terça-feira, 22 de outubro de 2013

Victor Oliveira Mateus: Num café da Via Monginevro


 O rapaz do café olha-me com alguma desconfiança,
mas mesmo assim fala-me, é afável. Talvez seja
do pais esta necessidade de estar próximo, de irradiar
um sólido encurtar distâncias neste tempo de implosões
organizadas. O rapaz do café traz os pedidos como
equilibrista de lugarejo: a bandeja, de uma bacidez

acinzentada, bascoleja copos, latas... e a mim também,
que de equilíbrio me sofro tão incapaz de um eu a recusar-me
unidade e acerto. Certo dia alargou-se mais: que era
lá debaixo, da Ligúria. Nascera em Sestri Levanti. Se eu conhecia,
e olhou-me a ameaçar escárnio: que sim, que sim (acalmei-o),
mas só de passagem, aliás, é de passagem que tudo conheço.

Conclusão que ele entendeu, pois logo me olhou livros e papéis.
O rapaz do café tem algo de metafísico (acabei por decidir),
pois quando fala depressa não o entendo, e quando se explica
pausadamente não o entendo também. Certo dia apanhou-me
alguns versos que me haviam caído da mesa e então perguntou-me

se eu fazia poesia. Que não!, respondi-lhe peremptório,
é ela que me faz a mim; é ela que me não larga, sempre
a recusar-me razão, conformidade. O rapaz do café deixou,
por fim, seu antigo olhar. Agora tem um outro, bem mais
enigmático - coisa de fascínio com hostilidade à mistura.


Victor Oliveira Mateus, Regresso, 2010.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Camilo Castelo Branco: O dinheiro como inibição temática no Romantismo


 Nos romances todas as crises se explicam, menos a crise ignóbil  da falta da dinheiro. Entendem os novelistas que a matéria é baixa e plebeia. O estilo vai de má vontade para para coisas rasas. Balzac fala muito em dinheiro; mas dinheiro a milhões. Não conheço, nos cinquenta livros que tenho dele, um galã num entreacto da sua tragédia a cismar no modo de arrajar uma quantia com que pague ao alfaiate, ou se desembarace das redes que um usuário lhe lança, desde a casa do juíz de paz a todas as esquinas, donde o assaltam o capital e juro de oitenta por cento. Disto é que os mestres em romance se escapam sempre. Bem sabem eles que o interesse do leitor se gela a passo igual que o herói se encolhe nas proporções destes heroizinhos de botequim, de quem o leitor dinheiroso foge por instinto, e o outro foge também, porque não tem que fazer com ele. A coisa é vilmente prosaica, de todo o meu coração o confesso. Não é bonito a gente deixar vulgarizar-se o seu herói a ponto de pensar na falta de dinheiro. 


BRANCO, Camilo Castelo (1997), Amor de Perdição, Lisboa, Europa-América.

domingo, 20 de outubro de 2013

Miguel-Manso: Video Art

I.                   Video Art
 planos soltos para Velvet Underground

A poesia, tipo,
não precisa de, bom,
não é exactamente uma canção, uma praça ou um parque no Outono
indícios, unicórnios, um capitel clássico
helenicamente erguido sob a librina e o néon
Costumavas sentar-te sobre os Romanos na Library
nesse Verão algemámos deus
ao gradeamento de uma janela em Portland Road
o ano: 1967 e uns copos a mais
Uma oração, dizia-se, desliza como pedra solta até
ao Palladium; na Primavera seguinte estudavas semiótica
e aprendias a escolher legumes no centro da Babilónia
com uma amiga pelo braço, atonal, primeiro, depois
descendo a Avenida A
Duchamp tornou-se uma súbita porção de silêncio arroxeado
colado à folhagem: acácia gelada na manhã de um jardim
pequeno em Nova Iorque
Drella dizia estar farto de pintura e brincava de
marinheiro ou bronze etrusco ou rainha barroca
decapitada, enquanto nós dormíamos cansados de amputar
as pétalas de Nico, dormíamos sobre
o sangue de uma figura de Fellini e não sonhávamos com
o guerreiro moribundo do frontão oriental do Templo de Égina –
caído e sorrindo – nem com o mercado de Benavente
Mas a poesia, tipo
é um dragão em origami, um isqueiro zippo
um riff de guitarra uma aventura espaço intermédio
a soma das partes a sua exclusão
Deitada sobre a cama, usando um espelho entre as pernas
desenhaste a cona a lápis, nas costas
de um menu de restaurante
Que faço agora com as fotografias, as caixas de sapatos
os anos sessenta, a romã podre sobre o tampo da mesa, a cidade
de Damasco?
Muito antes, suponho, e muito depois
de consoar a música o poema o receituário sonoplasta
a Vénus tatuada, o recipiente adequado
a cidade coroava a ferida como se tudo tivesse
promovido o eco
que não termina
A arte, a ironia? por um triz, quase nada
e resta-nos qualquer coisa entre a noite e o mar
um táxi, a garrafa de gin, a morte
porque não? refazendo tudo a partir daí
um trabalho imenso
Miguel-Manso, Santo subito, 2010.

Vittorio de Sicca: Milagre em Milão 1951


Vittorio de Sica, Miracolo a Milano, 1951.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Miguel de Cervantes, sobre a língua portuguesa


A língua portuguesa é como a língua espanhola sem ossos, uma elegância que é compensada pelo espanhol com outras características expressivas.

Miguel de Cervantes


José Miguel Silva: O Rapaz de cabelo Verde - Joseph Losey (1948)


O rapaz de cabelo verde era eu, em finais de setenta,
a fugir por entre silvas e valados, quando a turba
dos chacais acometia as minhas pernas de pardal,
e só de bicicleta me tirava eu de apuros, pois
as pedras, os apupos, as polés insistiam em mostrar-me
elementos capitais de filosofia política.

Pedalava sobre lágrimas, de volta para os braços
do meu sangue, trepava para o muro do quintal
e de lá esconjurava os assassinos: filhos de uma puta!

Anos depois - que alegria já não ser o mais 
cobarde, ser a mão que traz o pau, a bofetada;
e rir entre os iguais, no renque dos ungidos:
o primeiro cigarro, o exame dos colhões - que sorte
ver as lágrimas cair e não serem minhas.

José Miguel Silva, in Poemas com Cinema, org. de Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Rui Almeida: Os que morrem cedo

  (...)

2. Luís Miguel Nava

Um cheiro forte a carne nasce
Nos lábios,
Contorna a voz viril da inocência
(«Como te chamas?»)
E repete a fortuna do ar
Na dormência do tacto.
(«tenho o dobro da idade
Das tuas mãos em mim»)

A ternura é quase tudo,
É uma roda a moer com o vento
Que nos assusta.

A ponta dos dedos
Torna-se estrangeira numa boca
Próxima do sexo onde tudo é branco,
Lugares de vidro e de ossos vazios,
Estéreis e sem segredos irredutíveis.
(«O que é a culpa
Se não a falta de chão»)

Rui Almeida, in Meditações sobre o Fim: Os últimos poemas, Lisboa, Hariemuj, 2012.