domingo, 16 de fevereiro de 2014

António Barahona

NAUFRÁGIO

Aves mudas
com olhares secretos
para a sede da terra

Na praia
os grãos de areia em moedas
e as ondas
de mãos inquietas

Passos indecisos
na expiação de pedras
atiradas ao mar

De bruços
aos fundos do oceano
eu prisioneiro das redes
no pensamento dos peixes


SIMULACRO DE SUICÍDIO
POR SOBERBA

O mundo era estúpido demais
para a sua inteligência
- assim pensou e permaneceu calado
perante si próprio
pronto para o último acto

Cavou um abismo ao fundo da água,
calculou a distância entre o som e a sombra,
e atirou-se de pé


Doía-lhe o coração a cair de pedra

António Barahona.

Georges Bataille: História do Olho

Veio-me à ideia que a morte era a única saída para a minha ereção; mortos Simona e eu, o universo da nossa prisão pessoal, insuportável para nós, seria substituído necessariamente pelo das estrelas puras, desligadas de qualquer relação com o olhar alheio, e adverti com calma, sem a lentidão e a torpeza humanas, o que parecia ser o fim dos desenfreados institutos sexuais: uma incandescência geométrica (entre outras coisas, o ponto de coincidência da vida e da morte, do ser e do nada) e perfeitamente fulgurante.


Georges Bataille, História do Olho, (1928).

Isaque Ferreira

Prova Cega

mover-se-ão com dificuldade
os joelhos
se a língua de um gato
me lamber
o céu da boca      

Inventário

As palavras que se dizem
durante o incêndio
um pequeno espaço de pão
o horizonte de telhados que promove
 a avaria dos dias
algumas ideias para a colisão
mais amor e equívoco
dando assoreamento ao coração
a alegria fragilíssima só ela
o amor outra vez                o incêndio
o amor outra vez
o incêndio


Isaque Ferreira, in Antologia da Cave: 25 Anos de Poesia no Pinguim Café, Porto, Apuro, 2013.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Inês Dias


 LA CATHÉDRALE ENGLOUTIE

Deste lado da vida
são sete horas (vestidas
de preto, vermelho e medo)
da manhã de outro dia.
Mas a janela fechada dá
para a noite ancorada
de leve sobre as esperanças
azedas da cidade.

Conto um rio preso num poço,
dois comboios afogados na pressa,
meia dúzia de faróis
acesos em prédios
cuja felicidade parece sempre
proporcional à distância.

O vinil negro continua a rodar,
atiça os seus pássaros enferrujados
contra a lua atada 
a uma das chaminés.
E a luz que nunca chega
traz as últimas notícias da guerrilha,
expõe o plástico roto nas armas
dos nossos heróis de ontem.

Abandono as saudades 
pelos telhados, com
as patas embaciadas, os olhos
magros. Saio.
Recomeço a fazer horas
para novos sonhos


Inês Dias, Um raio ardente e paredes frias, Lisboa, Averno, 2013.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Maurice Blanchot: O Espaço Literário

A impaciência é a falta de quem quer subtrair-se à ausência de tempo, a paciência é a astúcia que busca dominar essa ausência de tempo fazendo dela outro tempo, medido de outra maneira.


Maurice Blanchot, O Espaço Literário.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Francisco de Quevedo: Amor constante más allá de la muerte

Cerrar podrá mis ojos la postrera 
Sombra que me llevare el blanco día,
Y podrá desatar esta alma mía
Hora, a su afán ansioso lisonjera;

Mas no de esotra parte en la ribera
Dejará la memoria, en donde ardía:
Nadar sabe mi llama el agua fría,
Y perder el respeto a ley severa.

Alma, a quien todo un Dios prisión ha sido,
Venas, que humor a tanto fuego han dado,
Médulas, que han gloriosamente ardido,

Su cuerpo dejará, no su cuidado;
Serán ceniza, mas tendrá sentido;
Polvo serán, mas polvo enamorado.


Francisco de Quevedo (Madrid, 1580- Villa Nueva de los Infantes, 1645).

Maria do Rosário Pedreira: Nesse verão...

Nesse verão, o vento despenteou os campos e os barcos
andaram aos gritos sobre as ondas. A beleza excessiva
das crianças arrombou os espelhos; e as raparigas,
surpreendendo a intimidade dos pais, enlouqueceram
nos corredores e foram perder-se, também elas,
na volúpia dos dias. Nas árvores centenárias
rebentaram frutos que inflamavam a concha das mãos
e escorregavam para a boca com a pressa dos nomes
proibidos. O sol queimou as páginas do livro
interrompido na violência de um poema e revirou
os cantos do único retrato que resistira à moldura
do tempo. De noite, os rapazes deitaram-se às baías
atrás das estrelas; e os amantes, incomodados
com a exiguidade dos quartos, foram fazer amor
nos balneários frios da praia e acordaram nas vozes
um do outro. Já não sei o que disse e o que disseste:
o verão desarruma os sentimentos.



Maria do Rosário Pedreira, Poesia Reunida, Quetzal, Lisboa, 2012.