quarta-feira, 6 de novembro de 2013
Émile Zola: A Taberna (1876)
Quando chegam os
días maus, estes não deixam de ser acompanhados por algumas noites agradáveis,
horas em que se amam as pessoas que se detestam.
ZOLA,
Émile (1972), La
Taberna, Barcelona, Credsa Ediciones.
terça-feira, 5 de novembro de 2013
Fernando Sylvan: Mensagem do Terceiro Mundo
Não tenhas medo de
confessar que me sugaste o sangue
E engravataste
chagas no meu corpo
E me tiraste o mar
do peixe e o sal do mar
E a água pura e a
terra boa
E levantaste a
cruz contra os meus deuses
E me calasse nas
palavras que eu pensava.
Não tenhas medo de
confessar que te inventasse mau
Nas torturas em
milhões de mim
E que me cavas só
o chão que recusavas
E o fruto que te
amargava
E o trabalho que
não querias
E menos da metade
do alfabeto.
Não tenhas medo de
confessar o esforço
De silenciar os
meus batuques
E de apagar as
queimadas e as fogueiras
E desvendar os
segredos e os mistérios
E destruir todos
os meus jogos
E também os
cantares dos meus avós.
Não tenhas medo,
amigo, que te não odeio.
Foi essa a minha
história e a tua história.
E eu sobrevivi
Para construir
estradas e cidades a teu lado
E inventar
fábricas e Ciência,
Que o mundo não
pode ser feito só por ti.
Fernando Sylvan (Díli 1917- Díli 1993)
T.S. Eliot: O Hipopótamo
(E quando esta epístola for lida entre vós
fazei com que seja lida também na Igreja dos
Laodiceanos)
O Hipopótamo de costas largas
Repousa sobre a barriga na lama;
Embora nos pareça tão firme
É meramente de carne e sangue.
A carne e o sangue são fracos e frágeis,
Susceptíveis de choque nervoso;
Ao passo que a verdadeira Igreja nunca falha
Porque tem por base um rochedo.
Os fracos passos de Hipopótamo podem errar
Ao compreender os fins materiais
Ao passo que a Verdadeira Igreja não passa de se mexer
Para colher os seus dividendos
O `pótamo não consegue alcançar
O mango na Mangoaeira;
mas frutos de romã e pêssego
Refrescam a Igreja vindos do ultramar.
No acasalamento a voz do hino
Denota inflexões estranhas e roucas
Mas todas as semanas nós ouvimos e louvamos
A Igreja, por ser una com Deus.
O dia do hipopótamo
É passado a dormir, à noite caça;
Deus trabalha de um modo misterioso -
A Igreja consegue dormir e comer ao mesmo tempo.
Vi o ´Popótamo levantar voo
Subindo das húmidas savanas,
E anjos implorantes à sua volta cantam
Louvores a Deus, em altos hosanas.
O sangue do Cordeiro vai lavá-lo bem limpo
E ele abrirá os braços celestiais,
No meio dos santos serám visto
Tocando numa harpa de ouro.
Será levado tão branco como a neve,
E beijado por todas as virgens mártires,
Ao passo que a Verdadeira Igreja fica cá em baixo
Embrulhada no velho nevoeiro de miasmas.
Laodiceanos)
O Hipopótamo de costas largas
Repousa sobre a barriga na lama;
Embora nos pareça tão firme
É meramente de carne e sangue.
A carne e o sangue são fracos e frágeis,
Susceptíveis de choque nervoso;
Ao passo que a verdadeira Igreja nunca falha
Porque tem por base um rochedo.
Os fracos passos de Hipopótamo podem errar
Ao compreender os fins materiais
Ao passo que a Verdadeira Igreja não passa de se mexer
Para colher os seus dividendos
O `pótamo não consegue alcançar
O mango na Mangoaeira;
mas frutos de romã e pêssego
Refrescam a Igreja vindos do ultramar.
No acasalamento a voz do hino
Denota inflexões estranhas e roucas
Mas todas as semanas nós ouvimos e louvamos
A Igreja, por ser una com Deus.
O dia do hipopótamo
É passado a dormir, à noite caça;
Deus trabalha de um modo misterioso -
A Igreja consegue dormir e comer ao mesmo tempo.
Vi o ´Popótamo levantar voo
Subindo das húmidas savanas,
E anjos implorantes à sua volta cantam
Louvores a Deus, em altos hosanas.
O sangue do Cordeiro vai lavá-lo bem limpo
E ele abrirá os braços celestiais,
No meio dos santos serám visto
Tocando numa harpa de ouro.
Será levado tão branco como a neve,
E beijado por todas as virgens mártires,
Ao passo que a Verdadeira Igreja fica cá em baixo
Embrulhada no velho nevoeiro de miasmas.
T.S. Eliot (1888-1965)
Murilo Mendes: Cantiga de Malazarte
Eu sou o olhar que penetra nas
camadas do mundo,
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
destelho as casas penduradas na terra,
tiro o cheiro dos corpos das meninas sonhando.
Desloco as consciências,
a rua estala com os meus passos,
e ando nos quatro cantos da vida.
Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido,
não posso amar ninguém porque sou o amor,
tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos
e a pedir desculpas ao mendigo.
Sou o espírito que assiste à Criação
e que bole em todas as almas que encontra.
Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo,
nada me fixa nos caminhos do mundo.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
destelho as casas penduradas na terra,
tiro o cheiro dos corpos das meninas sonhando.
Desloco as consciências,
a rua estala com os meus passos,
e ando nos quatro cantos da vida.
Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido,
não posso amar ninguém porque sou o amor,
tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos
e a pedir desculpas ao mendigo.
Sou o espírito que assiste à Criação
e que bole em todas as almas que encontra.
Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo,
nada me fixa nos caminhos do mundo.
MENDES, MURILO (1994), Poesia Completa e Prosa, Editora Nova Aguilar, s.l.
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