quarta-feira, 26 de março de 2014

Inês Fonseca Santos: Sobre o asfalto I

Os poemas apanham-se como doenças
mas curam
assim que chegam à base
da existência (O’Neill

tomando banho após quebrar
o gelo). Lá, onde palavra
nenhuma existe, apenas
a tentativa do som.

É sobre o asfalto que tudo existe – e contra
o esquecimento. Mesmo o primeiro poema
sobre a pedra escrito e apagado; o primeiro,
esquecido por todos, causa última

de tanta literatura e interpretação. Lá, onde
a memória já se confunde com a imaginação.
Lá, onde se pode morrer de morte irreal,
lá, onde se pode acreditar:

o pai de Kate fazia nevar
 dentro de um livro.


Inês Fonseca Santos, in Meditações sobre o fim: os últimos poemas, Lisboa, Hariemuj, 2012.

Gino Severini: Primavera em Montmartre


Gino Severini, Primavera em Montmartre, 1909.

José Gorostiza: Muerte sin fin (Parte II)

¡Más qué vaso -también- más providente!
Tal vez esta oquedad que nos estrecha
en islas de monólogos sin eco,
aunque se llama Dios,
no sea sino un vaso
que nos amolda el alma perdidiza,
pero que acaso el alma sólo advierte
en una transparencia acumulada
que tiñe la noción de Él, de azul.
El mismo Dios,
en sus presencias tímidas,
ha de gastar la tez azul
y una clara inocencia imponderable,
oculta al ojo, pero fresca al tacto,
como este mar fantasma en que respiran
-peces del aire altísimo-
los hombres.
¡Sí, es azul! ¡Tiene que ser azul!
Un coagulado azul de lontananza,
un circundante amor de la criatura,
en donde el ojo de agua de su cuerpo
que mana en lentas ondas de estatura
entre fiebres y llagas;
en donde el río hostil de su conciencia
¡agua fofa, mordiente, que se tira,
ay, incapaz de cohesión al suelo!
en donde el brusco andar de la criatura
amortigua su enojo,
se redondea
como una cifra generosa,
se pone en pie, veraz, como una estatua.
¿Qué puede ser -si no- si un vaso no?
Un minuto quizá que se enardece
hasta la incandescencia,
que alarga el arrebato de su brasa,
ay, tanto más hacia lo eterno mínimo
cuanto es más hondo el tiempo que lo colma.
Un cóncavo minuto del espíritu
que una noche impensada,
al azar
y en cualquier escenario irrelevante
-en el terco repaso de la acera,
en el bar, entre dos amargas copas
o en las cumbres peladas del insomnio-
ocurre, nada más, madura, cae
sencillamente,
como la edad, el fruto y la catástrofe.
¿También -mejor que un lecho- para el agua
no es un vaso el minuto incandescente
de su maduración?
Es el tiempo de Dios que aflora un día,
que cae, nada más, madura, ocurre,
para tornar mañana por sorpresa
es un estéril repetirse inédito,
como el de esas eléctricas palabras
-nunca aprehendidas,
siempre nuestras-
que eluden el amor de la memoria,
pero que a cada instante nos sonríen
desde sus claros huecos
en nuestras propias frases despobladas.
Es un vaso de tiempo que nos iza
en sus azules botareles de aire
y nos pone su máscara grandiosa,
ay, tan perfecta,
que no difiere un rasgo de nosotros.
Pero en las zonas ínfimas del ojo,
en su nimio saber,
no ocurre nada, no, sólo esta luz,
esta febril diafanidad tirante,
hecha toda de pura exaltación,
que a través de su nítida sustancia
nos permite mirar,
sin verlo a Él, a Dios,
lo que detrás de Él anda escondido:
el tintero, la silla, el calendario
-¡todo a voces azules el secreto
de su infantil mecánica!-
en el instante mismo que se empeñan
en el tortuoso afán del universo.

Inês Ramos

Decidi escrever três dias antes da morte
como se a morte tivesse vindo há três dias.
Tenho fome, mas ignoro-o
Uma morta não come.

No entanto
 tenho uma ligeira dor de cabeça.
Enterraram-me ao lado do bosque negro de ébanos erectos
que uivam desalmadamente.

Na casa, silenciosa
a empregada lava o chão da entrada.
E no meu quarto, a minha mãe dorme
agarrada ao meu bilhete.
No chão, aos pés da cama, os meus sapatos
a minha saia verde nas costas da cadeira
e o frasco dos comprimidos vazio,
sobre a mesa de cabeceira.

Minha mãe está velha. Terrivelmente velha.
Mais velha do que a filha morta.

Afago-lhe os cabelos brancos
sento-me à secretária
e escrevo um bilhete.
Mãe morri há três dias.
Desculpa só te escrever hoje.


Inês Ramos, in Meditações sobre o Fim: os últimos poemas, Lisboa, Hariemuj, 2012.

terça-feira, 25 de março de 2014

Inês Ramos

Perturbam-me as sombras da casa

os uivos das janelas

os olhares das fotografias nas molduras.

O chão do corredor que range quando o atravesso

as vozes dos vizinhos de baixo, as portas que batem.

Perturba-me o empregado do restaurante em frente

que me vigia quando fumo à janela.

Perturbam-me os arrulhos dos pombos

as obras intermináveis do prédio em frente

o gato morto e já ressequido no quintal da vizinha

o estar longe, o estar só.

Perturba-me o cheiro do cinzeiro

o chiar da porta da cozinha

o bolor dos pimentos há meses no frigorífico.

Perturba-me esta constipação

as chávenas com rachas

o não ter limões, o sangue nas mãos.

Partiu-se o frasco do mel.

Inês Ramos, in e chorava como quem se diluía em mel d’abelhas, Lisboa, Tea For One, 2013. (Coleção Matéria Mínima)


domingo, 23 de março de 2014

As Abelhas Produzem Sol II


O ar está carregado de ferro e eletricidade, está húmido, da janela vejo que falam dois amantes, vão carregados de luz nas duas partes, cada um leva dela a parte que os voltará a unir, vêm um homem que urina na parte exterior do elevador do metro, no cimento fica a mancha um pouco abaixo do grafiti que apareceu há poucas semanas, numa mancha de fundo cor-de-rosa onde está escrito a negro que tudo passa e tudo é prova – O planeta gira mais um pouco até que a luz chega aqui vinda do fundo, cortada por dois prédios e chega depois toda, num riso cheio, numa onda e depois noutra e noutra maior, a luz vem com os homens que vão descer rápido para o metro. Ainda está carregado, passam as camionetas na avenida vindas dos bairros de oriente, carregadas das pessoas que são trabalhadores no ocidente, na outra parte da cidade, o movimento que não se detém. Agora em sentido contrário os carros que passam no verde, o trólei ligado aos ferros e as pessoas que vão neles nas duas direções, o movimento impessoal dentro dos carros agora que chove e que a luz digna conduz para sul, para norte, no cruzamento que vejo da janela como um ponto – a luz que se dirige em todos os sentidos e trabalha, digna, trabalha, o semáforo verde e o vermelho ordena o trânsito e quando não funciona (já assistimos a três acidentes na mesma noite) a luz que regula o trânsito (vermelha verde vermelha) a luz que direciona, prevê, cuida, a luz que é homem e colocou a luz que trabalha, a luz que o homem criou. E agora na minha cama sinto o coração central do movimento, a luz que colocou outra luz para dirigir a luz - para criar a luz: Não outra, mas a mesma, a extensão do homem, o animal de riso cheio e que se estende – ouvimos a sirene, o cuidado (a polícia, as ambulâncias) quando ele se suspende, se abeira, se ri, vemos os reflexos rápidos, talvez num pequeno apartamento acima do nosso alguém esteja a escrever sobre a Supra Realidade, ou a rechear o forno, a hippie e o cão a dormir. O nosso núcleo a ser formada dentro de ti, a continuação impessoal da luz. Agradeço o dia. As manchas de sol no homem e a dignidade da luz, caminhamos com decisão em todos estes movimentos que nos cruzam, o prédio vê-se de fora sem chamar qualquer atenção. Tocamos, acendemos pontas - Temos na boca o animal invencível que tudo acende, o que nomeámos em todos os cruzamentos, que chamamos sobre todas as formas, o que regula, o que cria - o que acelera - dois manifestos, uma carta de pedido de emprego, a jamaicana que sai a chorar do serviço de emigração, os dois chineses exaltados. Difícil imaginar que o movimento seja a nossa casa, na cama entre a estrela-almofada entrelaçamos as pontas num mesmo movimento. O verde, o vermelho, o verde outra vez, há também o amarelo a mancha azul e vermelha silenciosa que às vezes a meio da noite nada no nosso quarto quando as patrulhas dos polícias param em frente da loja de conveniência. A estrela abraçada, as várias pontas que se cruzam, as células riem-se, as pontas cruzam-se e nadam na cama, ainda no cruzamento do sono com a vigília, as nossas células riem-se e dentro delas a luz trabalha e cresce. O verde, o vermelho, o verde outra vez. Em ondas o azul e vermelho do carro patrulha. Subtraído o vermelho, no fim fica só uma mancha azul.
Eu ouvi pela primeira vez Mahler no carro de um poeta que partiu. Ainda que a música procurasse reproduzir o movimento do mar, a luz vinha em ondas cada vez maiores.

A nadar em estrela na cama

A Dignidade de que falava Pico.
 Nuno Brito.