sábado, 22 de março de 2014

Eduardo Galeano: A Incessante metáfora

Descobri isto nalgum livro: Quando as escravas negras fugiam das plantações do Suriname, no século XVIII, enchiam de sementes os seus cabelos compridos. Ao chegar aos refúgios, na selva, sacudiam a cabeça e fecundavam, assim, a terra livre. Memorias de Fogo conta muitos instantes desta história. Momentos como este, reveladores da maravilha ou do espanto da aventura humana na América. Porque toda a situação é o símbolo de muitas, o grande fala através do pequeno e o universo vê-se pelo buraco da fechadura. A realidade, insuperável poeta de si mesma, fala uma linguagem de símbolos. Eu comecei a escrever a trilogia no dia em que me dei conta, do que agora é me plenamente evidente: a história é uma metáfora incessante.


Eduardo Galeano, Ser como ellos y otros artículos, México D.F., Siglo veintiuno editores, 1997.
(tradução minha)

Pedro Salinas


O ramo tem os seus pássaros fiéis porque não ata: oferece.

Fragmento de: La rama tiene sus pájaros fieles.

Maria Quintans: A Pata da Cabra

2.

que farás com o medo quando a pecha de roeres as unhas te trans­formar num animal canhoto, contemplativo de trinta anos menos ainda com sono e uma cabra determinada a lamber os nomes intei­ros negados pelos teus dedos de unha grande a açambarcar o poeta que devagar desce a escada de um degrau único? um quinto andar de tortura na memória individual da dor.
que farás com o medo quando a língua se retorcer na boca e a pala­vra for um rasto de sangue vivo, muito vivo na jaula do arroz-doce da tua cozinha francesa?


Maria Quintans, A pata da cabra, Lisboa, Cama de Gato, 2014.

Walter Benjamin

Há um quadro de Klee que se intitula Agelus Novus. Vê-se nele um anjo, no momento preciso em que se afasta de algo sobre o qual crava o seu olhar, tem os olhos desencaixados, a boca aberta e as asas estendidas. O anjo da história deve ter esse aspeto; a sua cara está virada para o passado. Naquilo que nos aparece como uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula sem cessar ruína sobre ruína e se deposita aos seus pés. O anjo quer deter-se, despertar os mortos e recompor o que está despedaçado. Mas uma tormenta desce sobre o Paraíso e faz remoinhos sobre as suas asas e, é tão forte, que o anjo não as pode mover. Esta tempestade arrasta-o irremediavelmente até ao futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto a acumulação de ruínas sobe diante dele até ao céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.


Walter Benjamin, Tese da Filosofia da História, in Ensaios Escolhidos.

Walter Benjamin

Não existe documento de cultura que não seja ao mesmo tempo documento de barbárie. E visto que o documento de cultura não é, em si mesmo, imune à barbárie, não o é tampouco o processo da tradição, através do qual se transfere de  um ao outro.


Walter Benjamin, Tese da Filosofia da História, in Ensaios Escolhidos.


segunda-feira, 17 de março de 2014

Roberto Piva: Manifesto da selva mais próxima


Abolição de toda a convicção que dure mais que um estado de espírito
Alvaro de Campos
Os produtos químicos, a industria farmacêutica & os
miasmas roerão teus ossos até a medula/ cadáver rico
em vitaminas/ rodopios no rio da indústria/ burocratas
ideológicos morrendo de rir/ marxistas que depois que
arrancaram a próstata tomaram o poder/ vastos
desertos no Cérebro/ políticos estatísticas câncer no
rosto vazio das avenidas da Noite/ Mulheres agarrando
garotos selvagens para enquadrá-los no Bom Caminho/
assobios & fome do verdadeiro caralho fumegante/
Robert Graves, Brillat-Savarin & o refrão dos meus
desejos/ Feiticeira Ecológica no Liquidificador
Minotauro/ hortaliças incineradas por mercúrio/
botinadas da KGB & canções lancinantes/ Tempo no
osso/ Televisão/ Centauro na rota da Revolta/
Estrelas penduradas na fuligem/ Catecismo da
Perseverança Industrial/ Os governos existem pra te
deixar com esse ar de cachorro batido/ os governos
existem pra preparar a sopa do General Esfinge/ Os
governos existem para você pensar em política & esquecer
o Tesão/ Batuque Nuclear Anjo-Fornalha/ poesia
urbana-industrial em novo ritmo/ Cidade esgotada na
feiúra pré-Colapso/ recriar novas tribos/ renunciar aos
trilhos/ Novos mapas de realidade/ roteiro erótico
roteiro poético/ Horácio & Lester Young/ Tribos de
garotos nas selvas/ tambores chamando pra Orgia/
fogueiras & plantas afrodisíacas/ abandonar as
cidades/ rumo às prais salpicadas de esqueletos de
Monstros/ rumo aos horizontes bêbados como anjos
fora de rota/ Terra minha irmã/ entraremos na chuva
que faz inclinar a nossa passagem os Guaimbês/
Delinquência sagrada dos que vivem situações-limite/
É do Caos/ da Anarquia Social que nasce a luz
enlouquecedora da Poesia/ Criar novas religiões, novas
formas físicas/ novos anti-sistemas políticos, novas
formas de vida/ Ir à deriva no rio da Existência

Roberto Piva, Hora Cósmica da Águia, São Paulo, 1984.