quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Luiza Neto Jorge


A CASA DO MUNDO

Aquilo que às vezes parece
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos  sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.

Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.

Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirenéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.

Luzindo cheguei à porta.
Interrompo os objectos de família , atiro-lhes
a porta.
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.

Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago,
no fígado, nos rins, nos tecidos sanguíneos.

É a casa do mundo:

desaparece em seguida.


Luiza Neto Jorge - 19 Recantos e outros Poemas. 7 Letras.




Rui Pires Cabral



«Do coração da noite vinham apelos e silêncios»1
Para o João Menau

As cidades doem, estão dentro de nós
mantidas por laços de fumo e desejo,
têm muros úteis e portas escondidas
que dão para a noite, como certos livros,
e há amores que vivem a horas tardias

e outros que se cortam no fio da trama,
queimam paus de incenso para abrir
caminhos, remover obstáculos, há curvas
e arcos, ecos desolados, quartos de ninguém.
As cidades cansam, estão nos nossos

dias, têm mil janelas de azul virtual
que nunca sossegam e nunca terminam
e há corpos que ensinam a temer a morte,
sombras que circulam nas redes do escuro
e homens que ferem para não chorar.

1Albert Camus, A Morte Feliz [tradução de José Carlos González], Livros do Brasil, Lisboa, s/d, p. 102.
Rui Pires Cabral, Oráculos de Cabeceira, Lisboa: Averno 2009

Satoshi Kon



A Realidade provém da Ficção

Satoshi Kon - Paprika




segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Daniel Jonas



MODORRA

Despe-te.

Já nada resta em mim que possas ocupar.
O fumo envolve-te na sua imprecisão.
Como, aliás, todas as coisas.
Tens-me a mim de pescoço decepado.

Leva-me.

não peso mais que a vida.
Respiro cidades de pólvora atrás do teu ouvido.
Sou o teu servo fiel. Chamo-te amo.

Das carúnculas vão-me servir aves, sangue.
Feneço. Sou um espírito perfeitamente incompatível
comigo mesmo. Serei coxo se fores coxo.
Serei implacavelmente belo se o fores também.

Durmo de joelhos. Deus às vezes esquece-se
da sua condição (É da idade). Planeio um
programa de dissolução sem retorno possível.
Sou um barco e gosto.

Das arquibancadas de mim mesmo
aplaude-se a minha capacidade de acreditar.
Sou um produto da revolução industrial, isso é
indiscutível. Caminho para um fim tóxico, alarmante.

Gostaria de filmar o teu pouco à-vontade.
A ti que perdeste o estilo.
Gostaria de filmar a tua queda
com calças de licra ou com óculos de sol.
Gostaria de te olhar nos olhos e dizer:
Estou espantado com a tua condição humana,
Joana ou Gonçalo.

Silencia-me .

As minhas ideias não são minhas. Na verdade,
quem terá ideias próprias? Uma ideia
é apenas um constrangimento, nada mais.
Enterra o teu machado de guerra nas minhas
costas e fuma depois o teu cachimbo da paz.

Será que tudo o que digo é poesia?
Quais serão os limites para a minha arte?
Dizer qualidade de vida será impossível
face a essência do éter?



                                                     Serei um marginal?

Tenho como maior ambição ser um poeta menor.
Conhecido por este ou aquele dito jocoso, pouco mais.
Quero levar versos às tuas presilhas e passar
notavelmente despercebido.
Quero beber cerveja pela tua boca. É tudo meu amor.


Daniel Jonas - O corpo está com o rei.


Fiama Hasse Pais de Brandão


Ciência, violência

Eu já sentira os objectos tal como aleatoriamente se me
apresentaram,
significando. Uma foice suspensa, gaiola vaga com folhas,
para que a minha biografia
no tempo subsequente da leitura pudesse diferir
da obsessão da letra do leitor. Chamavam desvio literário a
uma leitura obsessiva. Amava as compilações, as unhas
resistentes que haviam traçado
siglas. O que o cicerone edita e crê era, sendo verídico,
a mais álacre ficção. Os túmulos não se movem não só
porque mover não é específico
da pedra, mas porque chegáramos nas viagens, ao
conhecimento e ao desconhecimento.
Reconhecêramos no alheio a parte longínqua do corpo. Em
tantas línguas,
há tanto tempo me vinham descrevendo os amantes, que
a sua imagem
como toda a ciência neste século é agora altamente
especializada.
E no futuro tudo ainda será mais semelhante a tudo,porque

teremos comutado com mais intensidade
a nossa biografia. Depois, as crianças tocaram nas peças
expostas enquanto o cicerone me expulsava ignorando
que eu estava a dizer e a desdizer, na descrição, como era
este local para os visitantes.


Fiama Hasse Pais de Brandão






A portuguesa





- Se Deus pôde fazer-se homem, também poderia tornar-se gato - disse a portuguesa.

Robert Musil - A Portuguesa, in "Três Mulheres".


Safo



Parece-me igual aos deuses
ser aquele homem que, à sua frente sentado,
de perto, doces palavras, inclinando o rosto,
escuta,
e quando te ris, provocando o desejo; isso, eu juro,
me faz com pavor bater o coração no peito;
eu te vejo um instante apenas e as palavras
todas me abandonam;
a língua se parte; debaixo da minha pele,
no mesmo instante, corre um fogo sutil;
meus olhos me vêem; zumbem
meus ouvidos
um frio suor me recobre, um frêmito me apodera
do corpo todo, mais verde que
as ervas
eu fico
e que já estou morta
parece
Mas  


Safo