quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Maria Quintans


Elena Medel: Candy

Rota sobre el arcoiris,
descubro que la lluvia
es mi única coraza.
De noche se me forman
piscinas en el hombro,
mientras cuento mis pecas.

De mañana, imagino
que buceo en ellas:
que mi nuez es esponja,
que escribo mis poemas
con la ruina de nadie.
En el fondo de todo
-cuyo cielo es trapecio-
mi cuello de botella
se empequeñece y ríe,
con un mensaje dentro:
salir jamás de aquí,
hormiga a pata coja.

O tumbada en añil:
mi barbilla es cruel
y araña el imperdible
que sujeta mis botas,
o me arranco de cuajo
el punzón que me aferra
al balcón, y me asomo.
He estado ahí abajo.
Golpeo el techo y llueve.
Diluvia mi cabello:
la lluvia es mi defensa;
éste, mi himno acuático.

He estado ahí abajo.
Abajo, más profunda.
Donde puedo estar sola.
Incluso más abajo,
incrustada en el fondo
del agua o de la tierra.
Trenzas destartaladas:
soy muñeca de sucio
trapo, pisoteada,
rota sobre el arcoiris.

Natália Correia: O cavalo

Teus poros exalam o fumo
Do lar dos deuses de onde vieste.
Rompante de espuma e de lume
És sol quadrúpede ou mar equestre?

Desfilando derramas o ouro
Do teu rio inacabável,
Desmedido relâmpago louro
De um deus equídeo possante e frágil.

Tudo existiu para que fosses
No contraluz desta madrugada
Mitológica proporção perfeita
Em purpúrea bruma recortada.

Pois que te é divino mister
Humanos olhos extasiar
A dúvida é só perceber
Se vieste do sol ou do mar.


Natália Correia, Poesia Completa, Lisboa, Dom Quixote, 1999.

Manuel Cintra: E dói-me esse rio de já me não amares

E dói-me esse rio de já me não amares
de já me não quereres assim como eu te quero
de não sobressaltares porque sou eu que te espero
em esquinas de lágrima ou sorriso
foi-se o amor chegou o siso
e eu
que não nasci para ter juízo
E dói-me o teu ventre que não afago
como quem depois de amanhã se afoga
e hoje apenas está, dê para o que der
e doa a quem doer
Passam sanguessugas pelos trilhos da memória
umas são mortas, outras são vivas,
outras são glória
de já não existir e teimar em persistir
e eu vou ao vento, sou palmeira seca,
sou teimoso sou frágil sou de teca de cetim
sou uns dias teu, outros assim assim
E dói-me o teu ventre que não afago
como quem depois de amanhã se afoga
e hoje apenas sente, e já pouco quer
para além de seres mulher
E sei que já não sinto o que senti nem sei quem sou
mas seja eu quem for fazes-me falta, ainda és música
perdi a pauta, nada sei cantar, acho que esta conversa
é coça umbigo, vai ter que parar
Mas dói-me o teu ventre que não afago
como quem não sabe nadar
e hoje é de festa, amanhã é de mar
é de mar


Manuel Cintra, não sei nunca por onde, Quasi.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Manuel Maria Barbosa du Bocage: Soneto da Cópula Canina

Quando no estado natural vivia
Metida pelo mato a espécie humana,
Ai da gentil menina desumana,
Que à força a greta virginal abria!

Entrou o estado social um dia;
Mandou a lei que o irmão não foda a mana,
É crime até chuchar uma sacana,
E pesa a excomunhão na sodomia;

Quanto, lascivos cães, sois mais ditosos!
Se na igreja gostais de uma cachorra,
Lá mesmo, perante o altar, fodeis gostosos;

Enquanto a linda moça, feita zorra, 
Voltando a custo os olhos voluptuosos
Põe num altar a vista, a ideia em porra.

Manuel Maria Barbosa do Bocage, Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas, (1854). Obra póstuma.

António Barahona

NAUFRÁGIO

Aves mudas
com olhares secretos
para a sede da terra

Na praia
os grãos de areia em moedas
e as ondas
de mãos inquietas

Passos indecisos
na expiação de pedras
atiradas ao mar

De bruços
aos fundos do oceano
eu prisioneiro das redes
no pensamento dos peixes


SIMULACRO DE SUICÍDIO
POR SOBERBA

O mundo era estúpido demais
para a sua inteligência
- assim pensou e permaneceu calado
perante si próprio
pronto para o último acto

Cavou um abismo ao fundo da água,
calculou a distância entre o som e a sombra,
e atirou-se de pé


Doía-lhe o coração a cair de pedra

António Barahona.

Georges Bataille: História do Olho

Veio-me à ideia que a morte era a única saída para a minha ereção; mortos Simona e eu, o universo da nossa prisão pessoal, insuportável para nós, seria substituído necessariamente pelo das estrelas puras, desligadas de qualquer relação com o olhar alheio, e adverti com calma, sem a lentidão e a torpeza humanas, o que parecia ser o fim dos desenfreados institutos sexuais: uma incandescência geométrica (entre outras coisas, o ponto de coincidência da vida e da morte, do ser e do nada) e perfeitamente fulgurante.


Georges Bataille, História do Olho, (1928).