quarta-feira, 12 de março de 2014

Richard Brautigan

O mesmo me passou a mim uma vez. Lembro-me que em Vermont confundi uma velhinha com um rio de trutas e tive que lhe pedir desculpas – Perdão – Disse-lhe – Julgava que era um rio de trutas – Não – Respondeu ela. (…)



Richard Brautigan, A pesca da truta na América, (1967).

Inês Lourenço: Ícaro

Um cão pertence mais á Terra,
aos seus limites, até ao  último
rio. Mas ao que vive na casa
em frente, foi dado este nome
volátil. Quando só, ele constrói,
como quase todos os cães,
aquele  som agudo de sobrevoar
ausências, que faz do regresso
de qualquer lazarento dono,
o latido solar da alegria.


Inês Lourenço, 
retirado de Projecto Vercial.

Isabel de Sá: Conclusão

Fui amante da morte 
e da beleza. Vi a loucura,
acreditei na vida.
Da infância falei
como lugar de abismo.
O prazer
foi também a grande fonte
de perturbação e alegria.
Lembrei as mulheres
que recusaram submeter-se,
escrevi palavras fúnebres.

Não poupei a adolescência,
o coração magoado
e não soube que fazer
de mim fora das palavras.
Escrevi para desistir
e depender
e ter identidade.

 Isabel de Sá,  Erosão de Sentimentos, Lisboa, Caminho, 1997.

Tiago Patrício: A Literatura e a leitura da luz

O Homem Desempregado gostava muito de ler e tinha um cuidado extremo com o
tipo de luz que seleccionava para a leitura, preocupava-se tanto com este assunto
que muitas vezes se esquecia do que estava a ler e murmurava satisfeito:
– Como é boa esta luz para acompanhar uma leitura.
Passava manhãs inteiras ou semanas à volta da mesma página que tanto podia ser
de filosofia política como de uma lista da toponímia da sua cidade e nem dava conta
da perda de validade de certos livros requisitados nas bibliotecas, o que deixava os
funcionários muito aborrecidos.
Raramente lia à noite, só em último caso, em especial livros de instruções para
alguma tarefa imprescindível ou algum telegrama que lhe chegava depois do
crepúsculo.
Na casa onde morava tinha uma luz franca que iluminava os textos e as suas ideias
mais complexas, mas a partir de uma certa hora o sol deixava de bater na sala
virada para Sudoeste e tinha de sair de casa à procura do poente como de
alimentos para a dispensa. Dobrava a esquina e entrava num largo que se abria
num miradouro sobre o rio, com alguns bancos de jardim que lhe agradavam
sobremaneira. Assim, nos dias amenos, o Homem Desempregado descia as escadas
do prédio e saía para a rua com um livro forrado a papel de jornal debaixo do
braço. Passava por baixo de duas árvores e procurava um lugar com espaço para si
e para o seu livro, entre os grupos de pessoas já instaladas.
Sentava-se cheio de boa disposição, pedia licença e agradecia a amabilidade a
todos aqueles que faziam companhia ao entardecer. Aconchegava o olhar até ao
outro lado do rio, para ficar com uma boa visão periférica e fazia inspirações
semibreves de contentamento. Porém, após ultrapassar as três ou quatro páginas
do seu livro da tarde, começava a ficar incomodado com o excesso de ruído que
não lhe permitia ler sem estar sempre a perder-se com os estímulos, especialmente
com os daqueles que tinham chegado pouco tempo depois dele e já eram
considerados intrusos. Nessas alturas o Homem Desempregado lembrava-se de que
a intolerância aumentava com a permanência e o apego aos lugares. Após longas e
espaçadas inspirações conseguia voltar à leitura da luz, sem contudo deixar de sentir uma certa benevolência por aqueles que conversavam no largo do miradouro
sobre a sua leitura.

 ´
Tiago Patrício, in Cráse número 1.

terça-feira, 11 de março de 2014

Guy de Maupassant: Bel-ami

Tomaram um carro descoberto, subiram os campos Elísios e enfiaram pela avenida do Bosque. Estava uma noite sem vento, uma dessas noites de estufa em que o ar de Paris extremamente aquecido entra no peito como a baforada de um forno. Um regimento de trens conduzia para debaixo das árvores uma multidão de amorosos. Rodavam umas atrás das outras, sem cessar, essas tipoias. Jorge e Madalena entretinham-se a observar aqueles pares enlaçados, passando nas carruagens, a mulher de vestido claro e o homem de escuro. Era uma onda imensa de amantes que transbordava para o Bosque sob o céu estrelado e ardente. Só se ouvia o surdo ruído das rodas no chão. Passavam, passavam, os dois seres de cada carro recostados nos coxins, calados, muito juntos um do outro, perdidos na alucinação do desejo, estremecendo na ânsia da próxima posse. As trevas abafadiças pareciam cheias de beijos. Uma sensação de ternura flutuante, de amor bestial extravasado, pesava no ar, tornava-o mais ardente ainda. Todas aquelas criaturas, embriagadas do mesmo pensamento e do mesmo ardor, faziam correr em volta como uma espécie de febre. Todas estas carruagens conduzindo amor, sobre as quais pareciam voltear carícias, deixavam à passagem como que um hálito sensual, subtil e perturbador.



Guy de Maupassant, Bel-ami, 1885.

domingo, 9 de março de 2014

Rober Díaz: Ecrã

 De ti quisiera música ligera
    tocarte la garganta profunda 
 con mi lengua de píxeles
    sentir las sustancias móviles
como la rabia
    antes que su olor se pierda
         entre tus gritos,


saber cual es el sabor
          dulce o amargo
de tu visión sensacionalista
 
tú ojo

la luz VS. la luz mía
esplendor simultáneo

luz CONTRA luz

tú deslumbrante
    comienzo, TÙ
hiel coagulada

FALSIFICASENSACIÓN

que aparece
   y se esfuma en una interferencia
de placeres
en una antena oxidada
mi yo irradiado
                
                    YO,
       abarcado por tu señal:

         odio, o-dio, o-di-o
                    te,
odio-te, o-dio- te, o-di-o-te,


¿ porqué nunca para tu queja?


Estupidez absorbente,
hambre de hoyo negro
trágame en una calada
         suave y
par-si-mo-nio-sa-men-te


Hazme la noche,
en una operación binaria:
  
abre los ojos/ es la modernidad
cierra los ojos/ es la pos-modernidad
háblale/  que ahí está la entidad metafísica
cállate/  que ahí está la plasticidad laica

hazme sentir
el carbono 14
que vive de  historias
mal contadas


De ti quisiera dance & confusión
para activar los censores contra incendios,
delatarme como un televisor de bulbos
en esta alter-modernidad de fast- track

Soy el ecrã SUPER SLOW

Acércate a la pantalla
              ve
los rastros más insignificantes
     de mi catástrofe
              multimedia
en horario estelar,

los más pequeños detalles
     de mi colapso
              cibernético
en un canal pornográfico,

las huellas más imperceptibles
      de mi crisis
               nerval…

 Rober Díaz, El aerolito  sobre la mosca, México D.F., 2014.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Giuseppe Ungaretti: Na Galeria

Um olho de estrela
nos espia daquele tanque
e filtra sua bênção gelada
sobre este aquário

Giuseppe Ungaretti - tradução de Haroldo de Campos.