sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Novas Cartas Portuguesas

Segunda Carta II

Conto-vos, entretanto, a história da mãe dos animais, mito de uma tribo de índios da América do Norte – e que paixões nostálgicas e sem remédio terão inventado os índios nas suas reservas, morrendo aos poucos e os seus poços de petróleo, às vezes, e seus fatos usados pelos hippies, e sua paixão agressiva, agora, na prisão de Alcatraz. – Mãe dos animais foi a mulher abandonada pela sua tribo, que se dispunha a fazer uma migração difícil, na altura em que ela paria; a mulher ficou para sempre errandonos bosques, ensanguentada e medonha, Mãe dos Animais, protegendo-os dos caçadores; e o caçador que a veja, com o susto tem uma erecção, e a Mãe dos Animais viola então o caçador, concedendo-lhe a seguir um sucesso infalível na caça.

E lembro-me ainda, bastante mal, da história do homem que encontrou uma semente debaixo da presa se um javali, e plantando a semente dela nasceu um coqueiro; e tendo o homem ferido a sua mão, o seu sangue caiu sobre a flor, e da flor ensanguentada nasceu uma rapariga, que foi dançar à praça pública, onde os homens da aldeia a mataram, tendo-a enterrado no sítio onde dançava; a deusa que protegia aquela gente retirou-se então para trás das estrelas, e passou a recusar o seu auxílio. Lembro-me apenas destas coisas, sem nomes nem detalhes, mas lembro aquilo que me interessa, sem dúvida e pergunto-me se a Mãe dos Animais se vinga protegendo os animais, violando os caçadores ou dando a este sucesso infalível na caça; e pergunto-me quem destruiu a rapariga que dançava, se aqueles que a mataram, se o outro que dizia tê-la gerado do seu sangue numa flor. Pergunto-me, enfim, sendo a força-paixão da Mãe dos Animais o seu errar pelo tempo, qual o seu exercício protegendo os animais, se nostalgia do mundo ou vingança aos homens, violando os caçadores, se vingança ao mundo ou nostalgia dos homens, dando sucesso na caça, de si ou para si; sendo a dança a paixão da rapariga, contra quem ou quê. Será desnecessário acrescentar que o meu exercício é o da vingança; que quem está ferido não se recolha, antes despeje o seu sangue no mundo. Porque o objeto da paixão é mesmo pretexto, pretexto para nele ou através dele, definirmos, e em que sentido, o nosso diálogo com o resto.

BARRENO, Maria Isabel; HORTA, Maria Teresa; COSTA, Maria Velho da – Novas Cartas Portuguesas. Lisboa: Dom Quixote,2010.




O Discurso Plural em "As Viagens na Minha Terra" de Almeida Garrett


Conferência, Mesa Redonda: Literatura y Viaje 15 de Outubro 2012
CELE, UNAM

As Viagens na Minha Terra foram escritas em 1846. Desde logo, a obra foi um sucesso de vendas com sucessivas reedições que rapidamente se esgotaram. O acolhimento do público foi marcante, podemos dizer que para isso contribuiu o carácter amplo e global deste livro. Um sentido Abarcador. Vontade de dizer tudo que é a ambição Romântica semelhante à de Goethe que foi uma influência decisiva para Garrett que estudou alemão para o ler no original – Ambição revelada e assumida, quando nos diz no segundo capítulo: “Nesta minha viagem Tejo arriba está simbolizada a marcha do nosso progresso humano”…“A crónica do passado, a história do presente, o programa do futuro”  - Ironia que se alia ao humor também  quando se refere ao livro como “A minha Odisseia” – humor amplo se pensarmos que a distância de Lisboa a Santarém não será mais que 80 quilómetros.
Se Goethe não pode ser considerado romântico ou pelo menos unicamente romântico, Almeida Garrett também não. Sendo um profundo conhecedor do melhor que se produziu dentro deste movimento, foi principalmente um crítico aos abusos do mesmo. Denunciou falsidades e excessos de sentimentalismos e o que há de falso dentro do literário (Nas viagens na minha Terra crítica abertamente Victor Hugo e Charles Dickens), apesar de mais à frente elogiar Victor Hugo muito abertamente. Corrige e expõe as correções do seu pensamento ao leitor num diálogo intenso que mantém sobre a forma de evocações diretas, quer através de perguntas retóricas ou outros recursos de interpolação. Mais do que respeitado, o leitor das Viagens sente-se presente, embora que dentro do ângulo do autor e aqui uma possível viagem: a despersonalização e a impersonalidade. Isto pode parecer paradoxal como quase tudo nesta obra do autor que é considerado o iniciador do Romantismo em Portugal apesar de referir:  “Romântico, livrai-me de o ser”.


As Viagens na minha Terra narram uma viagem real que o autor fez de Lisboa a Santarém. Nesta viagem, que hoje em dia seria relativamente curta, o autor usou diferentes tipos de transporte: barco, em trajeto pelo rio; mula, cavalo ou liteira no transporte por terra. O autor descreve a rota, os pequenos acidentes de percurso, as pessoas com que se cruzam no caminho, as estalagens, os cafés de província, vai estabelecendo considerações estéticas sobre os locais – Podia ser neste sentido um livro de viagens (Um roteiro turístico à semelhança dos que Stendhal fez para algumas cidades italianas e que se tornaram autênticos êxitos de vendas). Aqui o escritor visto: não como produtor de ficção, mas como aquele que pela sua forte capacidade de narrar e descrever, pode apelar mais facilmente o leitor a conhecer melhor uma determinada geografia – O escritor guia turístico. Aqui auxiliado por um estilo jornalístico e de crónica (É de recordar que Almeida Garrett colaborou com diversos periódicos e que exerceu jornalismo durante muito tempo de forma intensa)
A viagem real é o motor deste romance, uma viagem curta mas extremamente simbólica à cidade de Santarém. Cidade vital na fundação da nacionalidade portuguesa e que Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal escolhe para capital. Viagens ao epicentro de um passado (para Almeida Garrett glorioso) que se prolonga pelo Renascimento e que agora é o símbolo máximo da sua deceção com o seu tempo. Um século XIX de grandes expectativas na Revolução liberal, de crença no individuo e de um progresso que apesar de se cumprir, agudiza desigualdades em vez de as anular.– as ruínas de Santarém, como a manifestação máxima da deceção do escritor com o tempo atual e da sua nostalgia para com o passado: o seu e o da pátria. Aqui está presente o carácter nacionalista das “Viagens”. Mas a “Nação” sempre vista como se o fosse de fora – através das analogias com outros contextos estrangeiros – aqui a forte influência do viajante exilado, o escritor Almeida Garrett forçado ao exílio político antes das guerras liberais – Que compara por exemplo o Café do Cartaxo (um pequeno café de Província de uma cidade quase rural aos cafés dos boulevards de Paris).

Na viagem a Santarém, que constituí o primeiro nível narrativo deste romance, o narrador (viajante que em tudo se confunde com Almeida Garrett) introduz-nos um segundo nível narrativo: o trama, a novela propiamente dita: “A História da menina dos Rouxinóis” que é a história de Carlos e Joaninha, as duas personagens principais. O narrador, escritor e viajante ao passar pelo Vale de Santarém vê uma casa com uma janela. Refere que “se enamora com a janela juntamente com o leitor” – A partir desta janela o narrador, encantado deixa-se guiar pela imaginação, que expõe num diálogo com o leitor – Primeiro imagina uma mulher atrás da sua janela, usando o condicional para reforçar que o seu pensamento é fluído mas imaginário e nesta exposição da construção da novela diante do leitor e num aparente e ficcional diálogo com ele, introduzir-nos no segundo nível narrativo: guiar-nos até ao trama, primeiro a partir da criação de uma personagem feminina: “se fosse uma mulher o quadro seria perfeito” – esta que está atrás da janela, a descrição física vai sendo corrigida – a personagem Joaninha surge da visão apaixonada da janela – um exercício que apela para uma imaginação infantil e inocente. Sobretudo um exercício apaixonado. A criação do trama revelado muito ao jeito de “Névoa” de Miguel de Unamuno – Também nas “Viagens na Minha Terra” o narrador que criou o trama depara-se com as personagens que criou num momento de cruzamento entre os dois níveis narrativos – Na metalepse, as personagens tornadas duplamente reais num jogo de espelhos que muito depois se tornou típico. Viagens dentro de níveis narrativos e do cruzamento entre eles e aqui o narrador como aquele que guia o leitor, depois de o fazer perd­er, tal como Unamuno (o autor não só como aquele que conta a história, mas como aquele que experimenta as possibilidades de criação de uma novela, como num laboratório ficcional ao jeito do que faria mais tarde Jorge Luís Borges ou Italo Calvino) e aqui o trama propiamente dito perde aparentemente importância por estar unicamente inserido em algo maior. O trama, a novela propiamente dita, é contado em apenas 12 capítulos, quando “As Viagens na Minha Terra” têm um total de 49 capítulos. Os últimos cinco capítulos são a correspondência de Carlos a Joaninha – que inserem aqui um terceiro nível narrativo “ A história de Carlos e Joaninha” contada dentro do nível narrativo da viagem propiamente dita que o narrador faz de Lisboa a Santarém e onde aproveita para estabelecer considerações de todo o tipo: em jeito de divagações várias sobre muitos temas: Política, Sociedade, História (a de Portugal e a do Mundo) Arte, Filosofia e sobretudo Literatura – através do diálogo com vários autores, não só os românticos, mas de todos os períodos, como Dante John Milton, Cervantes, Shakespeare e sobretudo Camões – Mais que dialogo fluído uma corrente de pensamento objetiva, num correr rápido da literatura universal – uma viagem pela intertextualidade.

Viagem ampla, feita de muitas viagens por todos os temas –fluidez absoluta de tema para tema ligando as considerações ao  segundo nível narrativo: o trama. Conseguindo-o fazer nunca de forma brusca, mas através de ligações subtis que unem os dois níveis. O trama, “A história de Carlos e Joaninha” intercalada entre a viagem do narrador e as considerações dele sobre os diversos temas. O narrador (que em tudo se confunde com o próprio Almeida Garrett) um homem com uma vida de grande amplitude: escritor, resistente político, soldado, jornalista, boémio e mais tarde depois do triunfo da revolução liberal: político quer em Portugal quer no estrangeiro como embaixador. Vivências amplas que Almeida Garrett expões através das considerações e dos momentos de divagação: as diversas viagens numa obra que ele refere querer: “Palpitante de atualidade” quando diz “… quero que esta minha obra seja palpitante de atualidade” A vontade então de resumir todas as transformações do seu tempo, a Marcha do Progresso Humano – Todo um século em mudanças rápidas, um século que ele personifica e em qual se vê espelhado: um século, o XIX de grandes convulsões e mudanças, de rupturas, de crenças e deceções, retratadas e amplificadas de forma fluída e contraditória nestas viagens: ao mesmo tempo uma e múltipla – viagens globais quando a deslocação geográfica é quase irrisória, viagem pelo interioridade do escritor, divagativo, contraditória como a natureza humana e o século personificado: a natureza humana impossível de isolar num lapso de tempo e a consciência dessa impossibilidade. Também da impossibilidade de descrever os sentimentos humanos: de resumir a consciência humana sem cair na contradição – aceitar apenas ela como possível e em toda a fluidez duma viagem múltipla Almeida Garrett espelha-se, corrige-se, mostra-se como escritor e humano. A quantidade de informação e de estímulos pode parecer uma avalanche e então acontece ao leitor, não o imaginário, com que Almeida Garrett dialoga, mas o leitor real, que têm o livro à frente – a desistência que fala Roland Barthes – o momento em que o leitor levanta a cabeça, abandona a leitura, o levantar da cabeça, um necessitar de respirar, vir à superfície e necessitar voltar a mergulhar na avalanche. O levantar a cabeça do leitor – a necessidade de respirar com a mente cada vez mais ativa (passou-me muitas vezes a mim com este livro que Jacinto do Prado Coelho considera o início do modernismo português – Habitualmente vemos esta datação para o caso português 40 anos mais tarde com o surgimento da geração de Orfeu – E bem que podemos ver já “Nas Viagens na Minha Terra” um prenúncio da modernidade. Paradoxal, Amplo, Global. Uma desordem aparente – Assumida, mas uma desordem controlada que no final se pode assumir, tal como o autor refere no capítulo X: “Uma história simples e singela, sinceramente contada e sem pretensão”.
Uma verdadeira viagem múltipla – Ampla e em todas as direções. Sincera, e daí a força do título, que pela sua simplicidade nos confunde, passando desapercebido o plural e a abrangência honesta deste livro: “Viagens na minha Terra”.

                                                                                                                                                                                                      Nuno Brito, 2012.


quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Sunset Boulevard

Ode Gente*

O tempo, perverso em não existir, conjunto de limões em fuga,
com a sua saia de séculos, a masturbar-se lentamente,
A vir-se Em todas as direcções:
Depois mais rápido moldando a cara dos lavradores
Ofegante na sua vontade circular
Cilíndrico na espera – a subir o Chiado a descer o Chiado,
A entrar em cada casa, a passear na Afurada – a saber-se coisa-nada
ele
dá-te a mão, Espera,
Pinta frescos na sala, detiora os frescos da sala
tacteia nas tuas costas uma vontade nova, muda essa vontade
cria uma nova e uma nova e uma Nova
Escreve a lápis número 3 na sua sebenta:
“Este país não é para velhos” E masturba-se devagar e
depois Rápido: E adora Cláudio Magris e toda a Antena –
e acorda com Sebald e deita-se com Sebald, viola as filhas da revolução
e é manhã e insónia a entrar em todas as tabernas
a tingir de amarelo os calendários Michelin
a crucificar este, a encher de prazeres aquele, a masturbar-se
ciclicamente até ser só Vontade de ter passado:
Tempo-Cidade, tempo-cavalo, tempo-proletário,
tempo-homem, tempo-mulher, tempo camponês que dá a mão, tempo que escreve ensaios, tempo que canoniza –

Tempo que chora leite condensado para
cima da Sebenta, com o seu rosto quadriculado que é só medo e está passado –
………………………………………………………………………………………………………
Tempo que é União e fala por nós, que tenta chorar mas só lhe sai musgo dos olhos, fresco e verde como o que cresce nas fontes de Raguzza, que dão uma água carregada de ferro (Resta-me a Sinceridade e a Saliva de todo o mundo)


***

O Tempo a cavalgar com Zaratrusta, trusta trusta,, a procurar um efeito sonoro nos seus versos: Em busca deste ou daquele recurso estilístico que dê profundidade à rima imperfeita – a Injectar no peito uma vontade nova, um Sol líquido entre dois seios que são também montanha, onde descansa o olhar –
vários olhos que vêm os estorninhos dançarem numa nuvem única, que parece uma cabeça de Medusa, em permanente mutação: Criando novas formas do cabelo, novas expressões no sorriso …………….. Uma nuvem única que faz amor consigo própria, como se fosse com um filho por cima dos Campos de Marte - uma nuvem-estorninho a acompanhar Grieg na subida e a acompanhar Grieg na descida: Nasceu uma Estrela com baton a mais –


A Torre de Babel, as torres do Aleixo
A torre latina que só espera,
a doçura do
teu queixo – À procura da T-mésis per-fei-ta
Um triângulo com as suas três pontas acesas, que bebe demais e tem medo de cair na entropia, um triângulo-cio com problemas de erecção.

É só doçura a torre latina que cai, Gémea do silêncio e da solidão;
A nossa língua não é esquecida: Evoluirá até à deformação perfeita –
O Tempo a acender todos os interruptores da Calábria, a fechar os olhos aos missionários que merecem o descanso: A dar-lhes um sentido porque todas as coisas devem ter sentido, seja ele único ou múltiplo: Seja ele cavalo, cidade-industrial, pastor alemão, vidro, sebenta, aguardente, erecção, uma viagem a Nova York, a Grécia Inteira; seja ele vento, microscópio, lixívia de marca branca, rebanho de ovelhas, medo do escuro, uma canção de amigo, uns olhos verdes e tristes – Seja ele, fazer obras num talho, mudar de instalações o sapateiro, o preço da gasolina, o preço do trigo, o que o colhe, ou o que o come…

***

Aqui não há espera: Come o teu queijo gordo e guarda que o teu lamento não seja eterno ………. Abre todas as janelas e deixa que o mar entre em tua casa – Nasceu do lodo, a simetria, a Vontade nova, em tudo nova; Não lhe quis dar um nome. Por superstição, deixei-a também flutuar como fumo de um cigarro que desaparece e é só instante. Deixei-o ir acordar os camionistas que seguem por estradas sem curvas, e precisam de dormir ……………………………… O que nos é estranho é adocicado e múltiplo, o que nos é estranho é o que Entra … Digo Entrar. Entrar Verdadeiramente::
Fomos alguém à janela com as suas pernas de cimento, fomos o pão negro que comia, um país na direcção do vento: O meu trabalho é partir diamante com a boca e encher de calmantes toda a Escócia e a gente austral. O meu país é só vento e aproxima o bem do mal: O meu país faz compotas de petróleo cristalizado, compotas de moral e de cimento que acordam os seus filhos pela manhã, compotas que indicam uma rota nova, que pedem boleia aos camionista, que têm medo de não passar bem a mensagem – É sua missão passá-la … Dizem - Bom dia! – A este e aquele que passa, que tiram o chapéu educadamente; Que abrem os seus corações aos estranhos nas estações de comboio. Compotas que desejam mesmo um bom dia, a este e aquele viajante e só esperam que a sua rota seja perfeita.

***

Espero que alguém se deite comigo, e não saiba já se está acordado ou a dormir e que a fronteira entre a vigília e o descanso seja só um novelo com que brinca um gato, em tudo exílio e olhos verdes, um gato negro que entra e sai das torres latinas. Um gato com o sonho Americano e a Dormir por si adentro.
Manter vivas todas as Frentes e velar para que nunca se apaguem – Calcar um triângulo de espera - gelatinoso como o cancro da mama - Um Triângulo que incomoda os séculos, um triângulo que minga quando as pessoas se abraçam: um triângulo que acorda e cavalga, um triângulo que sabe três línguas e assassina por trás. Um triângulo-Solidão.

***

Em métrica antiga abrimos todas as portas para que o rio passasse, negro e gorduroso no seu leito, a dizer que o país não se mete em sarilhos, em cada esquina um tétrico coro canta. Em cada esquina essa perda de cabelos dourados, wireless latino e agudo, entra em todos os jardins, come os teus figos maduros, Quê?
Com uma flor na lapela que é o seu lamento,
A criar estilos, a passear o cão, a ouvir o concelho de todos, a dançar regeton

O Tempo a ouvir Sitiados
A talhar a pedra - a ser já só pedra e dados
a construir sólidos telhados num labirinto de braille


……………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………...

O Coro tétrico canta:

Tudo é febre e mudança
Panteão e virilha a arder,
Tudo é promessa líquida que muda,
e manequim a ferver

Tudo é perspectiva múltipla e
nos exige a atenção,
Tudo é língua, tudo boca ,
Ode como um cão!

Esculpe-me o cabelo, o sexo e o antebraço,
Recheia de chocolate os ouriços do mar, Dá-me a solução num único abraço,

Adoça e esculpe-me os limites: Faz deles, nenhum.

*******

Acende um Farol em cada praia. Não esperes os navios. Entra em todos os seus porões sem aviso - Recheia os capitães de Susto – Enche os Porões de riso e espasmo… Penteia-os com gel de golfinho. Sempre estive perto da loucura, se não fui ela própria, sempre quis ter bigodes púrpura e ser só a chuva lá fora –

Nunca quis ser um poeta, só quis ser um navio em chamas: Um navio violado pelo seu tio, todas as manhãs e todas as tardes, um navio que há noite lê Bataille - Um Navio que se afasta dos outros navios se não tiver cuidado, um navio que só quer ser ponte, limite e União. Um navio que com os seus óculos de Sol, escreve na sua rota: - Não existe o que se escreve nas rotas -
Um navio que mesmo assim escreve e insiste em escrever, seja no osso de uma namorada morta, seja no computador, seja em rolo de papiro, em pergaminho, em papel, em folha de gelatina, em mármore, em porta de casa de banho, em quadro (pode ser com unhas ou com dentes) em areia molhada, no braço em tatuagem, nas costas em tatuagem, num deserto mexicano, num campo relvado, a chantilly num bolo de chocolate, no lodo, na lama, no gelo com patins, na cerâmica, na argila, no fogo, desenhando um rasto de gasolina, com urina num ladrilho seco – Não interessa o suporte, mais ou menos perene, ele só prova a nossa inocência, a nossa necessidade de partilhar - A literatura, só pode ser União …………… Um navio que escreve rápido no ar e em fumo de cigarro (são precisos bons reflexos e ante-braço forte) – A Literatura tem de ser União –

Nunca quis ser um poeta, sempre quis ser um espelho colocado no centro da Austrália, sempre quis ser a “fome de gente” que os espelhos têm - Pequenos fios dourados, Guardar uma coisa qualquer, um hipermercado, um segredo, proteger essa coisa dos lobos; Ser vários cangurus espalhados pelo deserto reflectidos na minha cara fosca, de um e do outro lado, uma cara fosca que é só deserto espelhado carregado de nuvens vermelhas no vidro e na sede de ter Muitas Línguas - Deserto Compositor a Criar um Requiem em Braille para que os cegos cantem uma Osana Perfeita – Para que os cegos a vejam multiforme a Afastar todas as nuvens carregadas – Para que a Fuga seja só ficar – Deserto a vestir as suas cuequitas com motivos ursinhos, a olhar para mim, espelho que não dorme porque abre todas as gavetas, todas as vontades para tirar de lá meias de licra – Sou só a vontade dos teus olhos. A Escócia a abrir trincheiras cor de rosa, África a sonhar com um incesto – Em tudo Maior –
A calçar as All-Stars - A jogar playstaition com a boca cheia de limão* Deserto a cavalgar a abrir portas – Não interessa a escolha do caminho, mas a intensidade com que se o percorre, seja ele um ou em tudo múltiplo e comprido. Deserto a abraçar deserto, deserto a espalhar-se vermelho na perda por deserto e deserto, deserto com sede de pessoas.

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Nunca quis ser um deserto, sempre quis ser um espelho ou um conjunto de limões _ Se fosse uma mulher, paria um espelho de espuma – Sei que a espera é o próprio Inferno, senão o Diabo Inteiro, sou o arquitecto de um labirinto:

Comer o labirinto
Sair
Ficar dentro – O Arquitecto é uma sombra e quer-se perder e espalhar pela praia ao fim da tarde, Criar a Sua Perda, um labirinto doce com muros que são folhas de gelatina, um arquitecto que só te quer a ti, todas as saídas e todas as entradas. A mais doce ária que é o azeite negro a escorrer pela boca de um paralítico. Esculpe-me o cabelo, o sexo, o antebraço, dá-me um abraço triplo, tira-me todo o ar, dá-me todo o Ar:
A noite com as suas cuequitas apertadas uiva por Maiakovsky
a língua da noite adormece os pescadores

Gosto de te ver sorrir

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O Riso é o Gerador Único do Universo,
só ele, quando, tudo o resto falha, permite que as estrelas,
(infanticidas por natureza), se mantenham vivas e não cortem as suas pontas,
Que as ligações frágeis, não percam vida e se extingam até à anorexia, perdendo luz e força,
ou se arrebentem por dentro sobre o seu próprio eixo desatinado (desatinando para aqui e para ali) Só o Riso é Deus, só ele cavalga e Molda verdadeiramente as caras,
só ele cria luz e espelhos de espuma, só ele goza a poesia, só ele fica sozinho, só ele dá vida.
Quem escreve “O Fim da História”, mais não faz do que a começar. Sou um recurso estilístico a olhar-se ao espelho, a beber chá verde pela manhã, a empapar o cabelo em gel …

Sou a vontade, em tudo malhada, de te ver sorrir*
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Lambi o sexo a um relâmpago de virilhas acesas
os seus pintelhos tornaram-me a boca da cor do azeite,
alguns engoli e escorri para os pulmões, vi o relâmpago a lavar os dentes e a cair por cima de uma biblioteca

a literatura (a primeira morte) só serve para unir – os fios que usa são dourados,
é também dourada a sua paciência e a sua vontade de conhecer o inferno.



Ode em mutação, poema recheado de vento, poema que cavalga e é lusitano - Que é só sede e é só vento, (vontade de rir de tudo) - Poema em rima cruzada a atravessar todos os rios, relâmpago a guiar numa auto-estrada em direcção ao sul – Poema a ouvir Belle Chase Hotel com a boca cheia de cerejas negras – Ode que canta um país que não quer amanhecer, e que é brisa e triste lamento, poema que é olhos teus e se alimenta de riso. Ode cão Ode cimento.

Sempre quis ser uma cidade industrial escocesa que Turner não conseguiu pintar, sempre quis ser o acordar dos operários, que calçam as suas ceroulas, afastam o medo (Criação Absoluta e único Motor de tudo) Todos os mails não enviados que recheiam a Rede de pontas gelatinosas e fazem explodir as estrelas – De tudo o que deve ser dito com o palato aceso.
Ode Gente, Ode canção
Ode lixívia que limpa uma campa
Ode-saia e alexandrina na rima, ode com dentes podres
viciada em cocaína – Ode Gente dentro de Gente, Ode cantina,

Ode canção, perfeita no gesto – Ode hospedeira da Easy jet, Ode-gente que chove, Ode-Nuvem que tapa e destapa as cidades Belgas, Ode a abrir os frascos de mel todos, a meter-te pirilampos nos cabelos, a acender de escuridão a noite – Ode que chora quando morre o seu amigo, Ode que brilha quando morre – O Mundo começou agora e já está na sua varanda de Susto uma rapariga com a sua saia carregada de vermelho – Ode Saída a encher os pulmões de relâmpagos - Um país Ocidental que nasceu numa paralítica dança em construção.

Ode tinta num copo de espasmos, Ode de boca ao lado que precisa de um amigo,
perversa na fuga e na sua chegada,

              - O amor é como carne.

                                                                            Nuno Brito, Duplo-Poço. Lisboa: Hariemuj, 2012. 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Lars Von Trier - Os Cinco Obstáculos


Lars Von Trier, The Five Obstrucions. (2003)

Lídia Jorge - O Cais das Merendas

(...)
Começou então o primeiro party. Alinharam-se uns a seguir aos outros, palavras discretas e grande entendimento, de ali tu e aqui eu, além o Quinas, depois o Edmundo para ver se fala o rapaz, e pareceu a todos assim sentados, vendo as bocas dos sacos e as tampas dos cestos descobrirem-se, que a vida era uma coisa doce, mansa, muito pomba, muito pomba. Ah, meus amigos, desçam as pálpebras e vejam. Sintam para dentro com os olhos da alma. Tão bons estes domingos, estes encontros civilizados, estas conversas sobre o nosso métier, o nosso entretém, vejam, vejam para dentro e não nos falem do passado, por favor. Yes, not the past. Rematava Sebastião Guerreiro já de olho alongado sobre o local da praia. Mas sendo assim, em sua opinião, devia dar-se início  à coisa. Simplesmente as mulheres ainda zelavam com o olhar as asas de alguns cestos onde paninhos brancos e lavados estavam muito direitos sobre. Um riso de simpatia. Era como se contivessem dentro, ajoujados, meninos de peito, chuchas na boca, dormindo os seus soninhos férteis entre mamadas. Ali eram pastéis de salsa, aqui eram doces. Fi-los de manhã para que ainda viessem quentinhos do forno. Gostamos deles dentro de sainhas de papel plissado com pérola no meio, e ficam bem, mesmo a matar, postos sobre esta bandeja de casquinha que também trouxemos. Adoro as coisas feitas assim a preceito. We love. Era a Zulmirinha Santos e Catrinita Mendes. Decompuseram então os braços em gestos comedidos., alcanças e toma lá, escolhes e passas, mais um bocadinho, sim obrigado. A vida tão boa, tão doce, tão mansa. Agora por favor, retirem a vista do mar e ponham-na aqui.

Era assim tão doce e tão pombinha.

(...)


Lídia Jorge – O Cais das Merendas.Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1995.


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Sylvia Plath - Os Manequins de Munique



A perfeição é terrível, não pode ter filho.
Fria como a respiração da neve, põe um tampão no útero


Onde os teixos sopram como hidras,
A árvore da vida e a árvore da vida

A libertar as suas luas, mês após mês, sem nenhum objectivo.
O fluxo do sangue é o fluxo do amor,


O sacrifício absoluto.
Quer dizer: não há outro ídolo senão eu,


Eu e tu.
Assim, no seu sulfuroso encanto, nos seus sorrisos


Estes manequins dormitam esta noite
Em Munique, a morgue que fica entre Paris e Roma,


Nus e carecas nos seus casacos de pele,
Chupa-chupas de laranja em pauzinhos de prata

Intoleráveis, ocas cabeças.
A neve deixa cair os seus bocados de escuridão,


Não se vê ninguém. Nos hotéis
Mãos estarão a pôr os sapatos


À porta dos quartos para que os engraxem com carbono
Neles hão-de amanhã entrar enormes pés.


Ó a domesticidade destas montras,
As rendas de bebé, as folhas verdes de açúcar,


Alemães toscos a passar pelo sono metidos nos seus stolz largos.
E os telefones pretos no descanso

A brilhar
A brilhar e a digerir
Emudecidos. A neve não tem voz.


Sylvia Plath, Ariel - tradução de Maria Fernanda Borges.


Jorge de Sena - Conheço o Sal


 Conheço o sal da tua pele seca
Depois que o estio se volveu inverno
De carne repousada em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
Quando das bocas se estreitavam lábios
E o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
Os louros ou cinzentos que se enrolam
Neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minhas mãos
Como nas praias o perfume fica
Quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
Da tua língua, o sal de teus mamilos,
E o da cintura se encurvando de ancas.

A todo sal conheço que é só teu,
Ou é de ti em mim ou é de mim em ti,
Um cristalino pó de amantes enlaçados.

                                                                                         Jorge de Sena