domingo, 26 de janeiro de 2014

Guilherme d'Aquitânia

 Farei versos de puro nada:
de mim, de gente desvairada,
da juventude, ou da amada,
de nada falo,
que os trovei ao dormir na estrada
sobre um cavalo.


Cintio Vitier: Desvelo



El aire cristalino de la noche
suena púdicas rosas amarillas
de jardines fogosos, estalantes
en las playas deshechas a plegarias.

Plateada e negra, la espessura,
negro y plata del río,
revela melodia común a
tu cuerpo y a la nube delicada.

La entraña de los valles,
nocturna, voluptuosamente,
se saluda: qué alborozada voz
de franqueza fluvial cruza los campos.

La noche enseña al cielo
la honradez de la tierra,

- Gloria!:
crece candela fascinante en los
sembrados, desfallece el manantial
profundo, helado, de color.

Noche maravillosa y campesina
- gran firmamento de purpúreo azul -;

cielo duro, marino.

Cintio Vitier, Antología de mis versos, Editorial Oceano, México D.F., 2002.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Fátima Maldonado: As mulheres de Ozu

Em Ozu
as mulheres parecem conchas
macias do embate noutras pedras
arestas recolhidas e guelras aparadas
nas garras de volfrâmio.
Porta-chaves contra balcões de fórmica
por homens agitados
à busca de cervejas
Elas conservam
no meio da substância
onde o plástico coagulou em estrela,
em sachada na lama
ou baba dejectal,
a mesma bolsa de ar que declina
a arte sedosa da astúcia.
Mimoso camarão
na férvida água chamariz,
natureza trivial recolhida
à inócua tintagem de drageia
assomando à papila
a ante-deleição,
carne desfibrada entre palato e língua
até nada restar senão a ténue espuma
que sobrenada o acto,
o gesto inclinado,

a subserviente postura lateral.

Fátima Maldonado, in Poemas Com Cinema: Organização de Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010.

Daniel Sada

Entonces, por favor, contempla nada más
lo que te da un instante
Ya vendrán los minutos a insuflar el hastío
Así que mira… y punto
Hay una mecedora… parece muy lejana
y lejana se mueve, o a lo mejor, también,
la mueve el que te dije,
el que estaba en la cama enmedio del oleaje
¿Ya observaste la mesa? Es tenue,
siempre tenue, y por lo mismo impura
Tiene un fondo muy blanco
y un trasfondo a voleo
henchido de hojas cándidas,
esas que morirán murmurando un secreto
¡Lugar común!: ¡y limpio! Vislumbre entelerido
donde tú, donde aquél o donde aquélla…
La ronda de lo umbrío sera tal como fue
Así que barre a fondo
porque vienen los vivos
a hablar sobre los muertos
Barre, barre hasta el fin,
Barre con toda el alma,
Porque tal vez un día

Brillará todo esto


Daniel Sada, El amor es cobrizo.

António Fragoso: Suite Romântica



António Fragoso, Suite romântica.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Nuno Moura: Stamp


stamp stamp
abraço abraço
metade do beijo no teu ombro
mais de metade na minha boca

abraço abraço
ar ar
nada de ti em cima
nada de ti em baixo

metade do beijo no teu ombro
mais de metade na tua boca



Nuno Moura, in Antologia da Cave: 25 anos de Poesia no Pinguim Café, Porto, Apuro, 2013.

Luís Miguel Queirós: Alarmes

não desenroles tanto a noite
em tua pele, não equipares ao corpo
o tropel das palavras
na toalha. não encalhes em mim
tanta beleza. aperta
a blusa, recolhe do meu rosto
os teus olhares, alguma lágrima
brilhando sobre a mesa.

sossega. é cedo ainda
para o deserto trepidante
do desejo, não julgues saber já
que desenlaces o meu corpo procura
sobre o teu. nem eu te ofereço
o armadilhado morango
do amor. Apenas peço
que adormeças,
que dês lugar na cama
ao meu fantasma.

coloca o coração
numa órbitra prudente. Talvez não tarde
o tempo,
o lugar onde eu te diga
as palavras que desligam
os alarmes que instalei
em toda a alma.

Luís Miguel Queirós, in Antologia da Cave: 25 anos de Poesia no Pinguim Café, Porto, Apuro, 2013.