terça-feira, 23 de julho de 2013



As flores nunca darão boa literatura enquanto forem vivas ...


Beatriz Hierro Lopes, in É quase Noite. Lisboa: Averno, 2013.


segunda-feira, 22 de julho de 2013

Raquel Nobre Guerra


Barcos, Livros, Bicicletas


O nosso amor é belo
como as viagens de Inverno
que nunca fizemos juntos,
como os países quentes
que não visitámos.
É belo como os comboios perdidos
no último segundo,
ou as pequenas cidades portuárias
descobertas por acaso.
Belo como mapas rasgados
a que faltam as linhas das estradas secundárias,
como montanhas cobertas de nevoeiro
em dias de calor,
barcos numa baía deserta,
livros cheios de areia,
bicicletas sem travões nem destino.
Belo como o sol
que vai morrer depois de nós
daqui a cinco mil milhões de anos
e belo como o sopro selado
do coração das coisas.
É assim o nosso amor. Tão belo,
tão claro, tão puro
que, de olhos postos na noite,
chegamos a acreditar que existe.


                                                                                               Luís Filipe Parrado

A Dupla Chama



O Amante ama o corpo como se fosse a alma e a alma como se fosse o corpo. O amor mistura a terra com o céu, é a grande subversão.

Octavio Paz - A Dupla Chama: Amor e Erotismo, São Paulo, Editora Siciliano, 1993.


Poema como se fosse o quinto


quando chove e os relâmpagos se esforçam num arrepio de
angústia, os homens todos são carroças a puxar lágrimas
muito tristes e chuvas muito frias.

nesse tempo diz-se que a terra se vira dentro dos edifícios
e a emoção se repara na imortalidade do silêncio. aí, somos
todos os outros que já foram nossos sem nunca
renunciarem

e o sábio calar-se-à

e o monge habituar-se-à

e qualquer pessoa muito ruidosa se entediará de fadiga.


                                                        Maria Quintans, O Silêncio, ed. hariemuj - 2013




sábado, 20 de julho de 2013

Uma Conspiração de Lábios


                                                                            A uma poeta argentina

contra a noite digo a palavra que cairá sobre
os homens de pulsos envolvidos em sangue
isto é o coração onde lhes chego pela garganta
arranco-as da terra à força bruta de braços

contra o medo chamo a mim a escuridão
para induzir suave uma ideia de céu contra 
o próprio céu agora que a figuração da noite
não cabe na forma de a dizermos rapidamente

virão em mim dançando a erudição do seu uso
com plumas e riquezas à boca da água, fugiremos
Reis da cruel justeza do silêncio tão maior
nos aterros que nos coiceiam em rituais de manada 

iremos assim cheios só de viver meditando palácios 
no momento de cair

Raquel Nobre Guerra, in Meditações sobre o Fim, Os últimos Poemas. Lisboa: Hariemuj.