segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
William Faulkner
Na fonte, o homem que se dessedentava inclinou o rosto para o espelho quebrado em mil pedaços de água que bebia. Quando se endireitou viu entre os estilhaços o reflexo, também fragmentado, do chapéu de palha de Popeye, embora não tivesse ouvido som algum.
- Creio que tem uma pistola na algibeira.
Do outro lado da nascente, Popeye parecia contemplá-lo com olhos que eram dois botões de borracha preta e mole.
- Eu é que lhe pergunto o que tem nessa algibeira - redarguiu.
O outro levantou a mão livre e aproximou-a do casaco que continuava a ter dobrado no braço e de cujas algibeiras espreitavam, de um lado, um amarrotado chapéu de feltro e, do outro, um livro.
- A qual delas se refere? - perguntou.
- Não precisa de me mostrar. Diga-me.
A mão do homem imobilizou-se, enquanto ele respondia:
- É um livro.
- Que livro? - Quis saber Popeye.
- Um livro, apenas. Do género que as pessoas lêem - isto é, que algumas pessoas lêem.
A mão do desconhecido estava como que petrificada por cima do casaco. Entreolhavam-se, um de cada lado da nascente. O penacho de fumo do cigarro enevoava o rosto de Popeye, uma das metades do qual se franzia, num reflexo para se proteger do fumo, e dava a impressão que a sua cara era uma máscara esculpida com duas expressões simultâneas.
- Ouça - disse-lhe o outro homem - chamo-me Horace Benbow, e sou advogado em Kinston, vivi em Jefferson, além, e é para lá que me dirijo, agora. Qualquer pessoa deste condado lhe poderá dizer que sou inofensivo. Se é por causa do uísque que se preocupa, não quero saber quanto todos vocês fazem, vendem ou compram. Parei aqui apenas para beber água e só me interessa chegar a Jefferson. Quero chegar à cidade antes de anoitecer. Popeye cuspiu para a água, sem tirar o cigarro.
- Não me pode reter assim -repetiu Benbow . -E se eu desatar a fugir?
Os olhos de borracha de Popeye fitaram-se no descohecido, a quem perguntou:
- Quer fugir?
- Não.
- Então não fuja - aconselhou Popeye desviando o olhar.
William Faulkner, Santuário.
domingo, 22 de janeiro de 2012
Ana Paula Inácio
A ti,
leitor implícito não representado
a quem chamarei Jorge
pela confusão a que se permite com George
fonia de um país maior
e ainda distante
- a distância revela um amor mais límpido -
pergunto
como ressoam as frases dos meus versos
e que resposta dás
às minhas perguntas
sabes Jorge
quantas manhãs tem um dia
ou quantas noites
ou será que já tás deitado
e o meu mail
encontra o teu ecrã desligado
ou será que tens o coração em on
ou entristecido de
dor ou tédio
risca o que não interessar
e preenche a cheio
(desculpa o pleonasmo)
o traço descontínuo
Ana Paula Inácio, 2010-2011, Averno.
leitor implícito não representado
a quem chamarei Jorge
pela confusão a que se permite com George
fonia de um país maior
e ainda distante
- a distância revela um amor mais límpido -
pergunto
como ressoam as frases dos meus versos
e que resposta dás
às minhas perguntas
sabes Jorge
quantas manhãs tem um dia
ou quantas noites
ou será que já tás deitado
e o meu mail
encontra o teu ecrã desligado
ou será que tens o coração em on
ou entristecido de
dor ou tédio
risca o que não interessar
e preenche a cheio
(desculpa o pleonasmo)
o traço descontínuo
Ana Paula Inácio, 2010-2011, Averno.
Manuel de Freitas
HOTEL PRAIA, QUARTO 508
Para a Inês
I.
São ruas que vão até ao mar, abruptamente
- ou é o mar que, desde sempre, nelas
encontrou morada? Indiferentes a esta pergunta
ociosa, as mulheres falam de casas, discutem
preços e amarguras, alugam barracas por um dia.
E vestem-se de luto ou de cores tão improváveis
como Deus, enquanto distribuem bênçãos,
pequenos rancores, rios de ouro sobre o peito.
Será talvez um modo atávico de exorcizarem a fome
nas casas que não têm mas alugam, sentadas junto ao mar.
Não sorriem nunca, por excesso ou falta de razões.
II.
Não esperava, trinta anos depois, reconhecer
a Nazaré, igual a si mesma, fintou o progresso
no desmando da morte e no cheiro seco
dos carapaus jacentes (só um gato preto, sem
jeito para o negócio, foi poupado ao extermínio).
Diferente é apenas vê-la agora desta varanda,
contigo ao lado, e perceber a alegria que
irmana telhados e balcões, sob os farrapos
de uma língua apátrida que nem o amor
nem o mar conseguiriam devidamente pardonner.
Um homem de fato completo deixou-nos ver a lua.
III.
há quem veja na sereia, que um dia se cansou,
razão suficiente para tantas mortes.
E há quem desça sem temor as escadas que vão
do forte ao rochedo do Guilhim. Nós, menos
confiantes, olhávamos as grutas, escolhíamos as pedras.
Conchas com água dentro, recentes pedacinhos de ossos.
IV:
E era como se caminhássemos sobre a lua
e o vento de Agosto nos juntasse lado
a lado, quando já não há degraus.
Manuel de Freitas, Revista Brilho no Escuro nº 3.
Para a Inês
I.
São ruas que vão até ao mar, abruptamente
- ou é o mar que, desde sempre, nelas
encontrou morada? Indiferentes a esta pergunta
ociosa, as mulheres falam de casas, discutem
preços e amarguras, alugam barracas por um dia.
E vestem-se de luto ou de cores tão improváveis
como Deus, enquanto distribuem bênçãos,
pequenos rancores, rios de ouro sobre o peito.
Será talvez um modo atávico de exorcizarem a fome
nas casas que não têm mas alugam, sentadas junto ao mar.
Não sorriem nunca, por excesso ou falta de razões.
II.
Não esperava, trinta anos depois, reconhecer
a Nazaré, igual a si mesma, fintou o progresso
no desmando da morte e no cheiro seco
dos carapaus jacentes (só um gato preto, sem
jeito para o negócio, foi poupado ao extermínio).
Diferente é apenas vê-la agora desta varanda,
contigo ao lado, e perceber a alegria que
irmana telhados e balcões, sob os farrapos
de uma língua apátrida que nem o amor
nem o mar conseguiriam devidamente pardonner.
Um homem de fato completo deixou-nos ver a lua.
III.
há quem veja na sereia, que um dia se cansou,
razão suficiente para tantas mortes.
E há quem desça sem temor as escadas que vão
do forte ao rochedo do Guilhim. Nós, menos
confiantes, olhávamos as grutas, escolhíamos as pedras.
Conchas com água dentro, recentes pedacinhos de ossos.
IV:
E era como se caminhássemos sobre a lua
e o vento de Agosto nos juntasse lado
a lado, quando já não há degraus.
Manuel de Freitas, Revista Brilho no Escuro nº 3.
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