1. Manchas na pele, linguagem
do livro Ó (Cotovia - colecção sabiá)
Meu
corpo se parece muito comigo, embora eu o estranhe às vezes. Tateio
minuciosamente as pequenas saliências da pele, os pequenos pêlos que vão
crescendo enquanto caem, e empalidecem, e parecem, aos poucos,
cobertos de giz. Embora só consigam crescer em torno do meu queixo e
sobre a minha boca, sempre os aparei todos os dias, pois quando não o
fazia cofiava, é este o verbo, aquele conjunto unido de pequenos
cabelos ininterruptamente, com a voluptuosidade de quem precisasse
fumar ou beber ou arrotar, mas parecendo aos demais que adotava uma
posição reflexiva e até mesmo irônica, o que não era a minha intenção.
Para evitar desentendimentos, desde a primeira adolescência raramente
deixei de cortá-los durante o banho, como um inimigo constante que
precisasse controlar. Pois bem, quando fiquei alguns dias sem tomar
banho e me olhei no espelho, percebi círculos calvos em meu queixo. Os
pequenos pêlos haviam caído em rigorosa geometria, como aqueles
círculos em plantações de milho, ou trigo, na Europa, Austrália e nos
Estados Unidos, que muitos tomam por sinais extra-terrestres. Encontrei
ainda, sobre meu lábio direito, um semi-círculo menor, um pouco mais
pálido, produto do mesmo fenômeno. Micose? Stress? Fungo? Musgo? - logo
alguns amigos diagnosticaram, com aquele devaneio da medicina amadora,
e me alegrei com a possibilidade de ganhar a companhia, mesmo que de
uma doença, de alguma coisa com nome definido. Mas não perdi o espanto
sobre a origem daquilo. Qual gen ou terminal nervoso ordenou que
caíssem neste formato circular perfeito? Em que língua interna
conversaram? Deixei que crescessem por uns dias, para que pudesse
examinar o fenômeno, e digo que com certeza não seriam melhor traçados
através de um compasso. À exceção de dois círculos pequenos quase
sobrepostos, que tornam difícil o exame de seu contorno comum, pode-se
agora perceber claramente cinco círculos perfeitos em meu queixo e um
semi-círculo sobre meu lábio superior direito. Parece que a cola da
minha pele já não é eficaz e que começo a me livrar dos parasitas que
se agarraram todo este tempo ao casco principal – cabelos, unhas,
cílios. Fica horrível nos primeiros dias, quando os pêlos ainda não
cresceram o suficiente e os círculos se confundem com manchas na pele,
pequenos albinismos ou desbotados num linóleo, ao invés de intervalos
entre cabelos. Chego a fazer a barba duas vezes no mesmo dia para que
isto não aconteça, disfarçando o seu contorno. Mas depois de algum
tempo começo a ficar curioso, a querer saber se ainda estarão ali, se
há novos círculos ou se trocaram de lugar, ou se a erva lanosa, escura,
de meus poucos pêlos teria coberto agora todo o contorno do queixo, e
deixo que cresçam novamente, apenas para verificar que continuam
iguais.
Há algumas semanas descobri também outra novidade em meu
corpo - passei, como um hábito antigo, a mão sobre o osso da canela,
procurando um pequeno fragmento que se alojou ali em algum momento da
minha infância, conseqüência provável de uma canelada. Este fragmento
de osso sempre me fez companhia, arrastando-se, sob a pressão dos meus
dedos, 10 cms para cima e para baixo, usando a canela como trilho.
Neste dia, para meu espanto, não pude encontrá-lo, não porque tivesse
desaparecido, mas porque a própria canela estava agora recoberta, numa
extensão de quase um palmo, por uma camada flexível de substância
gordurosa, ou cartilaginosa, à qual a pele parecia aderir, como se sua
quilha, que sempre fora pontiaguda, agora se arredondasse, recheada.
Meu pequeno fragmento ficou, provavelmente, soterrado debaixo desta
nova camada, desaparecido para sempre, e junto com ele a sensação de
poder tocar o esqueleto por trás de uma fina camada de pele.
Talvez,
neste caso, meu espanto provenha de um outro, mais genérico – o de
perceber que engordo inelutavelmente, que a camada externa da forma já
roliça do meu ventre e das minhas coxas treme quando me movimento, que
algumas partes antes contínuas do meu dorso unem-se agora através de
almofadas côncavas. E este espanto, por sua vez, talvez venha de um
outro, ainda mais remoto – o de que o corpo muda, opera o tempo todo um
movimento cuja finalidade apenas a ele pertence. Não que definhe – o
meu, por exemplo, agora parece engordar -, mas foge ao nosso controle,
às nossas expectativas. É preciso ser bastante minucioso para antecipar
suas sutis transformações e perceber como as veias escapam à pressão
da pele, como as cavidades e vincos causados pelos movimentos
aprofundam-se em largas gretas, como ressecam as bordas da derme, como
uma linha genérica, frouxa, vai borrando a linha fina que contornava
cada membro. E se parece patética a preocupação constante, em especial
entre as mulheres, de isolar e prevenir cada pequena minúcia, é porque
estas são infindáveis, como a água de uma represa que rompesse, em
pequenas quantias mas por toda a parte e ao mesmo tempo.
Se há,
no entanto, alguma dificuldade e esforço na antecipação, enumeração ou
aplicação destes efeitos em nós mesmos, poucas coisas são mais
evidentes que este amálgama de carne e de tempo quando o percebemos nos
outros. Tal percepção nos escapa também relativamente aos que nos
cercam todos os dias, como se uma capa de continuidade cercasse a nossa
vida imediata. É preciso lançar nosso olhar distraído para alguém
distante de nosso afeto e de nossa vizinhança – uma amigo de infância,
uma atriz antiga, um ex-jogador, um conhecido de outra cidade ou país -
para perceber todo o estrago, e percebê-lo de imediato, espalhado não
em um único ou mesmo em diversos aspectos do rosto ou do corpo que
observamos, mas nele inteiro, em absolutamente todos os seus elementos.
É à totalidade dos aspectos que a passagem do tempo dirige sua fúria. A
doença, espécie cataclísmica e apressada de contato com isso, se por
um lado sacrifica com violência algumas partes isoladas do corpo, ao
menos diversifica esta homogeneidade, como se o rancor gradativo dos
anos se concentrasse em alguns detalhes, e se saciasse com isto.
Como
todos os processos excessivamente contínuos, é preciso que nos
lembremos do envelhecimento de um ponto de vista absolutamente exterior
(em frases como “Não tenho idade para”, “Naquela época” ou “Quando eu
era menino”) ou, ao contrário, de um interior imediato, muitas vezes
corpóreo - na completa falta de ar após uma corrida, no rompimento
estúpido de algum músculo. Mas é então, sob a sentença de um
envelhecimento inevitável, que alguma coisa em mim parece querer, e
poder, sobrevoar meu corpo, livrar-se dele - um misto de olhar para
longe e de respiração, um amálgama aflito de palavras, a melodia como
porta ou túnel, o instante que cava minha pegada numa paisagem imensa e
posso então devorar nas plantas a sua carne amarga e lançar meu pêlo
molhado sobre a minha vítima. Mas esta alegria progressiva precisa de
alimento constante e o próprio corpo, em sua casca, parece não resistir
bem a ela, tornando-se inquieto, ofegante e, aos poucos, cansado e
deprimido. Como um balão cujo gás vai escapando, a energia insana de
nossa alegria física procura abrigo - nas imagens, nos braços de outra
pessoa e, no limite, pois é a isto que sempre recorre, na linguagem. É
ali que a tentamos prender, antes que o gás escape de uma vez e sejamos
tão somente os espectadores de nossa própria decrepitude, de nossa
fusão indeterminada na matéria.
Chegamos então à beira do velho
precipício - o entusiasmo das palavras vagas. É a este antigo último
recurso que recorremos sempre – exclamações ou frases compulsivas que
não conseguimos deixar de dizer. Talvez seja melhor tratar agora desta
estranha ferramenta, a linguagem, que me põe para fora do meu corpo -
tentar apreendê-la, indeciso entre o mugido daquilo que vai sob a camisa
e a fatuidade grandiosa de minhas frases. Sem conseguir escolher se a
vida é bênção ou matéria estúpida, examinar então, pacientemente,
algumas pedras, organismos secos, passas, catarros, micro-organismos
onde a vontade é una, pegadas de animais antigos, desenhos que vejo nas
nuvens, cifras, letras de fumaça, rima feita de bosta, imensidão
aprisionada numa cerca, besouros dentro do ouvido, fosforescência do
organismo, batimento cardíaco comum a vários bichos, órgãos entranhados
na matéria inerte, olhando a um só tempo do alto e de dentro para o
enorme palco, como quem quer escolher e não consegue: matéria ou
linguagem?
Como uma via intermediária, procuro entrar e
permanecer no reino da pergunta – ou de uma explicação que não explica
nunca. Assim, suspenso, murmuro um nome confuso a cada ser que chama
minha atenção e toco com meu dedo a sua frágil solidez, fingindo que são
homogêneos e contínuos. Posso, até mesmo, anotar em meu caderno
características do que toco, como: “pinta-se de verde antes de
reproduzir”, “mostra extrema ansiedade antes do ocaso”, ou “destila o
breu dos carvalhos ao redor” mas não vou jamais, em hipótese alguma,
regredir à cadeia causal interminável, como um cachorro mordendo a
cauda. Não preciso agora morar no deserto nem comer gafanhotos, apenas
me conformar com uma vaga e humilde dispersão dos seres, fechados não
exatamente em seu segredo mas em seu desinteresse e incomunicabilidade
de fundo. Como um modelo mal ajustado ao modelado, permaneço em meu
torpor indagativo, deitado na relva, tentando unir pedaços de frases a
pedaços de coisas vivas.
Pois todos concordam que quando se deixa
o abrigo minucioso da própria carcaça, quando se vai além da
constatação – isto dói, este pêlo cresceu – de sua própria e monótona
arquitetura, é preciso criar, porque isto com certeza ninguém nos deu,
uma ferramenta –uma linguagem-, um pedaço de pau com anzol na ponta, até
o outro lado. É aí que tudo se complica, pois a única pergunta que
realmente interessa é: de que é feita esta ferramenta? Se fosse
possível, por exemplo, estudar as árvores numa língua feita de árvores, a
terra numa língua feita de terra, se o peso do mármore fosse calculado
em números de mármore, se descrevêssemos uma paisagem com a quantidade
exata de materiais e de elementos que a compõem, então estenderíamos a
mão até o próximo corpo e saberíamos pelo tato seu nome e seu sentido,
e seríamos deuses corpóreos, e a natureza seria nossa como uma
gramática viva, um dicionário de musgo e de limo, um rio cuja foz fosse
seu nome próprio. Mas é com nosso sopro que nos dirigimos a tudo, com a
voz que o frágil fole da garganta emite, com o hálito que carrega
nossas enzimas, é com o pequeno vento de nossa língua que chamamos o
vento verdadeiro. Mais do que comer, correr ou flechar a carne alheia,
mais do que aquecer a prole sob a palha, nós nos sentamos e damos
nomes, como pequenos imperadores do todo e de tudo. Uma mulher dirigiu
seus passos ao poente e sumiu; sabem o que fez aquele que ela
abandonou, enquanto fitava o poente com os olhos cavos? Ele grunhiu, e
este grunhido virou o nome da desaparecida. Ele lhe deu um nome, ele
ganhou seu nome, como um coágulo, uma retenção daquilo que passava,
confuso, por ele, um poente paralelo ao poente diante dele.
Pois se
circula em toda a natureza um halo de inexpressividade – por exemplo,
nas feições impassíveis com que o sapo é devorado pela cobra, como se
levemente espantado (e por isso arregala os olhos) com o que está lhe
acontecendo, ou quando a louva-a-deus devora calmamente a cabeça de seu
macho, como um pequeno galho de bambu, enquanto copula com ele - é
porque nada ali precisa ser comunicado, arrastado que está pela própria
e intensa atividade. Apenas a nós, que trocamos tal fluxo pelas finas
modulações da voz, que entre todas as matérias internas e externas,
entre todos os sólidos, os musgos e as mucosas, entre o que voa e o que
afunda, entre o que plana e o que nasce do apodrecimento, selecionamos
apenas a voz e o vento, organizados em acordes, para tomar por mundo,
apenas a nós é dada a labuta das expressões faciais e dos gestos,
apenas em nós a dor parece alhear-se numa expressão, facial ou
lingüística. Pois afirmo que mesmo aí, quando recebemos a mordida de
nosso assassino, quando a patada do felino nos alcança pelas costas ou o
veneno de uma serpente aos poucos nos faz dormir, mesmo aí mentimos, e
fabricamos com nossa cara um falso duplo para nos poupar.
Fico
imaginando quem, com a mão ferida, por exemplo, não se deixou morrer
nem tentou viver, mas exprimiu a sua dor. Como teria convencido os
demais a interessar-se por isto? Por que não ficou para trás, isolado,
com suas interjeições? A única resposta é que a linguagem só poderia
nascer e adquirir eficácia numa situação em que todos, ou uma grande
maioria, estivessem doentes ou muito enfraquecidos, tornando-se então
uma moeda de troca, uma comunhão na doença, e aí sim, se entre eles
houvesse alguém sadio que fizesse ouvidos moucos àqueles gritos, alguém
desatento à estranha ladainha, então os doentes, em grande maioria,
teriam reunido forças para matá-lo ou expulsá-lo. E uma vez curados já
não saberiam competir sem este estranho mecanismo, que foram
aperfeiçoando cada vez mais.
Mas talvez não importe tanto
fabular sobre a origem da linguagem quanto compreender a enorme cisão
que ela causou. Pois uma vez amarrada esta corda entre todos, uma vez
expulsos ou mortos aqueles que não quiseram valer-se dela, não há mais
qualquer possibilidade de retorno, pois é próprio da mais estranha das
ferramentas, da mais exótica das invenções (a linguagem), parecer tão
natural e verdadeira quanto uma rocha, um cajado ou uma cusparada. Este é
seu verdadeiro fundamento, sua, digamos, astúcia - a de substituir-se
ao real como um vírus à célula sadia. Há aí uma potência de
esquecimento que não pode ser diminuída, uma armadilha na agonia que
serviu a alguns (e não a todos), sacrificando violentamente aqueles que
não a utilizaram.
Restam hoje apenas algumas pistas desta
origem ou, para dizer de outro modo, alguns sinais fora da linguagem.
Parece uma experiência cotidiana, ainda acessível a todos, estranhar
subitamente o som de determinada palavra como demasiado abstrato ou
inverossímil em relação àquilo que designa, e o velho jogo infantil de
repetir indefinidamente um mesmo vocábulo até que perca completamente
qualquer ligação com aquilo que procura indicar talvez queira nos
conduzir, apenas, de volta a uma época em que cada coisa tinha seu peso
sinestésico, e tanto a cor como o sabor como a imagem eram o índice
livre para aquele pássaro flechado. A própria diversidade de línguas,
absolutamente cômica para quem as escuta sem entender, remete também à
arbitrariedade de origem, a esta reunião primeva de feridos em busca de
consolo e proteção que expulsou para longe, ou mesmo matou, os
primeiros heróis mudos. Quando entramos em choque com algo inaceitável
ou excessivamente belo e ficamos, literalmente, sem palavras, estamos
recuperando esta etapa adormecida da nossa natureza.
O problema,
no entanto, é que mesmo então, por vício de origem, queremos comunicar o
que está acontecendo. E para isto precisamos dela, e tudo recomeça
novamente. Há aqui uma astúcia ainda mais escondida, que precisa de
explicação. Voltemos à comunidade dos doentes. É claro que, passada a
epidemia ou passadas as conseqüências de algum cataclisma ou ataque, os
doentes vão aos poucos tornando-se sãos, ganhando de volta a antiga
confiança e desprezando aqueles sinais coletivos acumulados nos últimos
tempos. Querem agora retornar à existência nômade, à barca forrada de
peles que os leva rio abaixo, entre animais e pomos dourados. Por que
não o fazem? Por que não retomam sua condição e seguem os passos
daqueles que expulsaram? Porque já não podem, contaminados pelo novo
vírus? Talvez, mas o mais provável é que tenha sido por temor àqueles
que expulsaram. O irônico disto tudo é que o instinto de algum modo
coletivo da linguagem só pôde desenvolver-se ao transformar em vítimas
os primeiros heróis mudos. É o anel de seu exílio, circundando os novos
povos falantes (como Polifemos em torno da gruta de Ulisses), que
preservou a linguagem, tornando-a imprescindível à sobrevivência.
Talvez
estes heróis mudos, que nunca exprimiram dor, rancor nem pasmo diante
da natureza, organizando-se em núcleos extremamente isolados, tenham se
distanciado cada vez mais das comunidades onde grassava a linguagem,
que temiam, enfrentando as adversidades a seu modo, sem qualquer
previdência. Cercados por seus antigos pares, que agora já plantavam e
caçavam com armas muito mais refinadas do que as suas, devem ter provado
da melancolia e da tristeza que têm as vidas em extinção. E devem ter
provado disso integralmente, em seus próprios ossos, na aspereza de sua
pele, sem a anestesia das palavras. E o último deles, ao morrer
sozinho, terá lançado àqueles estranhos seres falantes, que já lhe
tomavam a gruta, uma terrível maldição calada. O enigma deste rancor,
que paradoxalmente não chegou a ser exprimido em sons articulados ou
gestos reconhecíveis, açoda de perto todas as línguas vivas ou mortas,
amaldiçoando o seu pacto de origem.
Talvez esta maldição tenha
se abrigado em nosso próprio corpo, em seu mal-estar entranhado e
inexprimível, em sua carga desarticulada de dor e de sofrimento, de tal
forma inconcebível que os próprios narcóticos tornam-se legítimos, em
doses medicinais de morfina apaziguando o que vai além das palavras.
Neste momento de dor cega igualamo-nos a nossos antigos primos mudos:
nosso corpo é quem de algum modo fala, pelas mãos crispadas ou pela boca
contorcida, mas não a nossa língua, que regride e geme e grunhe ou, no
máximo, grita. Assim, todo o arco se fecha, e quem traiu por fraqueza o
incêndio dos olhos na beleza, quem matou o azul cerúleo ao inventar
seu nome, agora tem de volta, na dor de próprio corpo, a antiga
coincidência negada, e pode então unir-se ao fluxo de tudo. Sim, este
seria um consolo para o rei silencioso que morria: saber que a dor não
se duplica, que não há signo para a doença e que o corpo, o corpo
profundo, continua inexplorado e mudo.
Neste ponto, há uma
conclusão algo paradoxal que se impõe – será que não fizemos tudo ao
contrário ao duplicar o poente e a cor do mar sem que isto sirva em
nada para nos poupar da dor física verdadeira? Não seria melhor uma
linguagem que servisse apenas para iludir a rebelião e o mau
funcionamento do corpo, de forma que nossa relação com a febre alta, a
dor de dente ou a cólica pudesse, agora sim, ser apaziguada ao
pronunciarmos o nome de nossa doença? Então para algo serviria. Mas
parece que dirigimos, ao contrário, nosso esforço à parte livre e não
lingüística de nossa relação com o mundo, poupando a parte pânica,
corpórea e dolorida – ali não há linguagem e é justamente quando mais
precisamos dela. Ao olharmos um par de olhos, ao percebermos o
movimento brusco, em xis, do rabo de um lagarto, nada deveria estimular
nosso cérebro a comentar a sua cor ou a rapidez daquele movimento.
Deveríamos passar com estes acontecimentos, e sua imensidão nos
tomaria, deixando-nos vazios até que o próximo objeto nos chamasse a
atenção. É da morte, da velhice, da perda de contato que a linguagem
deveria se alimentar. Sou capaz de aceitá-la para a proteção de nosso
corpo, para tornar nossa morte amena, espécie de anestésico natural,
como as toxinas que alguns animais liberam para não sentir que estão
sendo devorados. Mas é o contrário que se dá: morremos quietos, ou aos
berros desarticulados, mas vivemos o esplendor da saúde de nosso corpo
cercados por vocábulos que, à primeira chance, saltam à frente e roubam
minuciosamente nosso dia.
Para terminar, há uma última hipótese
que quero examinar. Vim considerando que os primeiros homens teriam se
dividido entre seres lingüísticos e heróis mudos, e que os últimos,
isolados e pouco gregários, teriam sido extintos. Mas não consegui
descrever sua mudez, em tudo diversa da dos bichos. De que era feita?
Tinham os olhos cheios, concentrados, pareciam sempre ocupados,
distraíam-se? O que lhes preenchia os dias, além das tarefas básicas?
Talvez, ao contrário do que viemos postulando, fossem seres
radicalmente lingüísticos, a ponto de que tudo para eles pertencesse à
linguagem. Cada árvore seria assim o logarítimo de sua posição na
floresta, cada pedregulho parte do anagrama espalhado em tudo e por
tudo. Mover-se-iam entre alfabetos físicos perceptíveis aos seus cinco
sentidos (e ler talvez constituísse um sexto, que reunisse e desse
significado aos demais), e cada cor seria música e cada música seria
mímica, e cada gesto seria um texto. O desenho das linhas de suas mãos
seria parte deste enorme texto; o sangue do cervo que derrubaram; os
fios do pêlo que os aquecia. Em tudo liam, nas nuvens e no hálito, no
dorso de um mamífero, na luz de um inseto que já morreu, na textura dos
troncos e no seu limo, no desenho do vôo de um besouro, no vasto bigode
de uma morsa - e no som que grunhiam, no cuspe que cuspiam, nos olhos
que piscavam e no número dos seus dias. Tudo parecia escrito para eles e
bastava que tocassem um corpo de pedra ou de carne para que o enorme
livro se abrisse e mais uma linha fosse escrita. Todo o acontecer
parecia parte desta página, reescrita a cada momento, todas as mortes,
os pios, cada gota, cada sal.
A única restrição deste texto
dissipado por tudo era ser feito de matéria física, mutável e perecível.
Toda matéria aceita um grau bastante alto de metamorfose, mas há um
limite depois do qual não é mais reconhecível. Talvez um grande
cataclisma - um terremoto, um meteoro ou um incêndio –tenha transformado
a tal ponto a matéria que os cercava que acabou por emudecer para
sempre este texto físico, obrigando à sua substituição. Isolados em seu
próprio corpo, que já não parecia parte desta escrita única, tiveram de
usar a matéria mais leve e de fácil manuseio de que dispunham (a voz),
e substituir com ela o que haviam perdido. Procuraram então marcar,
para cada coisa que sumira, um som próprio, que a substituísse e
presentificasse, ainda que de modo incompleto. Preferiram esta frágil
duplicação à perda que haviam sofrido. E assim, por precaução, nunca
mais atribuíram matéria à linguagem, mas apenas vento e signos sem
matéria. Com isto, não corriam mais perigo. Traziam em seu próprio
pulmão e memória toda a riqueza e diversidade de que antes faziam parte.
Fico
imaginando o que teria acontecido se tivessem desafiado o cataclisma e
construído uma linguagem com os restos da antiga, calcinada. Se ao
invés de tornarem-se ventríloquos das coisas tivessem transformado as
próprias cinzas, a terra deserta, o mau-cheiro de tantos bichos mortos,
expostos ao céu e à risada das hienas, se tivessem transformado as
próprias hienas em sujeito e predicado de seu mundo moribundo? Se
tivessem a coragem de escrever e falar com pedaços e destroços? Então
seriam parte deste caos, desta correnteza de lava e de morte mas trariam
a cabeça erguida, seus passos teriam o tremor do terremoto que os
aniquilou e sua risada a potência do vento lá fora.