quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A tradução do Rober



Nuno Ramos

1. Manchas na pele, linguagem
do livro Ó (Cotovia - colecção sabiá)

Meu corpo se parece muito comigo, embora eu o estranhe às vezes. Tateio minuciosamente as pequenas saliências da pele, os pequenos pêlos que vão crescendo enquanto caem, e empalidecem, e parecem, aos poucos, cobertos de giz. Embora só consigam crescer em torno do meu queixo e sobre a minha boca, sempre os aparei todos os dias, pois quando não o fazia cofiava, é este o verbo, aquele conjunto unido de pequenos cabelos ininterruptamente, com a voluptuosidade de quem precisasse fumar ou beber ou arrotar, mas parecendo aos demais que adotava uma posição reflexiva e até mesmo irônica, o que não era a minha intenção. Para evitar desentendimentos, desde a primeira adolescência raramente deixei de cortá-los durante o banho, como um inimigo constante que precisasse controlar. Pois bem, quando fiquei alguns dias sem tomar banho e me olhei no espelho, percebi círculos calvos em meu queixo. Os pequenos pêlos haviam caído em rigorosa geometria, como aqueles círculos em plantações de milho, ou trigo, na Europa, Austrália e nos Estados Unidos, que muitos tomam por sinais extra-terrestres. Encontrei ainda, sobre meu lábio direito, um semi-círculo menor, um pouco mais pálido, produto do mesmo fenômeno. Micose? Stress? Fungo? Musgo? - logo alguns amigos diagnosticaram, com aquele devaneio da medicina amadora, e me alegrei com a possibilidade de ganhar a companhia, mesmo que de uma doença, de alguma coisa com nome definido. Mas não perdi o espanto sobre a origem daquilo. Qual gen ou terminal nervoso ordenou que caíssem neste formato circular perfeito? Em que língua interna conversaram? Deixei que crescessem por uns dias, para que pudesse examinar o fenômeno, e digo que com certeza não seriam melhor traçados através de um compasso. À exceção de dois círculos pequenos quase sobrepostos, que tornam difícil o exame de seu contorno comum, pode-se agora perceber claramente cinco círculos perfeitos em meu queixo e um semi-círculo sobre meu lábio superior direito. Parece que a cola da minha pele já não é eficaz e que começo a me livrar dos parasitas que se agarraram todo este tempo ao casco principal – cabelos, unhas, cílios. Fica horrível nos primeiros dias, quando os pêlos ainda não cresceram o suficiente e os círculos se confundem com manchas na pele, pequenos albinismos ou desbotados num linóleo, ao invés de intervalos entre cabelos. Chego a fazer a barba duas vezes no mesmo dia para que isto não aconteça, disfarçando o seu contorno. Mas depois de algum tempo começo a ficar curioso, a querer saber se ainda estarão ali, se há novos círculos ou se trocaram de lugar, ou se a erva lanosa, escura, de meus poucos pêlos teria coberto agora todo o contorno do queixo, e deixo que cresçam novamente, apenas para verificar que continuam iguais.

Há algumas semanas descobri também outra novidade em meu corpo - passei, como um hábito antigo, a mão sobre o osso da canela, procurando um pequeno fragmento que se alojou ali em algum momento da minha infância, conseqüência provável de uma canelada. Este fragmento de osso sempre me fez companhia, arrastando-se, sob a pressão dos meus dedos, 10 cms para cima e para baixo, usando a canela como trilho. Neste dia, para meu espanto, não pude encontrá-lo, não porque tivesse desaparecido, mas porque a própria canela estava agora recoberta, numa extensão de quase um palmo, por uma camada flexível de substância gordurosa, ou cartilaginosa, à qual a pele parecia aderir, como se sua quilha, que sempre fora pontiaguda, agora se arredondasse, recheada. Meu pequeno fragmento ficou, provavelmente, soterrado debaixo desta nova camada, desaparecido para sempre, e junto com ele a sensação de poder tocar o esqueleto por trás de uma fina camada de pele.

Talvez, neste caso, meu espanto provenha de um outro, mais genérico – o de perceber que engordo inelutavelmente, que a camada externa da forma já roliça do meu ventre e das minhas coxas treme quando me movimento, que algumas partes antes contínuas do meu dorso unem-se agora através de almofadas côncavas. E este espanto, por sua vez, talvez venha de um outro, ainda mais remoto – o de que o corpo muda, opera o tempo todo um movimento cuja finalidade apenas a ele pertence. Não que definhe – o meu, por exemplo, agora parece engordar -, mas foge ao nosso controle, às nossas expectativas. É preciso ser bastante minucioso para antecipar suas sutis transformações e perceber como as veias escapam à pressão da pele, como as cavidades e vincos causados pelos movimentos aprofundam-se em largas gretas, como ressecam as bordas da derme, como uma linha genérica, frouxa, vai borrando a linha fina que contornava cada membro. E se parece patética a preocupação constante, em especial entre as mulheres, de isolar e prevenir cada pequena minúcia, é porque estas são infindáveis, como a água de uma represa que rompesse, em pequenas quantias mas por toda a parte e ao mesmo tempo.

Se há, no entanto, alguma dificuldade e esforço na antecipação, enumeração ou aplicação destes efeitos em nós mesmos, poucas coisas são mais evidentes que este amálgama de carne e de tempo quando o percebemos nos outros. Tal percepção nos escapa também relativamente aos que nos cercam todos os dias, como se uma capa de continuidade cercasse a nossa vida imediata. É preciso lançar nosso olhar distraído para alguém distante de nosso afeto e de nossa vizinhança – uma amigo de infância, uma atriz antiga, um ex-jogador, um conhecido de outra cidade ou país - para perceber todo o estrago, e percebê-lo de imediato, espalhado não em um único ou mesmo em diversos aspectos do rosto ou do corpo que observamos, mas nele inteiro, em absolutamente todos os seus elementos. É à totalidade dos aspectos que a passagem do tempo dirige sua fúria. A doença, espécie cataclísmica e apressada de contato com isso, se por um lado sacrifica com violência algumas partes isoladas do corpo, ao menos diversifica esta homogeneidade, como se o rancor gradativo dos anos se concentrasse em alguns detalhes, e se saciasse com isto.

Como todos os processos excessivamente contínuos, é preciso que nos lembremos do envelhecimento de um ponto de vista absolutamente exterior (em frases como “Não tenho idade para”, “Naquela época” ou “Quando eu era menino”) ou, ao contrário, de um interior imediato, muitas vezes corpóreo - na completa falta de ar após uma corrida, no rompimento estúpido de algum músculo. Mas é então, sob a sentença de um envelhecimento inevitável, que alguma coisa em mim parece querer, e poder, sobrevoar meu corpo, livrar-se dele - um misto de olhar para longe e de respiração, um amálgama aflito de palavras, a melodia como porta ou túnel, o instante que cava minha pegada numa paisagem imensa e posso então devorar nas plantas a sua carne amarga e lançar meu pêlo molhado sobre a minha vítima. Mas esta alegria progressiva precisa de alimento constante e o próprio corpo, em sua casca, parece não resistir bem a ela, tornando-se inquieto, ofegante e, aos poucos, cansado e deprimido. Como um balão cujo gás vai escapando, a energia insana de nossa alegria física procura abrigo - nas imagens, nos braços de outra pessoa e, no limite, pois é a isto que sempre recorre, na linguagem. É ali que a tentamos prender, antes que o gás escape de uma vez e sejamos tão somente os espectadores de nossa própria decrepitude, de nossa fusão indeterminada na matéria.

Chegamos então à beira do velho precipício - o entusiasmo das palavras vagas. É a este antigo último recurso que recorremos sempre – exclamações ou frases compulsivas que não conseguimos deixar de dizer. Talvez seja melhor tratar agora desta estranha ferramenta, a linguagem, que me põe para fora do meu corpo - tentar apreendê-la, indeciso entre o mugido daquilo que vai sob a camisa e a fatuidade grandiosa de minhas frases. Sem conseguir escolher se a vida é bênção ou matéria estúpida, examinar então, pacientemente, algumas pedras, organismos secos, passas, catarros, micro-organismos onde a vontade é una, pegadas de animais antigos, desenhos que vejo nas nuvens, cifras, letras de fumaça, rima feita de bosta, imensidão aprisionada numa cerca, besouros dentro do ouvido, fosforescência do organismo, batimento cardíaco comum a vários bichos, órgãos entranhados na matéria inerte, olhando a um só tempo do alto e de dentro para o enorme palco, como quem quer escolher e não consegue: matéria ou linguagem?

Como uma via intermediária, procuro entrar e permanecer no reino da pergunta – ou de uma explicação que não explica nunca. Assim, suspenso, murmuro um nome confuso a cada ser que chama minha atenção e toco com meu dedo a sua frágil solidez, fingindo que são homogêneos e contínuos. Posso, até mesmo, anotar em meu caderno características do que toco, como: “pinta-se de verde antes de reproduzir”, “mostra extrema ansiedade antes do ocaso”, ou “destila o breu dos carvalhos ao redor” mas não vou jamais, em hipótese alguma, regredir à cadeia causal interminável, como um cachorro mordendo a cauda. Não preciso agora morar no deserto nem comer gafanhotos, apenas me conformar com uma vaga e humilde dispersão dos seres, fechados não exatamente em seu segredo mas em seu desinteresse e incomunicabilidade de fundo. Como um modelo mal ajustado ao modelado, permaneço em meu torpor indagativo, deitado na relva, tentando unir pedaços de frases a pedaços de coisas vivas.

Pois todos concordam que quando se deixa o abrigo minucioso da própria carcaça, quando se vai além da constatação – isto dói, este pêlo cresceu – de sua própria e monótona arquitetura, é preciso criar, porque isto com certeza ninguém nos deu, uma ferramenta –uma linguagem-, um pedaço de pau com anzol na ponta, até o outro lado. É aí que tudo se complica, pois a única pergunta que realmente interessa é: de que é feita esta ferramenta? Se fosse possível, por exemplo, estudar as árvores numa língua feita de árvores, a terra numa língua feita de terra, se o peso do mármore fosse calculado em números de mármore, se descrevêssemos uma paisagem com a quantidade exata de materiais e de elementos que a compõem, então estenderíamos a mão até o próximo corpo e saberíamos pelo tato seu nome e seu sentido, e seríamos deuses corpóreos, e a natureza seria nossa como uma gramática viva, um dicionário de musgo e de limo, um rio cuja foz fosse seu nome próprio. Mas é com nosso sopro que nos dirigimos a tudo, com a voz que o frágil fole da garganta emite, com o hálito que carrega nossas enzimas, é com o pequeno vento de nossa língua que chamamos o vento verdadeiro. Mais do que comer, correr ou flechar a carne alheia, mais do que aquecer a prole sob a palha, nós nos sentamos e damos nomes, como pequenos imperadores do todo e de tudo. Uma mulher dirigiu seus passos ao poente e sumiu; sabem o que fez aquele que ela abandonou, enquanto fitava o poente com os olhos cavos? Ele grunhiu, e este grunhido virou o nome da desaparecida. Ele lhe deu um nome, ele ganhou seu nome, como um coágulo, uma retenção daquilo que passava, confuso, por ele, um poente paralelo ao poente diante dele.
Pois se circula em toda a natureza um halo de inexpressividade – por exemplo, nas feições impassíveis com que o sapo é devorado pela cobra, como se levemente espantado (e por isso arregala os olhos) com o que está lhe acontecendo, ou quando a louva-a-deus devora calmamente a cabeça de seu macho, como um pequeno galho de bambu, enquanto copula com ele - é porque nada ali precisa ser comunicado, arrastado que está pela própria e intensa atividade. Apenas a nós, que trocamos tal fluxo pelas finas modulações da voz, que entre todas as matérias internas e externas, entre todos os sólidos, os musgos e as mucosas, entre o que voa e o que afunda, entre o que plana e o que nasce do apodrecimento, selecionamos apenas a voz e o vento, organizados em acordes, para tomar por mundo, apenas a nós é dada a labuta das expressões faciais e dos gestos, apenas em nós a dor parece alhear-se numa expressão, facial ou lingüística. Pois afirmo que mesmo aí, quando recebemos a mordida de nosso assassino, quando a patada do felino nos alcança pelas costas ou o veneno de uma serpente aos poucos nos faz dormir, mesmo aí mentimos, e fabricamos com nossa cara um falso duplo para nos poupar.

Fico imaginando quem, com a mão ferida, por exemplo, não se deixou morrer nem tentou viver, mas exprimiu a sua dor. Como teria convencido os demais a interessar-se por isto? Por que não ficou para trás, isolado, com suas interjeições? A única resposta é que a linguagem só poderia nascer e adquirir eficácia numa situação em que todos, ou uma grande maioria, estivessem doentes ou muito enfraquecidos, tornando-se então uma moeda de troca, uma comunhão na doença, e aí sim, se entre eles houvesse alguém sadio que fizesse ouvidos moucos àqueles gritos, alguém desatento à estranha ladainha, então os doentes, em grande maioria, teriam reunido forças para matá-lo ou expulsá-lo. E uma vez curados já não saberiam competir sem este estranho mecanismo, que foram aperfeiçoando cada vez mais.

Mas talvez não importe tanto fabular sobre a origem da linguagem quanto compreender a enorme cisão que ela causou. Pois uma vez amarrada esta corda entre todos, uma vez expulsos ou mortos aqueles que não quiseram valer-se dela, não há mais qualquer possibilidade de retorno, pois é próprio da mais estranha das ferramentas, da mais exótica das invenções (a linguagem), parecer tão natural e verdadeira quanto uma rocha, um cajado ou uma cusparada. Este é seu verdadeiro fundamento, sua, digamos, astúcia - a de substituir-se ao real como um vírus à célula sadia. Há aí uma potência de esquecimento que não pode ser diminuída, uma armadilha na agonia que serviu a alguns (e não a todos), sacrificando violentamente aqueles que não a utilizaram.

Restam hoje apenas algumas pistas desta origem ou, para dizer de outro modo, alguns sinais fora da linguagem. Parece uma experiência cotidiana, ainda acessível a todos, estranhar subitamente o som de determinada palavra como demasiado abstrato ou inverossímil em relação àquilo que designa, e o velho jogo infantil de repetir indefinidamente um mesmo vocábulo até que perca completamente qualquer ligação com aquilo que procura indicar talvez queira nos conduzir, apenas, de volta a uma época em que cada coisa tinha seu peso sinestésico, e tanto a cor como o sabor como a imagem eram o índice livre para aquele pássaro flechado. A própria diversidade de línguas, absolutamente cômica para quem as escuta sem entender, remete também à arbitrariedade de origem, a esta reunião primeva de feridos em busca de consolo e proteção que expulsou para longe, ou mesmo matou, os primeiros heróis mudos. Quando entramos em choque com algo inaceitável ou excessivamente belo e ficamos, literalmente, sem palavras, estamos recuperando esta etapa adormecida da nossa natureza.

O problema, no entanto, é que mesmo então, por vício de origem, queremos comunicar o que está acontecendo. E para isto precisamos dela, e tudo recomeça novamente. Há aqui uma astúcia ainda mais escondida, que precisa de explicação. Voltemos à comunidade dos doentes. É claro que, passada a epidemia ou passadas as conseqüências de algum cataclisma ou ataque, os doentes vão aos poucos tornando-se sãos, ganhando de volta a antiga confiança e desprezando aqueles sinais coletivos acumulados nos últimos tempos. Querem agora retornar à existência nômade, à barca forrada de peles que os leva rio abaixo, entre animais e pomos dourados. Por que não o fazem? Por que não retomam sua condição e seguem os passos daqueles que expulsaram? Porque já não podem, contaminados pelo novo vírus? Talvez, mas o mais provável é que tenha sido por temor àqueles que expulsaram. O irônico disto tudo é que o instinto de algum modo coletivo da linguagem só pôde desenvolver-se ao transformar em vítimas os primeiros heróis mudos. É o anel de seu exílio, circundando os novos povos falantes (como Polifemos em torno da gruta de Ulisses), que preservou a linguagem, tornando-a imprescindível à sobrevivência.

Talvez estes heróis mudos, que nunca exprimiram dor, rancor nem pasmo diante da natureza, organizando-se em núcleos extremamente isolados, tenham se distanciado cada vez mais das comunidades onde grassava a linguagem, que temiam, enfrentando as adversidades a seu modo, sem qualquer previdência. Cercados por seus antigos pares, que agora já plantavam e caçavam com armas muito mais refinadas do que as suas, devem ter provado da melancolia e da tristeza que têm as vidas em extinção. E devem ter provado disso integralmente, em seus próprios ossos, na aspereza de sua pele, sem a anestesia das palavras. E o último deles, ao morrer sozinho, terá lançado àqueles estranhos seres falantes, que já lhe tomavam a gruta, uma terrível maldição calada. O enigma deste rancor, que paradoxalmente não chegou a ser exprimido em sons articulados ou gestos reconhecíveis, açoda de perto todas as línguas vivas ou mortas, amaldiçoando o seu pacto de origem.

Talvez esta maldição tenha se abrigado em nosso próprio corpo, em seu mal-estar entranhado e inexprimível, em sua carga desarticulada de dor e de sofrimento, de tal forma inconcebível que os próprios narcóticos tornam-se legítimos, em doses medicinais de morfina apaziguando o que vai além das palavras. Neste momento de dor cega igualamo-nos a nossos antigos primos mudos: nosso corpo é quem de algum modo fala, pelas mãos crispadas ou pela boca contorcida, mas não a nossa língua, que regride e geme e grunhe ou, no máximo, grita. Assim, todo o arco se fecha, e quem traiu por fraqueza o incêndio dos olhos na beleza, quem matou o azul cerúleo ao inventar seu nome, agora tem de volta, na dor de próprio corpo, a antiga coincidência negada, e pode então unir-se ao fluxo de tudo. Sim, este seria um consolo para o rei silencioso que morria: saber que a dor não se duplica, que não há signo para a doença e que o corpo, o corpo profundo, continua inexplorado e mudo.

Neste ponto, há uma conclusão algo paradoxal que se impõe – será que não fizemos tudo ao contrário ao duplicar o poente e a cor do mar sem que isto sirva em nada para nos poupar da dor física verdadeira? Não seria melhor uma linguagem que servisse apenas para iludir a rebelião e o mau funcionamento do corpo, de forma que nossa relação com a febre alta, a dor de dente ou a cólica pudesse, agora sim, ser apaziguada ao pronunciarmos o nome de nossa doença? Então para algo serviria. Mas parece que dirigimos, ao contrário, nosso esforço à parte livre e não lingüística de nossa relação com o mundo, poupando a parte pânica, corpórea e dolorida – ali não há linguagem e é justamente quando mais precisamos dela. Ao olharmos um par de olhos, ao percebermos o movimento brusco, em xis, do rabo de um lagarto, nada deveria estimular nosso cérebro a comentar a sua cor ou a rapidez daquele movimento. Deveríamos passar com estes acontecimentos, e sua imensidão nos tomaria, deixando-nos vazios até que o próximo objeto nos chamasse a atenção. É da morte, da velhice, da perda de contato que a linguagem deveria se alimentar. Sou capaz de aceitá-la para a proteção de nosso corpo, para tornar nossa morte amena, espécie de anestésico natural, como as toxinas que alguns animais liberam para não sentir que estão sendo devorados. Mas é o contrário que se dá: morremos quietos, ou aos berros desarticulados, mas vivemos o esplendor da saúde de nosso corpo cercados por vocábulos que, à primeira chance, saltam à frente e roubam minuciosamente nosso dia.

Para terminar, há uma última hipótese que quero examinar. Vim considerando que os primeiros homens teriam se dividido entre seres lingüísticos e heróis mudos, e que os últimos, isolados e pouco gregários, teriam sido extintos. Mas não consegui descrever sua mudez, em tudo diversa da dos bichos. De que era feita? Tinham os olhos cheios, concentrados, pareciam sempre ocupados, distraíam-se? O que lhes preenchia os dias, além das tarefas básicas? Talvez, ao contrário do que viemos postulando, fossem seres radicalmente lingüísticos, a ponto de que tudo para eles pertencesse à linguagem. Cada árvore seria assim o logarítimo de sua posição na floresta, cada pedregulho parte do anagrama espalhado em tudo e por tudo. Mover-se-iam entre alfabetos físicos perceptíveis aos seus cinco sentidos (e ler talvez constituísse um sexto, que reunisse e desse significado aos demais), e cada cor seria música e cada música seria mímica, e cada gesto seria um texto. O desenho das linhas de suas mãos seria parte deste enorme texto; o sangue do cervo que derrubaram; os fios do pêlo que os aquecia. Em tudo liam, nas nuvens e no hálito, no dorso de um mamífero, na luz de um inseto que já morreu, na textura dos troncos e no seu limo, no desenho do vôo de um besouro, no vasto bigode de uma morsa - e no som que grunhiam, no cuspe que cuspiam, nos olhos que piscavam e no número dos seus dias. Tudo parecia escrito para eles e bastava que tocassem um corpo de pedra ou de carne para que o enorme livro se abrisse e mais uma linha fosse escrita. Todo o acontecer parecia parte desta página, reescrita a cada momento, todas as mortes, os pios, cada gota, cada sal.

A única restrição deste texto dissipado por tudo era ser feito de matéria física, mutável e perecível. Toda matéria aceita um grau bastante alto de metamorfose, mas há um limite depois do qual não é mais reconhecível. Talvez um grande cataclisma - um terremoto, um meteoro ou um incêndio –tenha transformado a tal ponto a matéria que os cercava que acabou por emudecer para sempre este texto físico, obrigando à sua substituição. Isolados em seu próprio corpo, que já não parecia parte desta escrita única, tiveram de usar a matéria mais leve e de fácil manuseio de que dispunham (a voz), e substituir com ela o que haviam perdido. Procuraram então marcar, para cada coisa que sumira, um som próprio, que a substituísse e presentificasse, ainda que de modo incompleto. Preferiram esta frágil duplicação à perda que haviam sofrido. E assim, por precaução, nunca mais atribuíram matéria à linguagem, mas apenas vento e signos sem matéria. Com isto, não corriam mais perigo. Traziam em seu próprio pulmão e memória toda a riqueza e diversidade de que antes faziam parte.

Fico imaginando o que teria acontecido se tivessem desafiado o cataclisma e construído uma linguagem com os restos da antiga, calcinada. Se ao invés de tornarem-se ventríloquos das coisas tivessem transformado as próprias cinzas, a terra deserta, o mau-cheiro de tantos bichos mortos, expostos ao céu e à risada das hienas, se tivessem transformado as próprias hienas em sujeito e predicado de seu mundo moribundo? Se tivessem a coragem de escrever e falar com pedaços e destroços? Então seriam parte deste caos, desta correnteza de lava e de morte mas trariam a cabeça erguida, seus passos teriam o tremor do terremoto que os aniquilou e sua risada a potência do vento lá fora.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Augusto d'Halmar



"Habrá que partir, para no llegar"

Augusto d'Halmar (1882-1950)



 Prémio Nobel da Literatura, 1942 - Ano da fundação do Prémio.

Pequenos animais sem expressão


Vem deste livro, o título deste blogue

Beatriz Hierro Lopes


Geração do Silêncio

Somos sombras fugazes projectadas pela luz constante que ilumina a cidade. Seja nas ruas que a dividem e reencontram nas suas múltiplas encruzilhadas, onde desaguam multidões à velocidade do som dos seus passos, seja na claridade promíscua dos focos de diferentes cores numa pista de dança, fermentada ao sabor do álcool e das drogas que nos despertam os sentidos e adormecem o espírito; da televisão ininterruptamente ligada na inconstância do zapping, através da qual passam encadeamentos de imagens fragmentadas de filmes, documentários e séries cujo fim nunca é visto, na rapidez do clique para o próximo canal; do telemóvel sempre a vibrar com mensagens codificadas numa nova linguagem veloz que torna os segundos em minutos impossíveis, na impaciência dos limites de comunicação.

Nós somos o eco da dinâmica imparável da pós-modernidade! Para nós foi reinventando o conceito de tempo, e como saturninos deglutimos o presente na velocidade com que os nossos maxilares o absorvem, tornando-o numa breve memória de um passado recente. Vivemos o ritmo sonoro do mundo, na certeza que somos demasiado pequenos para o apreendermos na sede de o conhecer ou na apatia com que lhe viramos costas. Somos a geração da revolta sem revolução, herdeiros dos sonhos naufragados dos nossos antepassados próximos. Descendentes de idealistas estamos despidos de ideologias originais pela forma enciclopédica com que conhecemos o que pensaram e defenderam os que viveram antes de nós. Somos os mais frios juízes da História feita na nossa ausência.

Definidos pelas conquistas tecnológicas com as quais crescemos somo rotulados como “Geração Y”, “Geração Net” e “Geração Boomerang”. Os que antes de nós vieram e depois de nós se erguem, questionam o nosso valor. Quanto vales? Perguntam-nos, sem que a sua interrogação tenha a leveza de uma curiosidade ou a rispidez de um interrogatório. À sua semelhança pergunto-te qual o peso do teu valor singular, respondes-me: I have too much blood in my alcool. Sei que o corre hoje nas nossas veias é veneno, premiado pelas mais diversas marcas, engarrafado em vidros fumados de diferentes cores.

Qual é a tua cor? É o verde que te oferece viagens quase sonhadoras enquanto os teus olhos permanecem abertos? Ou o transparente lúcido da água que te ferve as vísceras e te engole o espírito? A dor absoluta da Vodka ou o devaneio do Absinto? Preferirás a mistura em shots sempre cheios como o poço estreito onde te afundas ou a elegância do copo alto borbulhante de Champanhe? Fala-me das tuas preferências, entusiasma-te com as tuas marcas e saberei ver em ti, o espectáculo da degradação dos nossos ossos. Farás o apelo mudo à abstinência. Mas nós somos os sequiosos. Os esfomeados, que devoram o Mundo em dentadas sôfregas de desejo. Aquele que o sexo não sabe silenciar.

Somos a boca sempre aberta na dilaceração comestível das palavras, o crânio recheado de rios que premeiam os sonhos com o cheiro a morte. Os ouvidos que reconhecem em todos os Requiem’s a fragilidade com que se quebram os espíritos. Errantes que vagueiam pelas montanhas despidas de roupas, sem nunca encontrar beleza igual a do olhar da mulher que naquele momento pára, na sacralidade do tempo que se esgota entre os seus dedos. A esfinge do eterno ponto entre o Passado e Futuro. O Presente encerrado na tosca configuração da nossa carne. Numa Humanidade sem tempo, sem memórias, sem antes nem depois, nós somos os seus mais adoráveis bastardos.

Todos os discursos, teorias e conversas sobre a morte conhecem em nós, o som oco do punho contra o muro. Ninguém pode ensinar um morto a temer a morte. Não enterramos apenas os nossos antepassados, não sepultamos como todas as gerações os nossos sonhos no solo propicio as colheitas dos que virão depois de nós, nem choramos o fim dos que por momentos amamos.

Procurem o nosso espírito debaixo das pedras - é esse o seu berço.Comprimidos entre a terra lamacenta e o frio do granito. Nascemos mortos por isso vivemos mais do que qualquer outro vivo. Não há amor possível à vida. Sabe-lo. Violamo-la como exímios soldados perdidos no enredo de uma guerra que não é a sua. Não honraremos os princípios do luto monocórdico, não consolaremos carpideiras de ocasião, não escreveremos belas peças sobre o mistério do corpo em putrefacção. Seremos não a Ira do Homem sobre Deus, mas a revolta dos Deuses sobre os Homens. Porque a Perfeição está nos nossos olhos e os nossos membros desgastados movem-se na dança imparável do Universo, sem medo, sem tonturas, sem amarras. Somos de peito nu, o Enforcado e a nossa corda é a trança com que interligamos o que fomos e seremos, no altar do que somos.

Chamam-nos perdidos, em analogia as sombras. Sentenciam-nos a juventude e amaldiçoam-nos a velhice. Não sabem eles que a Sombra que se ergue atrás de nós iluminada pelas luzes eléctricas de todas as cidades, é da altura da escadaria que conduz ao Inferno das Mil Luzes, que como bons proscritos descemos todas as noites, para alimentar o nosso espírito da sede de fogo. Vejam-nos altos. Soberbos. Tiranos de narizes escondidos nas páginas de um Moleskine. A Genialidade não se banha em nós, não resiste ao nosso olhar. Génios existiram e génios morreram. Nós somos apenas os seus coveiros e os criminosos que os desterram, arquivistas dos seus traços, guardiões das suas pequenas revelações. O único caminho possível é o das pedras, das tíbias e caveiras, é sobre ele que nos elevamos e é nele que nos assassinamos. Nada de suicídio: Nostálgico feminino. O adeus ao mundo que nos vira as costas. Só o assassinato é digno. Somos a vitima agarrada à ilusão da vida e o maldito que a degola na sabedoria da morte.

No fim, apenas o esquecimento nos aguarda. Por isso bebemos até que não reste uma única gota no copo de plástico do bar a que vamos, fumamos até que os nossos pulmões não consigam consumir mais oxigénio e drogamo-nos até que as sensações nos corrompam despertando selvajaria das emoções. E todos os nossos actos parecem gritar: Je me crois en enfer, donc j’y suis! Nós que vivemos todas as noites tal como a Nuit de L’Enfer, de Jean-Arthur Rimbaud. Porque sabemos que apenas vivendo o inferno podemos atingir o céu, só mergulhando nas chamas que nos dilaceram a carne poderemos ver a anatomia dos nossos ossos e redescobrir na configuração que se prende além dele, o vazio que narra a dissolução do eu.

Ambicionamos apenas o inalcançável - Le silence est impossible. C’est pourquoi nous le désirons -, nunca a afirmação de Maurice Blanchot definiu com tanta precisão uma geração como a nossa. Nós, a Geração do Silêncio. Atulhados em roupas de marcas conhecidas, sempre a par das últimas novidades do mundo da música. Excitados pela forma como os nomes de autores nos percorrem a boca, edificamos analogias em que as nossas experiências pessoais recriam as alucinações das suas personagens.

Trazemos para a realidade a ficção, seja na maneira como a nossa identidade virtual se dilui na veracidade com que nos mascaramos quotidianamente ou na heresia com que transgredimos a moralidade socialmente aceite. Dormentes vivemos a superficialidade, sem que o excesso nos permita esquecer: ¿Qué es la vida? Una ilusión, una sombra, una ficción, y el mayor bien es pequeño: que toda la vida es sueño y los sueños, sueños son, no poema de Calderón de la Barca, que renasce das profundezas de um século XVII hispânico. A eutopia da nossa geração é a possibilidade de existência no não-tempo, o imortal aqui e agora, o ponto fixo da encruzilhada onde o passado, presente e futuro se interpenetram no silêncio que abarca tudo. Possuídos e possuidores de uma plenitude inalcançável.

Perguntam-nos, pois, quanto valemos.

O nosso peso é o das estrelas que nos iluminam e recordam que o Anjo não é apenas Terrível, o Anjo é a Blasfémia do Mundo Moderno e a Libertação do Silêncio. Existimos e existimos como nenhuma outra geração existiu antes de nós. Somos únicos porque somos os receptáculos de tudo o que foi novo e será novo, na musicalidade dos anos que se desdenharam depois da nossa morte.

Somos a rapariga órfã e violada pelo seu tio, a deglutir em tragos largos a garrafa de Whisky roubada num supermercado, a dançar sem música sobre a campa 902 do Cemitério do Prado do Repouso aos gritos: Só se é imortal enquanto se vive. Somos a menina de 16 anos a mergulhar a mão na água benta da Sé Catedral depois de experimentar LSD - Vês? Vês, Beatriz, os demónios que vivem na água? Vamos morrer e o meu corpo vai ser velado na Igreja da minha terra. Somos o poeta bêbado e cocainómano, na fragmentação do seu espírito - Hoje sei que as minhas asas de Anjo não servem para voar mas para escavar a terra e mergulhar o meu corpo nas chamas do inferno. O Anjo é diabólico só assim pode ser celestial. Somos o advogado com a garrafa de Porto à frente de uma Macieira, de rosto enegrecido pelas fagulhas da fogueira, a saborear o vento: Only throught time time is conquered, de T.S. Eliot.

Quanto Vales? - Pergunto à tua sombra. Em silêncio respondes-me: Menos que nada e mais que tudo.


                                                           Beatriz Hierro Lopes, Criatura nº 1.