terça-feira, 29 de outubro de 2013

Nuno Moura: Vinte e um mil metros

Comi pão e queijinho fresco, taça tinta, levo-te uma chamuça
mesmo indiana, limpei a gordura ao secador de mãos, que detestas.
Lembrei-me de pouco melhor, fiz-te uma animação, muito caía,
catorze vidas, balas pretas e bonecos inimigos, legendas.

Seres longe, obriga-me a ser lapiseira, amanhã
carteiro, depois já como queres.

Se não te doesse, não me corria.

Nuno Moura, Soluções do Problema Anterior, Lisboa: & etc, 1996.

Nuno Moura: Um poema tenrinho pode ser

  Um poema tenrinho pode ser
quando tu morreres vou tirar a carta
ou
o mosteiro dos pulmões ataca uma barriga sem grades
e nasce uma quantidade razoável de imagens
indo da agulha de cintilo
aos dentes de um morcego beija-mão.

mas pode ser escrever chamar otários
sabrões
zarpos
garôlos
altos comissários
nas paredes para as ruas
das garagens-oficina nova era automóvel.

mas pode ser amor drógádo
síque
não presta.

mas pode ser tão difícil.
mas pode ser
liga à tua antiga madrinha-de-guerra
vai ter com ela saca-a ao marido
mexe com esta merda
pá.


Nuno Moura, Poetas sem qualidades, Averno.

Manuel de Freitas: Avenida Guerra Junqueiro


para o Rui Miguel Ribeiro

Uma cerveja, uma esplanada, pombas
rondando os magros arbustos
- uma espécie de serenidade, intocável.
Penso como seria diferente este preciso momento
se me tivessem internado durante um mês,
à mercê de exames e de uma firme promessa de morte.
Penso que nunca tive um melanoma, uma cirrose,
uma hérnia no estômago, essas coisas
por que passaram alguns amigos meus.
E lembro-me de uns versos de Emily Dickinson
muito parecidos com a luz forte de Lisboa.
Penso que tenho, afinal,
um inferno pequeno
mas verdadeiro
por ser, como o vosso, mortal.

Manuel de Freitas, Poems from the portuguese.
Poems from the Portuguese

Nuno Júdice: Jogo


Eu, sabendo que te amo, 

e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.

J
ÚDICE, NUNO (1997), A Fonte da Vida, Lisboa, Quetzal.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Georges Bataille

O animal abre diante de mim uma profundidade que me atrai e que me é familiar. Essa profundidade eu conheço  num certo sentido: é a minha. É também o que para mim está mais longinquamente oculto, o que merece este nome de profundidade, que quer dizer precisamente o que me escapa. Mas é também a poesia...

BATAILLE, Georges (1993), Teoria da Religião, Editora Ática, São Paulo.

domingo, 27 de outubro de 2013

Antoine de Saint-Exupéry: O Principezinho


Charles Dickens

Uma grande pipa de vinho tinha-se feito em pedaços na rua. O acidente tinha ocorrido quando descarregavam um carro; a pipa caiu ao chão, começou a rodar, os aros partiram-se ao baterem no empedrado e foi a abrir-se, como uma noz, em frente à porta de uma taberna. Toda a gente interrompeu aquilo que estava a fazer, ou os seus ócios, e correu ao lugar do sinistro com a sana intenção de beber vinho. As pedras do pavimento, ásperas, desiguais e pontiagudas, colocadas como a propósito para deixar inválido a todo o que por ela transita, tinham distribuído em pequenos charcos o líquido derramado, e à volta de cada um destes charcos apinhava-se, segundo a sua extensão, um grupo de bebedores que se empurravam. Alguns homens, de joelhos, recolhiam o vinho na palma das mãos e bebiam-no a grandes sorvos, ou deixavam beber as mulheres inclinadas sobre os seus ombros, que o bebiam não com menor avidez antes que o líquido se escorrera entre os dedos. Outros, homens e mulheres, recolhiam-no do chão em pequenos jarros de barro lascados, e até com os lenços que as mulheres traziam à cabeça, que logo exprimiam até à última gota nas bocas abertas das crianças. Não faltava também quem fizesse pequenos diques de barro para conter o vinho que corria, nem quem, espicaçado pelos que observam desde as janelas mais altas, se precipitasse para aqui e para ali para se apropriar de pequenos regueiros que tomavam novas direções. Outros dedicavam-se a chupar pedaços de pipa meios apodrecidos pelo vinho, lambendo e até mordendo os fragmentos mais húmidos com ânsia e prazer.

DICKENS, CHARLES (2013), História de Duas Cidades, Lisboa, Civilização Editora.