quarta-feira, 12 de junho de 2013

O Guardador de Rebanhos



As coisas não têm significação: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas.


Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos.


segunda-feira, 3 de junho de 2013

Thomas Mann



Quando o seu olhar tropeçou com o do rapaz, devem ter-se espressado abertamente nele a alegria, a surpresa, a admiração. Foi nesse instante que Tadzio lhe sorriu. Sorriu-lhe expressiva, confiada e acolhedoramente, com lábios que se abriam lentamente à alegria. Era esse o sorriso de Narciso ao inclinar-se sobre a água; aquele sorriso profundo, encantado, deleitável, que acompanha os braços que se estendem ao reflexo da própria beleza; um sorriso ligeiramente contraído pelo beijo impossível da sua sombra incitante, curiosa e algo atormentada, transformada e transformadora.





Thomas Mann, A Morte em Veneza.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Queer

Lee viu que Allerton não estava muito interessado e mudou de tema.
- Leste alguma coisa sobre o velho judeu que tentou passar em contrabando dez libras de ouro cozidas no sobretudo?
- Não, como foi?
 (...)
-Em tempos romanos os judeus sublevaram-se (acho que foi em Jerusalém) e mataram cinquenta mil romanos. As judias (as jovens judias; tenho que ter cuidado para que não me acusem de antissemita) fizeram strip-tease com intestinos romanos.



William S. Burroughs, Queer.

 

sábado, 18 de maio de 2013

William S. Burroughs


As tripas desatam-se e dão voltas
Tenho fome
Alguns hábitos
arrastam as tripas ao sair
como uma bala cogumelo ...


William S. Burroughs


sábado, 30 de março de 2013

Eduardo Galeano: Memoria del Fuego


Acababa de ver al mono curando a la mona en la copa de un árbol.
—Es así —dijo el hombre, aproximándose a la mujer.
Cuando terminó el largo abrazo, un aroma espeso, de flores y frutas, invadió el aire. De los cuerpos, que yacían juntos, se desprendían vapores y fulgores jamás vistos, y era tanta su hermosura que se morían de vergüenza los soles y los dioses.

Eduardo Galeano: Memoria del Fuego I. Los nacimientos.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Num Bairro Moderno


Num bairro moderno

A Manuel Ribeiro

Dez horas da manhã; os transparentes
Matizam uma casa apalaçada;
Pelos jardins estancam-se os nascentes,
E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua macadamizada.

Rez de chausée repousam sossegados,
Abriram-se, nalguns, as persianas,
E dum ou doutro, em quartos estucados,
Ou entre a rama dos papéis pintados,
Reluzem, num almoço, as porcelanas.

Como é saudável ter o seu conchego,
E a sua vida fácil! Eu descia,
Sem muita pressa, para o meu emprego,
Aonde agora quase sempre chego
Com as tonturas duma apoplexia.

E rota, pequenina, azafamada,
Notei de costas uma rapariga,
Que no xadrez marmóreo duma escada,
Como um retalho de horta aglomerada,
Pousara, ajoelhando, a sua giga.

E eu, apesar do sol, examinei-a:
Pôs-se de pé; ressoam-lhe os tamancos;
E abre-se-lhe o algodão azul da meia,
Se ela se curva, esgadelhada, feia,
E pendurando os seus bracinhos brancos.

Do patamar responde-lhe um criado:
"Se te convém, despacha; não converses.
Eu não dou mais". E muito descansado,
Atira um cobre ignóbil, oxidado,
Que vem bater nas faces duns alperces.

Subitamente,- que visão de artista!-
Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do sol, o intenso colorista,
Num ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais?!

Bóiam aromas, fumos de cozinha;
Com o cabaz às costas, e vergando,
Sobem padeiros, claros de farinha;
E às portas, uma e outra campainha
Toca, frenética, de vez em quando.

E eu recompunha, por anatomia,
Um novo corpo orgânico, aos bocados.
Achava os tons e as formas.
Descobria Uma cabeça numa melancia,
E nuns repolhos seios injectados.

As azeitonas, que nos dão o azeite,
Negras e unidas, entre verdes folhos,
São tranças dum cabelo que se ajeite;
E os nabos - ossos nus, da cor do leite,
E os cachos de uvas - os rosários de olhos.

Há colos, ombros, bocas, um semblante
Nas posições de certos frutos.
E entre As hortaliças, túmido, fragrante,
Como dalguém que tudo aquilo jante,
Surge um melão, que me lembrou um ventre.

E, como um feto, enfim, que se dilate,
Vi nos legumes carnes tentadoras,
Sangue na ginja vivida, escarlate,
Bons corações, pulsando no tomate
E dedos hirtos, rubros nas cenouras.

O sol dourava o céu. E a regateira,
Como vendera a sua fresca alface
E dera o ramo de hortelã que cheira,
Voltando-se, gritou-me prazenteira:
"Não passa mais ninguém!... Se me ajudasse?!"...

Eu acerquei-me dela sem desprezo;
E, pelas duas asas a quebrar,
Nós levantámos todo aquele peso
Que ao chão de pedra resistia preso,
Com um enorme esforço muscular.

"Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!"
E recebi, naquela despedida,
As forças, a alegria, a plenitude,
Que brotam dum excesso de virtude
Ou duma digestão desconhecida.

E enquanto sigo para o lado oposto,
E ao longe rodam umas carruagens,
A pobre afasta-se, ao calor de Agosto,
Descolorida nas maçãs do rosto,
E sem quadris na saia de ramagens.

Um pequerrucho rega a trepadeira
Duma janela azul; e como o ralo
Do regador, parece que joeira
Ou que borrifa estrelas; e a poeira
Que eleva nuvens alvas a incensá-lo.

Chegam do gigo emanações sadias,
Oiço um canário - que infantil chilrada! -
Lidam menages entre as gelosias,
E o sol estende, pelas frontarias,
Seus raios de laranja destilada.

E pitoresca e audaz, na sua chita,
O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
Duma desgraça alegre que me incita,
Ela apregoa, magra, enfezadita,
As suas couves repolhudas, largas.

E, como as grossas pernas dum gigante,
Sem tronco, mas atléticas, inteiras,
Carregam sobre a pobre caminhante,
Sobre a verdura rústica, abundante,
Duas frugais abóboras carneiras.

Cesário Verde