quinta-feira, 11 de julho de 2013

O Guardador de Rebanhos

I.

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural —
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

Alberto Caeiro,



A produção de um indivíduo isolado fora da sociedade é tão absurda como o desenvolvimento de uma língua sem indivíduos que vivam juntos e falem entre eles.



Ludwig Wittgenstein.


quinta-feira, 27 de junho de 2013

Enrique Vila-Matas



Portugal parece de verdade, parece outro mundo.


Enrique Vila-Matas, O Mal de Montano.


Que se considere falsa qualquer verdade que não seja acompanhada de risos

Friedrich Nietzsche, Assim falava Zaratustra

O POEMA DA ÁGUA



A fonte: ninho da água. A água nasce de ser plantada? Ou de pedra que se converte? Ninguém sabe, ninguém nunca viu. O parto da água não tem testemunha: aparecemos sempre depois. E, o depois, já é um ninho onde ela se constitui, emplumando-se ao modo de ser ave.
Assim, ao princípio, ouvimos apenas a água crescer em repuxos. Primeiro, é a liberdade à solta na forma de uma gota que se desprende ora do céu ou do ramo, ora da folha ou de algum beiral. Mais à frente é, já, uma pressa branca de frescura enchendo o ar de beleza. As suas asas transparentes descem, então, ao mundo e ao abrirem-se são os olhos do mundo. O alegre soar do imutável. Para aprender o seu enigma os pássaros aproximam-se silenciosos, e o homem contempla-a querendo sentir toda a sua inocência. Por vezes, também Irrompe na sua quietude. Entra nela e olha-se e abraça-a. E bebe-a para viver a paz da sua saciada sede. Mas é só em dias de sol que, do seu corpo de espuma, a plena luz emerge e faz reluzir, limpo de novo, a criança feliz e rei de tudo o que foi criado.
Quem procure a fonte que escute primeiro essa criança. Só depois rasteire os olhos entre a pedra e a erva. Deixe aí seu olhar pousado até que a alma se sinta molhada e mais que alagada: alaguada, como se diz em Arouca. Verá então como a água a si mesma se enche, abrindo as margens, soltando suas asas. Começa a viagem do rio sucessivo.
O rio: caligrafia da água. Do alto da serra, parece que o rio chove da sua taça branca. Limpo e solene. Mais perto se vê que, nas margens, se empoleira, contagiando-se de terra. O rio ora beija, ora morde a margem. Entre carícia e rasgão, se fazem seus incertos caminhos de amante. Nesse tropel, o leito torna-se assim sotaque da terra, pronúncia da própria vida. Montanhas liquefazendo sua carne térrea. Vales que se oceanificam. Como se o continente fosse natural da água e não lugar de terreno. Às vezes essa caligrafia flui mansa, líquida, diluindo os amargos recantos, consolando as arestas das margens. Outras, funda e espessa, quase imitando a massa. Então, em sua torrente me ensombro. E me duvido: afogar é afundar na água ou soterrar na massa?
Afinal, a fúria é breve. A coragem do rio é o seu caminhar suicida para o mar. A bondade da água é o seu incansável retorno ao regaço da vida.
O mar: pele da água. A água só despida está completa. Assim, da terra ela se distingue. A terra exige cobertura, construção. Enquanto a água do mar em sua própria pele se aconchega. Em tal nudez, nunca nenhum sulco se abriu, nenhuma ruga se desenhou. É todo um só corpo na ternura da sua própria nudez - a alva ternura que enche o mundo. Quem nunca sentiu isso que apanhe, rapidamente, o primeiro foguetão para o espaço. Aí, no meio de uma torrente de obscuridade e tempo, num ar absoluto de silêncio e esquecimento, basta aguardar pelo matinal nascimento da única cor rodando entre os astros. Como se essa cor fosse o solitário jardim de um perdido cosmos.

Então, é só apontar o olhar para o pequeno planeta azul do pólen de mar. É a mãe do nosso universo que, de um claro recanto do seu corpo terrestre, como um testemunho da fugaz mansão, escreve o nosso poema – o Poema da Humanidade.


Álvaro Couto