sábado, 3 de setembro de 2011

Leslie Mcgrath

O pão

deixei-te um pão embrulhado numa toalha de chá azul,
na tábua de cortar uma noz de doce manteiga e a tua faca favorita, a sua serrilha
gasta até suaves rendilhados. Quero que chegues a casa e a segures perto da bochecha
da maneira como deitaste a cabeça na minha barriga grávida há anos
para sentir o pontapé agitado do nosso filho. Põe a palma da tua mão no círculo húmido
que o pão deixa na tábua, lembrando-te da húmida noite de verão
em que levantaste os caracóis de cabelo do meu pescoço, inclinando a minha cara na direcção da lua.
Corta uma fatia mais grossa do que a que eu cortaria para ti e arrasta-a pela manteiga.
Saboreia o fermento, as groselhas, o coalho. Saboreia o sal das minhas mãos

Leslie Mcgrath: "A Sul de Nenhum Norte" número 3.

Jenna Cardinale

O marinheiro regressa

Quem consegue ler a sina
no fumo de cigarros espanhóis -
Forçado à porta
do bar, convidando
toda a gente a entrar -
Não ancoraste neste porto -
Não de barco, pelo menos.
A licença era necessária -
O dever de dançar,
amor, e toda esta linguagem.
Sortudo - Os bêbados estão ansiosos
por te dar as boas vindas a casa.

Jenna Cardinale, in "A Sul de nenhum norte", número 3.

A revista pode ser descarregada aqui:http://www.megaupload.com/?d=XSMYI3ZB

Joana Jacinto

Ordinal

I

Espera um segundo,
Se eu te disser
‘Espera um segundo’
Confiarão os teus dias naquilo que os olhos ouvem?
Espera um segundo.
Abre mão
das palmas dos olhos,
das palmas das mãos,
das palmas dos braços,
da palma do regaço,
das palmas dos pés
Nelas: todos os corações.

II

Espera um segundo,
Divide cada momento em seis.
Contempla o arco
o sol
Deixa cada momento morrer
na palma da tua mão.
As mulheres amam sempre.
Espera um segundo,
Estende a língua ao silêncio.
Sabe-o. Sobe
sobre o degrau último do tempo
Ouve-a, que paira.
As mulheres têm vários corações.
Espera um segundo,
Extrai os dias
da rocha
o tempo
Coloca-os sobre uma placa de madeira.
Destila o sal
do conta-momentos
momento-a-momento
a-tempadamente
fende:
Sagra dos dias a forma intacta.
As mulheres amam sempre.
Guarda o tempo,
momento-a-momento
recolhe-os para o verão.

III

Espera um segundo,
Des-conhece.
Des-arruma, des-compara, des-ordena
o cheio
chão das coisas.
Des-sê.
As mulheres têm vários corações.
Um no círculo dos olhos
chama-se relâmpago,
espelho.
Um no círculo das mãos
chama-se pele,
esquisso.
Um no círculo dos braços
chama-se tear,
edifício.
Um no círculo do regaço
chama-se pomo,
pérola.
Um no círculo dos pés
chama-se casa,
eternidade.
Espera um segundo,
Como se tivesses seis anos

e um sorriso de gengivas
o aguardasse debaixo da almofada pela manhã.


Joana Jacinto: "Cràse" número 1. 2010.

Catarina Nunes de Almeida

1.

Hoje faço questão de te deixar
uma nuvem branca sobre o olho esquerdo.
Sobre o olho esquerdo que é olho próprio
para cardíacos. Hoje mesmo
já que existe este mover de espumas
em tudo o que é cave no meu seio
na procissão que sai do adro
do cinema. Hoje mesmo
já que tenho o teu cabelo tombado
no meu rosto resolvendo-me
os caminhos. Cabelo igual
ao cabelo dos astros
do cinema.

2.

É parecido com os comboios
este Outono este corpo com vista.
Estamos sempre tão sós quando tomamos
a estação aos pombos aos pinheiros bravos.
Os dois tão sós aos encontrões
picando bilhetes com caruma
com carícias obrigando as gentes a esta
multidão de dois. Sempre à espera
sempre à espera que na manhã seguinte
o maquinista não se levante da cama
sempre à espera que a medicina nos conceda
mais um grande passo para a cegueira –
que nunca cure a nuvem branca que hoje te deixo
sobre o olho esquerdo.

3.

Colhe de um corpo
o carvão verde
a sua música cereal moída moída.
Abre um corpo na partitura canta-o
enquanto se parte enquanto ficam
anos por contar enquanto ficam
anjos nas pálpebras
inconfessáveis.
Como se a manhã falhasse sempre.
Como se escolhesses o comboio que pára
em todas as estações
e valesse a pena gastar outra infância
para não chegar.


Catarina Nunes de Almeida; in Revista "Cràse" número 1. 2010.

Miguel-Manso

Em Évora, um terraço


quando o nível das águas subir

(não se sabe ainda quantos metros)

e se apagarem certos lugares: a sombra

do limoeiro da infância


a praia onde todo o Verão cabia


e terminar submerso tudo o que foi raso e sacro

então que pelo menos permaneça intacto

aquele terraço em Évora


Miguel Manso - retirado de:
http://asfolhasardem.wordpress.com/

Sara F. Costa

Contemplação


sento-me na margem da tua infância
e recupero o gosto pelo esquecimento.
as minhas mãos traçam o momento
em que o teu corpo aberto colide com o mar.
imagino o oceano em que te deitas
e a forma como
a tua boca de areia se alarga
até à Praia da Vieira.
imagino os rascunhos de memória
que as horas vão largando
ao longo do caminho.
sinto-te um prolongamento do meu pensamento,
pensamento de água
volátil como a noite que te abriga,
fragmentário como o cheiro do teu nome de flor.

a luz apagou todos os vestígios da terra que nos escorre dos olhos,
deixou-nos entregues à substância húmida do abandono
aos caminhos modernos das várias formas de embriaguez letal.
embriaguez no centro de todas as coisas visíveis,
queimadas ao longo dos extensos pensamentos matinais.

escrever revela-se tão volátil como esfaquear-te,
se é que me entendes.

vivemos na mesma esfera de fogo que acompanha o balanço dos
[enforcados.
o gelo aproxima-se da boca
enquanto despertamos de todo o cansaço
e contemplamos as insónias enferrujadas
por dentro das imagens.
esquecemo-nos de vigiar a natureza quando a realidade tem problemas
ao nível do hardware.

observa, o ar gera filhos nos poros do tempo magro,
a alienação cria escamas firmes pela pele.

por dentro de todas as palavras abstractas
encontramos água
e o peito da terra respira um medo fragmentado.
os gestos nervosos das ruas anestesiam-nos diariamente.

Sara F. Costa: in "Criatura número 1" - Fevereiro 2008.

Ana Salomé

Ode Rimbaud


eu sou absolutamente moderna, Rimbaud.
sei que nunca pensaste que uma rapariga de Portugal
se tornasse absolutamente moderna.
o caso é que nunca deitei o amor pela janela
mas a janela deitou-se pelo amor dentro.
não toco piano, não falo francês, nem faço fru-fru.
sou absolutamente moderna, Rimbaud.
tenho telemóvel, tenho blog, tenho carro
e até uma paixão que já não é platónica
agora para se ser absolutamente moderno
diz-se virtual, Rimbaud.
perdoa-me
dou-te a minha perna
um prato com bolinhos de canela
para te lembrares do tempo dela.
perdoa-me o sarcasmo, Rimbaud
o fatalismo azedo de rapariga absolutamente moderna
constructo humano, já não ser.
perdoa as minhas pernas a engordar de noite para noite
o fumo da chaminé comum do prédio
a minha imensa falta de árvores
a minha necessidade que devora um poema para o deitar fora.
perdoa-me não ter entendido uma única coisa que disseste
mesmo na tradução do Cesariny que é livre e bela
como uma rosa francesa desgrenhada em solo português.
perdoa-me escrever telegraficamente
ter deixado de respirar para todo o sempre
e continuar a pintar os lábios de vermelho
como se isso fosse possível num deserto sem beijos.
perdoa-me não ter consigo manter a tua palavra
perdoa-me ter falhado e ser erro.
p.s. - se quiseres regressar a terra
como o Cristo da literatura do não
tomas café comigo?


Ana Salomé: "Odes" - Canto Escuro 2008.