ponto de sol, em ponto de fuga adocicada: Fizemos um pacto com a vida e com tudo quanto flui. A santa injectou petróleo e cristalizou na sua boca um fio que caía ardente — Todo o sol, carregado de sal e doçura a entrar na veia de cada heroinómano, de todos os amantes… Iam para perto dos faróis: às seis e trinta: por baixo da ponte da Arrábida um carro estacionado com dois amantes, os vidros embaciados. Depois ele abre o vidro e acende um cigarro de haxixe, o vento do mar entra no carro e bate fresco e quente ao mesmo tempo na cara dos dois. Ela baixa­se, encosta­se contra o peito dele. Sente­lhe o coração. Leve e seguro. Ele passa­lhe suavemente as mãos pelos cabelos. Beija­lhe as orelhas. A menina em directo para a CNN a injectar leite condensado no peito para afastar todas as nuvens que são rios inteiros em forma de vapor a flutuarem. Não era o quê? Dizia­se o quê? Em Oaxaca. Falava­se de febre e limões, de beijos na boca que podem não acabar, de línguas entrelaçadas, de mãos dadas, de mergulhos no mar. Falava­se de Pedro Abelardo e Heloísa, de Mariana Alcoforado e de Alejandra Pizarnik. Diziam as raparigas de cabelo curto, com a boca cheia de cerejas negras, que o sol podia um dia não vir. Os Atlantas esperam­no, fazem um pacto com ele, nós com a vida. Creme de la creme pela montanha abaixo.

O padre de Hiroshima a apanhar o sol no fundo da montanha. O padre de Hiroshima a meter um bocado na boca. A beber o degelo: a apanhar as sombras do chão. A prendê­las com molas no estendal — e, como a mulher dos faroleiros e dos cortadores de carne, a estender também a sombra dos cogumelos e dos prédios que derreteram para o chão e a sombra dos lírios e dos corvos e a pegar fogo, com o seu isqueiro, às sombras das girafas, de todos os homens, animais, plantas e coisas: Adora, como todos a palavra «húmido»e o seu deus não é palavra e não se escreve por palavras e não sabe ler nem escrever. E ler nem escrever ajuda a encontrá­ lo e ler e escrever não é nenhum deus: Dizia­se em Oaxaca que o sol viria sempre e isso chegava aos homens que levavam os seus burros pela manhã.

Passava um carro, um camião, os dois amantes por baixo da ponte Arrábida. Vão à bomba de gasolina comprar tabaco e cerveja em lata. Voltam para o carro abraçados. Dizia­se em Oaxaca que o sol lhes ia entrar no peito: Dizia­se em Oaxaca que nós somos todos os outros. Uma roleta russa de mel, para diabéticos enquanto descem flocos de neve para dentro das bocas negras. Um nevão que cobre África. Falava­se em Oaxaca da minha vontade de te abraçar. Falava­se de um derrame na artéria do coração, um derrame de petróleo doce e branco como o leite condensado ou o leite gordo das baleias. Um petróleo injectável: Falava­se disso em Oaxaca enquanto todos os carros passavam para o trabalho. Falava­se com febre e as mãos a tremer, outras vezes com calma e com a ajuda do mezcal e tequilla. A sombra dos lírios violava a sombra dos homens. E a febre dos homens entrava nas mulheres: Dizia­se tudo isso em métrica sáfica e escrevia­se nas paredes dos cafés, das casas, das escolas e de todos os edifícios públicos, o quanto te Adoro. O Padre de Oaxaca ouvia e secava as sombras e secava os rios e esvaziava os mares com o seu balde de plástico: um trabalho como o de Sisifo. De cada vez que se contem o choro, os rios sobem mais um pouco. Falava­se em Oaxaca da febre dos búzios, de pernas entrelaçadas, de braços entrelaçados, de estrelas entrelaçadas. As mulheres dos pasteleiros acordavam a meio da noite, com as suas meias de lã grossa, para virem abrir a porta à estrela que com todas as suas pontas batia em cada porta, e entrava dentro das casas: Uma estrela feita de solidariedade, que cresce quando as pessoas se abraçam, que é só febre, sensação e calor.