Pegadas de pássaros
I.
Tudo está na margem. A árvore
Diverge de si própria por baixo do peso do anseio
Para gerar uma nova árvore,
Dentro da maçã uma nova maçã se gera,
As portas estão cheias de portas
e o dia faz nascer
outro dia sobre o caminho semi-cego.
II.
A minha cabeça no jardim está cheia de neve que irá cair
Pegadas de pássaro guiam-nos através dela, simples e indiscutível,
de margem a margem.
Por baixo da neve a concha azul rebenta.
Adeus, olhos azuis
As minhas orelhas estão cheias
do refluxo suave do mar.
ouço os cortes do fundo
dos corpos vazios
e do vidro indigo
O passado de uma pausa
E a casa era muitos-cantos
E desconhecida e branca
Transparentemente estrangeira
(sem pegadas)
Um caminho de terra para as coisas cegas
corre através da relva…
Tudo na concha
1/
Tudo na concha – Disse a criança. Pelos nossos objectivos deixamo-la tomar isso como um facto.
Nós vamos emergir do ovo. Nós vamos emergir da metáfora. A incessante disputa com a concha é a força motora dos nossos dias. Eu vi esse dia antes de mim. O ranger dos pés em prosa, compondo e descompondo numa sucessão do estremecer dos fragmentos.
Essa confusão da vida de areia rodopiante.
Eu vejo as tribos que não dormem dos guardiões da concha, espalhadas na areia que arde e nas bocas do desfile que assobia. Os seus cotovelos secos e afiados, as suas pálpebras afiadas, os seus olhos-brancos pequenos através do silêncio nervoso da miopia. As suas relações escondidas com os jogadores do jogo que prolifera, que abranda até ao infinito.
Na luta pela imaginação há uma luta pela concha. Luta com a concha. Luta na concha.
2/
A janela está iluminada. Fora do crepúsculo que diminuí a cara empurrada pela sede avança de forma incerta. Um perfil frágil desenha-se a si próprio sem claridade. A cara subconsciente de uma mulher, levemente arredondada. Como se tivesse surgido de si própria. A altura inominável, recorrente nos nossos horizontes de cada dia. Esse crescimento vizinho onde há um depósito de lixo, armazéns ou antenas de televisão. Ou simplesmente esse silêncio nu da pedra que vêm, o fim do mundo e a erva daninha.
3/
Tenho as minhas coisas empacotadas. Coisas. Só agora reparei em como fui absorvido pelo dia. As coisas estão ao meu lado, mas eu não serei capaz de descrevê-las exaustivamente. Mergulho de cabeça numa corrente brilhante. Vejo um tremer distinto aos pés da inominável altura. De repente ela atravessa-me como uma resposta desarticulada. O que realmente pode ser uma parte indissociável da original de uma pergunta auto-resposta.
4/ As Coisas estão empacotadas. Ainda tenho de atirar alguns grãos aos papagaios. Ciao. Vou deixar uma mensagem na porta. Aí ela vai brilhar através do buraco da fechadura. E dá a impressão que eu não emerjo de dentro, antes pelo contrário, eu queria entrar.
E actualmente é esse o caso. Tão perto da verdade, devia passar à frente, nas faixas de Fermi, Mallory, caracóis cortados e caravanas sem nome. Mas não vamos atirar areia aos nossos próprios olhos. Vou trabalhar. Sou um viajante, sou um cartógrafo, sou um caminhante de estrada. Sou um detentor. Eu sou.
O que eu vou relatar. Eu sou tu. E devíamo-nos conhecer.
5/ Tudo está na concha. Cruzamentos, estradas, auto-estradas, ladrilhos e pavimentos. Eles começam em todo o lado. É onde tu estás agora. E em todo o lado há um caminho que parte. Quando o estás a pisar, ou quando estás a fazer o caminho trilhado. E sempre ele leva-te a através de ti.
É bom parar à beira de uma árvore sem frutos. Dar uma volta pela relva fresca. Beber água de uma garrafa do deserto e observar sem som as caras dos companheiros da jornada.
Oxerpa por exemplo. Nos chamamo-lo assim por causa da sua forma de andar. Mesmo lá em baixo nas planícies argilosas ele caminha sempre com uma ligeira inclinação para a frente, como se estivesse a escalar uma montanha. Aqui na planície, ele revela-nos a cada passo uma parte de uma verdade íngreme. Ele conhece-a mas não está a pensar nela . Ele é taciturno. Sempre avança em frente.
Ao lado da árvore sem frutos eu calculo a posição geográfica. Nós estamos precisamente a 730 graus da expansão para sul da concha.
Ivan Strpka
Tradução de Nuno Brito - Literature Across Frontiers. Vila do Conde 2010
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
André Domingues
Em comunhão com ninguém
Um convento fica longe da necessidade do mundo,
mas o amor fica ainda muito para lá do convento.
É como se não houvesse estradas para amar, ou pés
suficientemente descalços sobre as incandescências
da ausência viva,
e a reclusão no amor fizesse ela própria votos
de pobreza extrema,
escrevesse um diário da ingratidão
com o desmazelo,
e chegasse a uma fórmula de desviver
honestamente em comunhão com ninguém.
Um convento fica longe da necessidade do mundo,
mas o amor fica ainda muito para lá do convento.
É como se não houvesse estradas para amar, ou pés
suficientemente descalços sobre as incandescências
da ausência viva,
e a reclusão no amor fizesse ela própria votos
de pobreza extrema,
escrevesse um diário da ingratidão
com o desmazelo,
e chegasse a uma fórmula de desviver
honestamente em comunhão com ninguém.
sábado, 10 de setembro de 2011
Sonata Paliulyte
Variação de um tema A Raposa e o Príncipe
Quando eu cavar o meu covil
Serei uma raposa indomável
Pêlo eriçado
Orelhas acesas
Vou mostrar os meus dentes
Vou aguçar as minhas garras
Vou congelar em silêncio
E não vou ficar
Só os meus olhos fluorescentes
Vão acender a densa escuridão
Apenas o contínuo
Som do rosnar
e os dentes brilhantes
para assustar aqueles que passam e ninguém
nem o mais pequeno
nem o príncipe ou o mendigo
tentará cativar a minha amizade
e ninguém será suficientemente corajoso,
para me domar
e golpear
o meu pêlo frisado
(nem despenteá-lo)
Aqui eu vou morrer
com um sorriso de raposa
os meus pequenos truques
irão levar a fim as suas tarefas
um cão de caça vai segurar o corpo
e o caçador
vai sacudir o lixo
da sua pele
e escova e golpeia-o, na penugem
a sua cabeça confirma:
- Esta foi a mais bonita
e a mais não-raposa de todas as raposas
pobrezinha, desapareceu tão cedo.
Auto-de-fé
O céu calmo
arremessa pedras de granito
para dentro do silêncio mudo
Na palma da mão fria
Os cactos de vidro
começam a falar.
Por cima do lento redemoinho,
branco tão branco
flocos de neve em colisão.
Na abóbada do céu
caracóis de negro
as nuvens ganham forma
devagar, devagar,
na palma da mão húmida
eles apressam-se a morrer
e os anjos terrenos
experimentam o tamanho
dos seus robes negros.
Tradução de Nuno Brito
Quando eu cavar o meu covil
Serei uma raposa indomável
Pêlo eriçado
Orelhas acesas
Vou mostrar os meus dentes
Vou aguçar as minhas garras
Vou congelar em silêncio
E não vou ficar
Só os meus olhos fluorescentes
Vão acender a densa escuridão
Apenas o contínuo
Som do rosnar
e os dentes brilhantes
para assustar aqueles que passam e ninguém
nem o mais pequeno
nem o príncipe ou o mendigo
tentará cativar a minha amizade
e ninguém será suficientemente corajoso,
para me domar
e golpear
o meu pêlo frisado
(nem despenteá-lo)
Aqui eu vou morrer
com um sorriso de raposa
os meus pequenos truques
irão levar a fim as suas tarefas
um cão de caça vai segurar o corpo
e o caçador
vai sacudir o lixo
da sua pele
e escova e golpeia-o, na penugem
a sua cabeça confirma:
- Esta foi a mais bonita
e a mais não-raposa de todas as raposas
pobrezinha, desapareceu tão cedo.
Auto-de-fé
O céu calmo
arremessa pedras de granito
para dentro do silêncio mudo
Na palma da mão fria
Os cactos de vidro
começam a falar.
Por cima do lento redemoinho,
branco tão branco
flocos de neve em colisão.
Na abóbada do céu
caracóis de negro
as nuvens ganham forma
devagar, devagar,
na palma da mão húmida
eles apressam-se a morrer
e os anjos terrenos
experimentam o tamanho
dos seus robes negros.
Tradução de Nuno Brito
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Rosa Maria Martelo: A Porta de Duchamp

A Porta de Duchamp – Rosa Maria Martelo: Averno, Lisboa 2009
“Quando vivia em Paris, no pequeno apartamento da rua Larrey, nº 11, Duchamp fez instalar dentro de casa uma porta que não podia estar aberta nem fechada porque estava sempre aberta e fechada ao mesmo tempo” Assim começa “A Porta de Duchamp” de Rosa Maria Martelo, narrativa fragmentada de 17 partes, todas elas com um ponto em comum: as portas como ligação / o que abre / o que fecha - O que mesmo que esteja fechado está aberto. A reflexividade é marcadamente forte neste texto, injectado de uma emotividade sensorial muito acesa e de uma profunda e muito viva perspicácia. Logo no início, as citações iniciais revelam um pouco da narrativa:
“Ouvi bater à porta.
Não há porta. Porque haviam de bater à porta que não há?”
Mário Cesariny
“Há algum que tenha a chave da porta do ser, que não tem porta, e me possa abrir com razão a inteligência do mundo? “
Álvaro de Campos
Duchamp, Fernando Pessoa, Cesariny abriram muitas portas, Rosa Maria Martelo também com este livro, sobretudo muitas perspectivas. Trata-se de um livro múltiplo, coerente e vital, sobretudo de grandes revitalizações.
A reflexão sobre a passagem / o abrir caminhos, é muito atenta e inteligente “Uma porta que ele abria quando a fechava (fechada mesmo aberta como, alguém disse acontecer com os livros”: A frase incluí reflexão sobre o fenómeno literário que continua no texto seguinte: “Há quem fale de livros entrados na carne, como agulhas, de venenos incolores descompassando veias”
O elemento – entrada / saída é revisitado em outras partes do livro – Entrar com força, sair com força. A viagem prossegue com outras pequenas histórias interligadas por este factor, A fotografia está presente. A fotografia usada como registo frágil, suporte perene, pode ser uma das múltiplas aberturas / perspectivas e interpretações do texto “Lama”: “O que faz um fotógrafo de nuvens e de estrelas, neste dia de chuva, de temporal desfeito, quase deitado no chão, fotografias espalhadas no meio da lama”. Em “Infância”, há uma Imagem fortíssima de grande carga sensorial mantendo um registo único: “subtrair à passagem das ondas e do tempo pedacinhos de nada, menos que conchas (búzios partidos, por exemplo de que ficara o centro em espiral). Há uma revitalização da infância: portas que se abrem e fecham na memória e são invocadas (abertas / ou fechadas) nunca por completo: “nada pode ser verdadeiramente deste mundo”. Em “Filme” são invocado Gregory Peck, Ingrid Bergman e Hitchcock: “É então que Hitchcock abre porta atrás de porta, naquele movimento contínuo de certos filmes que aceleram a vida das plantas para as vermos nascer e abrir e abri mais, mas não morrer”. É de grande importância o uso da repetição e a pontuação em “folhas nascem e abrem) e abrem) e abrem)” O parêntesis é fechado, mas não aberto – A abertura está na frase. Outros recursos de grande vitalidade criativa são usados na criação de palavras por repetição e hífen, como “porta-porta”: As palavras abrem.
Muito mais poderia ter sido dito de um livro que é uma porta aberta e de um livro que é uma porta fechada (aberta e fechada ao mesmo tempo). É um livro que Abre muitas portas / perspectivas, onde se deve entrar e sair várias vezes.
Nuno Brito
Leonard Cohen
... Despe-te da memória e ouve o fogo à tua volta. Não te esqueças da memória, deixa-a estar num sítio precioso com todas as cores que precisar, mas num outro sítio, iça a tua memória no Navio do Estado como a vela de um pirata, e responde à chamada do presente. Sabes como fazê-lo? Sabes como ver a acrópole do mesmo ângulo que os índios que nunca tiveram nenhuma?...
Leonard Cohen, Belos Vencidos
Leonard Cohen, Belos Vencidos
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Maria Quintans
a noite morde-me o tímpano
mãe
e sempre a tua mão me liga ao rosto
mãe
a tua pele é o meu cheiro
mãe
a porta é um jardim sem fim
mãe
e os dedos a constelação dos teus olhos
mãe
minha
mãe
e sempre a tua mão me liga ao rosto
mãe
a tua pele é o meu cheiro
mãe
a porta é um jardim sem fim
mãe
e os dedos a constelação dos teus olhos
mãe
minha
Literatura e Começo
Escrever é inscrever no interior de um círculo o exterior de todos os círculos
Maurice Blanchot
A literatura está em todo o gesto humano, em toda a representação ela se manifesta, manifesta como aparição: Lemo-nos uns aos outros, cheios de sede, com os lábios trémulos, enquanto humanos. Segundo Heidegger qualquer manifestação é sempre um não mostrar-se. A literatura manifesta-se nessa elipse de tudo o que está escondido na condição humana, um olhar, um gesto, uma união. Independentemente do suporte, ela apresenta-se, revitaliza-se e renasce; apresenta-se ao homem vindo do próprio homem e ultrapassa-o, faz o homem superar-se a si mesmo, incorporando toda uma literatura anterior. Nada se esgota ou anula, pensar que tudo está feito é tender para a morte. A civilização sustem-se na literatura, ela pode ser oral, gestual, assente em qualquer suporte por mais volátil e perene que seja. Pelo fim do símbolo, ela pode ser só representação sem representação: campo/contra-campo: pode estar no olhar, num atirar um pau para a água, no regar os girassóis, em cada acto ela se revela, se mostra, se recria, se cruza com outras realidades para tecer novas ficções. Satoshi Kon alerta-nos para o facto da realidade prover da ficção: no seu novelo contínuo, a realidade tece-se de ficções, as sombras provam-nos que há sol.
A literatura exige o cruzamento constante de tempos e espaços diferentes. Tempo e espaço podem não chegar a caber na literatura, ela ultrapassa-os. Quando pensamos que um género literário se esgota, uma matiz de pensamento se esgota, logo ela se revitaliza, incorporando elementos do passado e do futuro. A frase de Blanchot por muito paradoxal que pareça e sendo uma afirmação circular mostra as inúmeras portas que se abrem diante do fenómeno literário: “inscrever no interior de um círculo o exterior de todos os círculos” é tornar o impossível possível (há limites, o círculo: a linguagem, o pensamento humano, a cultura em geral), mas escrever poda esses limites, anula-os quase por completo, pelas portas que abre, e são muitas: anulam-se os condicionantes, as barreiras do pensamento humano. O salto é difícil mas é sublime e está presente apenas na vontade de renovar, de incorporar o erro, de acrescentar, e veja-se erro no sentido mais positivo da palavra: só ele faz avançar – Este é um dos pontos principais para captar e perceber a hiper-realidade que se nos apresenta diante de nós, como uma estrela de várias pontas, uma porta sempre aberta. Já Emily Dickinson se dizia, falando sobre a poesia "Habito a possibilidade, uma casa mais ampla do que a prosa". Pode-se dizer em versos, o que os não versos não podem dizer. Referindo-se à literatura em geral, Ernest Bloch falava dela como "Uma festa e um laboratório do possível". Ultrapassa a linguagem, transgride-a, o pensamento humano anula as suas barreiras. Jean Paul Sartre refere que o poeta está fora da linguagem. Luis Miguel Nava acrescenta que todo e qualquer poema é uma cosmificação, um lidar com o cosmos todo, no acto de escrever: entenda-se aqui universo interno e externo, ambos se tocam no processo de escrita. Se é verdade que qualquer texto literário está dependente do tempo e espaço, também é verdade que um texto dá sempre um salto e ultrapassa ambos. Nessa intemporalidade da escrita que é ao mesmo tempo uma universalização toda a história se adianta, se articula com passado e com futuro. “Escrevo tal como nado, porque o meu corpo assim o exige", dizia Camus no seu diário. Não é somente a consciência, outra forma de dizer alma humana, que pede o acto de escrever, é todo o corpo que pede, físico, palpável, a precisar de calor, é todo ele que necessita, e necessitar é sempre uma forma de desequilíbrio que procura o equilíbrio. Na escrita encontra-se esse equilíbrio que o corpo pede. Acrescentam-se pontas à estrela hiper-real, ela engrossa a vida, a literatura, pulsa no sangue, adianta-se. Todo e qualquer texto é sempre um começo e um fim ao mesmo tempo. O processo de escrita de um homem é o processo de escrita de toda a humanidade, de todas as suas vivências.
A literatura é sempre um colocar em abismo, uma luta perene contra a própria perenidade, um doce sopro que inflama de vida e sustem a civilização. O seu tempo e espaço é múltiplo, toca todas as matizes da condição humana, permite a sua compreensão pela fuga. Todo o acto de Criação, injecta de vida nova a linguagem. Como refere Leonardo Da Vinci: "A arte nunca está acabada, apenas abandonada": E é nesse abandono duns, que outros continuarão, em novelo eterno, aumentado o desequilibro, tornando o equilíbrio possível; nesse sentido a literatura será sempre um desequilíbrio. Como nos diz Pessoa: “A civilização é a tendência para a morte pelo desequilíbrio” – A literatura é esse desequilíbrio, mas ao mesmo tempo a salvação, o motor da união.
Nuno Brito
Maurice Blanchot
A literatura está em todo o gesto humano, em toda a representação ela se manifesta, manifesta como aparição: Lemo-nos uns aos outros, cheios de sede, com os lábios trémulos, enquanto humanos. Segundo Heidegger qualquer manifestação é sempre um não mostrar-se. A literatura manifesta-se nessa elipse de tudo o que está escondido na condição humana, um olhar, um gesto, uma união. Independentemente do suporte, ela apresenta-se, revitaliza-se e renasce; apresenta-se ao homem vindo do próprio homem e ultrapassa-o, faz o homem superar-se a si mesmo, incorporando toda uma literatura anterior. Nada se esgota ou anula, pensar que tudo está feito é tender para a morte. A civilização sustem-se na literatura, ela pode ser oral, gestual, assente em qualquer suporte por mais volátil e perene que seja. Pelo fim do símbolo, ela pode ser só representação sem representação: campo/contra-campo: pode estar no olhar, num atirar um pau para a água, no regar os girassóis, em cada acto ela se revela, se mostra, se recria, se cruza com outras realidades para tecer novas ficções. Satoshi Kon alerta-nos para o facto da realidade prover da ficção: no seu novelo contínuo, a realidade tece-se de ficções, as sombras provam-nos que há sol.
A literatura exige o cruzamento constante de tempos e espaços diferentes. Tempo e espaço podem não chegar a caber na literatura, ela ultrapassa-os. Quando pensamos que um género literário se esgota, uma matiz de pensamento se esgota, logo ela se revitaliza, incorporando elementos do passado e do futuro. A frase de Blanchot por muito paradoxal que pareça e sendo uma afirmação circular mostra as inúmeras portas que se abrem diante do fenómeno literário: “inscrever no interior de um círculo o exterior de todos os círculos” é tornar o impossível possível (há limites, o círculo: a linguagem, o pensamento humano, a cultura em geral), mas escrever poda esses limites, anula-os quase por completo, pelas portas que abre, e são muitas: anulam-se os condicionantes, as barreiras do pensamento humano. O salto é difícil mas é sublime e está presente apenas na vontade de renovar, de incorporar o erro, de acrescentar, e veja-se erro no sentido mais positivo da palavra: só ele faz avançar – Este é um dos pontos principais para captar e perceber a hiper-realidade que se nos apresenta diante de nós, como uma estrela de várias pontas, uma porta sempre aberta. Já Emily Dickinson se dizia, falando sobre a poesia "Habito a possibilidade, uma casa mais ampla do que a prosa". Pode-se dizer em versos, o que os não versos não podem dizer. Referindo-se à literatura em geral, Ernest Bloch falava dela como "Uma festa e um laboratório do possível". Ultrapassa a linguagem, transgride-a, o pensamento humano anula as suas barreiras. Jean Paul Sartre refere que o poeta está fora da linguagem. Luis Miguel Nava acrescenta que todo e qualquer poema é uma cosmificação, um lidar com o cosmos todo, no acto de escrever: entenda-se aqui universo interno e externo, ambos se tocam no processo de escrita. Se é verdade que qualquer texto literário está dependente do tempo e espaço, também é verdade que um texto dá sempre um salto e ultrapassa ambos. Nessa intemporalidade da escrita que é ao mesmo tempo uma universalização toda a história se adianta, se articula com passado e com futuro. “Escrevo tal como nado, porque o meu corpo assim o exige", dizia Camus no seu diário. Não é somente a consciência, outra forma de dizer alma humana, que pede o acto de escrever, é todo o corpo que pede, físico, palpável, a precisar de calor, é todo ele que necessita, e necessitar é sempre uma forma de desequilíbrio que procura o equilíbrio. Na escrita encontra-se esse equilíbrio que o corpo pede. Acrescentam-se pontas à estrela hiper-real, ela engrossa a vida, a literatura, pulsa no sangue, adianta-se. Todo e qualquer texto é sempre um começo e um fim ao mesmo tempo. O processo de escrita de um homem é o processo de escrita de toda a humanidade, de todas as suas vivências.
A literatura é sempre um colocar em abismo, uma luta perene contra a própria perenidade, um doce sopro que inflama de vida e sustem a civilização. O seu tempo e espaço é múltiplo, toca todas as matizes da condição humana, permite a sua compreensão pela fuga. Todo o acto de Criação, injecta de vida nova a linguagem. Como refere Leonardo Da Vinci: "A arte nunca está acabada, apenas abandonada": E é nesse abandono duns, que outros continuarão, em novelo eterno, aumentado o desequilibro, tornando o equilíbrio possível; nesse sentido a literatura será sempre um desequilíbrio. Como nos diz Pessoa: “A civilização é a tendência para a morte pelo desequilíbrio” – A literatura é esse desequilíbrio, mas ao mesmo tempo a salvação, o motor da união.
Nuno Brito
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