sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Rui Lage

ABOIO

Tinha um teclado barato
no recinto dos olhos
onde um loop eterno tocava
êxitos de ouro que o passado,
crendo-se futuro,
sem talento e sem contrato buscara.

Sentada no muro cabisbaixo
a si mesma descia por
escada interior
e na subida me puxava
como água
do fundo de um poço.

Para sua corte me chamava
e eu ia, cabeça de gado
numa só noite apreçada
e vendida.


Rui Lage - Um Arraial Português, Ulisseia, 2011.

Miquel Martí i Pol

Dois Homens velhos

Dois homens velhos que sobem agora a escada
dizem que dantes o Inverno era mais longo.
Mais longos são os teus cabelos, e espessos
como as letras espessas do jornal
que diz que os B-52, ontem,
estabeleceram um novo recorde
de acção em combate na Indochina,
onde o céu é talvez azul
como o laço do chapéu do gondoleiro
que tenho guardado não sei em que armário,
ou como as fraldas que agora vejo, penduradas
na varanda mesmo em frente de casa,
varanda velha como os dois homens que, agora,
sobem a escada devagar.


Miquel Martí i Pol, in Antologia da novissima poesia catalã. Tradução de Manuel Seabra

Luísa Marinho



Um Blues Nem Sempre é Triste





O texto que se segue requer algumas observações prévias. Escrevi-o na segunda metade de 2005, tendo
como princípio a correspondência trocada entre dois portugueses que vivem afastados: um em Berlim
outro em Nova Orleães. Depois de ter escrito algumas cartas, comecei a ficar sem ideias, sem saber
como arranjar um final, se é que tinha de ter algum final... Depois acontece o inesperado. Em Nova
Orleães, o furacão Katrina provoca um terrível drama humano. Infelizmente, tive matéria para terminar
a correspondência... As três últimas cartas foram já escritas depois do furacão.



Nova Orleães, 5 de Julho de 2005


Uma vez disseste-me que gostavas de escrever canções de amor em noites quentes. Hoje
está um calor de inferno. Gostava de ser como tu e transformar o calor em música. Que
desperdício o inferno quando estás longe. Gostava de te ouvir dizer que aí também
transpiras e que sem ar condicionado te custa dormir. E que te sentas em frente a um
piano desafinado e fazes um blues. Comigo a música acontece quando ao regressar a
casa, ao fim da tarde, vejo o calor a levantar-se das pedras e todo o ar cheira a
queimado. São os fins de tarde em que, na minha cabeça, sou um negro sem correntes, e
corro pelos campos de algodão que pus a arder gritando “liberdade”, num tom ritmado
de esperança e dor. Sei que do outro lado está o rio, mas a minha liberdade não tem
objectivos. E desapareço nas chamas ao som dos cânticos da sanzala, que ouço ao
longe. Chego sempre a casa com uma sensação inútil de desejo. Inútil porque não o
transformo em som, porque as palavras – estas palavras – são poucas e desajeitadas para
dizê-lo. E porque penso que, se calhar, nem sequer vais ler esta carta.
Um abraço,
A


Berlim, 13 de Julho de 2005


Só existes tu nas noites de canções de amor que não chego a escrever. E, por
consequência só existo eu. Não importa se há quem se julgue mais privilegiado, mais
completo. Poder dizer-te que é bom ter música na ponta dos dedos sabe-me a um
milagre. Gosto das tuas palavras ajeitadas e reconcilio-me sempre com os teus abraços.
Dizes que gostavas que as notas te saíssem harmoniosamente. E eu respondo-te que
gostava de ser esse negro a correr pelos campos de algodão. Mas tenho de me resignar a
fazer a banda sonora, apenas. E o pior é que as canções de amor tardam. Aqui o calor
não é muito e as florestas estão demasiado longe para se deixarem ouvir morrer. Há
muito silêncio por estas paragens. Tanto que custa interromper. O meu piano continua
afinado, à espera de melhores dias. A liberdade é também paciência.
Um abraço,
B


Nova Orleães, 18 de Julho de 2005


Os teus abraços são também liberdade. Se me esperares com a porta da sanzala aberta,
juro que não desisto até te levar comigo para a beira do rio. Deixamos o coro e as suas
lamentações para trás. Já não me importaria com a música e a sua espiritualidade se
apenas precisarmos dos nossos braços entrelaçados para chegarmos a um princípio mais
fresco. Nunca pensei que a música na ponta dos dedos te acorrentasse. Mas agora que o
sei, peço-te desculpa pelo meu lamento. Podemos viver sem blues, se quiseres. Ao fim
ao cabo, é melhor deixar a tristeza nos campos de algodão.
Um abraço,
A


Berlim, 25 de Julho de 2005


Compreendo, pelas tuas palavras de compaixão, que ignoras que não existem destinos
forçados. Os abolicionistas não fizeram mais do que estar a meio do caminho dos
libertados. Vou continuar no meu quarto de derrota, onde não podes chegar, apenas
porque não sabes como ou porque não te soube eu mostrar o caminho. Mas não te
preocupes. Um blues nem sempre é triste. E é sempre possível quebrar a corrente do
medo. E perceber, finalmente, que não é a harmonia dos sons mas a sua intensidade que
nos comove.
Um abraço,
B



Nova Orleães, 30 de Julho de 2005



Não é a harmonia nem a intensidade dos sons que me comove, mas o seu desencontro.
Acreditas mesmo num destino antes de ti, eu não. Mas admito: a vontade de querer
forçar o destino é imprudente e megalómana. Nunca acreditei noutras entidades que não
o indivíduo. No meu mundo não existem pares, nem grupos, nem famílias ou
agregações. Então porquê a minha necessidade de partilha, de querer libertar-me
contigo? Esta cidade é estranha. Vivo o seu quotidiano de uma forma apaixonada, mas
não te consigo falar dele. Construo imagens de cenários possíveis e nestes, trabalho a
minha imaginação e o que me liga a ti. Os arrebatamentos surgem em estados de
espírito assim. Quando leio as tuas cartas é quase sempre de noite e já passei pelos bares
de sempre onde o embaraço da descontracção alheia me faz fugir. Começo a achar que a
distância propicia o controlo. Este será, talvez, uma arma de defesa. Ou de arremesso.
Como o amor.
Saudades,
A



Berlim, 5 de Agosto de 2005


Talvez os apátridas se procurem em todos os gestos quotidianos. Lembro-me que no
passado Abril, corri todas as floristas para comprar um cravo. Não encontrei. Não sei
como se diz cravo em alemão. Também procuraste um, no passado Abril?
Abraço,
B


Nova Orleães, 12 de Agosto de 2005


Hoje tropecei num mendigo negro que pedia sentado à porta de um café. Caí e praguejei
em português. Ele olhou para mim e ajudou-me a levantar. Tirei um dólar do bolso para
lhe dar, mas ele abanou a cabeça numa expressão de cansaço e virou costas. Senti-me
frágil e inútil como se tivesse deixado de compreender tudo, ou como se tivesse
começado a compreender tudo. Não sei de que lado estou, se tenho sorte ou azar, se
pertenço ao grupo dos privilegiados ou ao dos que nada têm. Por isso, estou à margem
de tudo, entre lucidez reveladora e a dúvida insolúvel. Entre o céu e o inferno, o melhor
sítio para se estar, como diz um blues antigo. Não estava assim em Abril passado,
quando pedi à minha vizinha do lado que me desse um dos cravos vermelhos que
cultiva no canteiro em frente a casa. Perguntou-me para que o queria e eu falei-lhe da
revolução. Disse-me que o seu país também precisava rápido de um Abril, o que me
comoveu. No dia seguinte, ao passar pela sua janela, vi que tinha posto um cravo numa
jarra e o exibia em cima da cómoda. Tem chovido muito por aqui. Já não sinto o cheiro
da madeira queimada.
Abraço,
A




Berlim, 30 de Agosto de 2005
Pergunto-me se ainda vives. Ainda vives?
Saudades,
B


Nova Orleães, 15 de Setembro de 2005
Queria escrever-te até esgotar a musicalidade das frases. Percorrer todos os sentidos de
palavras como “cravo”, “liberdade” ou “utopia”. Mas a água inundou o papel e a caneta.
As palavras já não são palavras, são desespero. Deixei de lhes sentir o sabor, de as
saber. Ainda vivo, não sei como… e no meu barco já não cabem mais crianças
naufragadas. Faço parte dos que nada têm, agora sei-o.
Abraço,
A


FIM

Luísa Marinho

Luna Miguel

LADRAS O MUERES

También he visto a los mejores cerebros de mi generación
destruidos por el emoticono.

He visto sus rostros inexpressivos.
He leído sus poemas fotocopiados.

No conozco su violencia
pero intuyo un nuevo aullido.
Un grito seco.
Un grito de amor.

Porque también he amado a los mejores cerebros de mi
generación:

los he besado e masticado,
los he deseado tanto.

Cerebros que vienen del cielo
cegados por una luz que no parecía suficiente
y que ahora quema la entraña
de mis antiguos versos.

Cerebros que he sido y cerebros que seré.
Drogas que he consumido. Medicinas.
Bocas que he rechazado y que ahora necesito.
Sesos de animal que mi madre cocinaba
antes de cambiar de ciudad
y dejar
las cucarachas del armario
en el olvido.

Cerebros recitando de memoria.
Cerebros escribiendo de memoria.
Ignorantes neuronas
vomitando de memoria.

He visto la generación a la que pertenezco y apenas la
soporto.


Luna Miguel, in "Poetry is not dead" Prémio de Poesia Hermanos Argensola 2010.

David Foster Wallace


Viking: Poema manuscrito

Golgona Anghel

Poeta na Praça da Alegria

Não sou infeliz. Não, não me quero matar.
Tenho até uma certa simpatia por esta vida
passada nos autocarros,
para cima e para baixo.
Gosto das minhas férias
em frente da televisão.
Adoro essas mulheres com ar banal
que entram em directo no canal.
Gosto desses homens com bigodes e pulseiras grossas.
Acredito nos milagres de Fátima
e no bacalhau com broa.
Gosto dessa gente toda.
Quero ser um deles.

Não, não guardo nenhum sentido escondido.
Estas palavras, aliás, podem ser encontradas
em todos os números da revista Caras.
A ordem às vezes muda.
Não quero que me façam nenhuma análise do poema.
Não, não escrevam teses, por favor.
Isto é apenas um croché
esquecido em cima do refrigerador.

Obrigado por terem vindo cá para me beijarem o anel.

Obrigado por procurarem a eternidade da raça.
Mas a poesia, mes chers, não salva, não brilha, só caça.


Golgona Anghel in "Vim porque me pagavam" Mariposa Azual, 2011

Rober Diaz


Gameto.

Tenderte,
sí,
desdoblarte,
como si fueras un mapa
al que solo acudo a buscar reflejos,
ecos de ubicaciones prefabricadas,
espejos caleginosos
donde perder el camino sea más fácil;

Supongo
que lo que quiero es extrañarte,
alejándome del punto vacío
por donde nuestras despedidas se cruzaron
como crucigramas
que encerraban miradas
y gestos mullidos,

Tuvimos que callarnos...?
Para decir:

Tal vez sea,
que te encuentre en el infierno,
olvidada de las lineas de mi mano pútrida,
descompuesta,
apestando a estiércol,
que ahí anhelará tocarte
esfumándose en un latido
como perro horrorizado,
como un guante ajeno,
corroído a la sombra
por el fuego semejante a una tumba,
meditando
que el futuro
es solo su desaparición,
en rastros
de sudores inahalados,
de pistolas no empuãnadas
y dejos acuosos
de lágrimas o
sáliva evaporada.


Pudimos decir:
No te veré más:
Mañana me saco los ojos,
con un abrelatas desepcionado
que esperaba
nenúfares de mi alma
y solo recibió limazas coprófagas
caracoles descabezados,
un par de testiculos emplazados
a producir más esperma
para callar cualquier ansia...
de penetrarte
y retenerte..