segunda-feira, 21 de abril de 2014

Joaquim Namorado

 Edital

Foi afixado
nos locais do costume
que É PROIBIDO MENDIGAR.

Logo mão que se descobre
Escreveu a tinta por baixo
MAS NÃO É PROIBIDO SER POBRE.

Joaquim Namorado, (A Poesia Necessária). 



Vitorino Nemésio

Pão Nosso

 Deus deu esta manhã trigo aos moinhos,
Cortava o pão ainda uma faca bota.
Da música dos ninhos não se ouvia uma nota.

Que o pão cortado não deve
Coisa aérea alterar:
Flores, aves, tudo isso é leve
E suor do rosto é pesar.

Pão nosso, quanto mais duro
Mais a água gosto tem.
Linho branco, pinho escuro:
Assim é que sabe bem.


Vitorino Nemésio, (Nem toda a Noite a Vida)

Vitorino Nemésio


 32.

O sol fechou o dia
Sem mão nem chave;
A pouca luz que havia
Deu-a para uma ave.

Então a ave selou
Com seu sono seu ninho,
E a terra toda amou
Na casa do passarinho.

Um ovo é como uma chave,
Mas só abre a vida às penas.
Apetece ser ave,
Ter as mágoas pequenas.


Vitorino Nemésio, (Eu, Comovido a Oeste)

sexta-feira, 18 de abril de 2014

R. W. Emerson


 Cada novo acto da experiência individual lança uma luz sobre o que fizeram os grandes conjuntos humanos e as crises do individuo fazem referência às crises nacionais.
(…)
Tudo o que Shakespeare diz ao Rei, o rapaz que o lê numa esquina crê que é aplicável a si mesmo.
(…)
O homem devia ver que pode viver toda a história na sua própria pessoa.
(…)
Vivenciamos continuamente os factos mais destacados da História da Humanidade na nossa experiência individual, no sítio e momento exacto em que nos encontramos. Não há propriamente História, mas só Biografia.
(…)
Devemos ver em nós mesmos a razão necessária de todos os factos.


Ralph Waldo Emerson, História in Ensaios Escolhidos (1841).



Shane MacGowan: Rainy Night in Soho: (The Pogues)



I've been loving you a long time
Down all the years, down all the days
And I've cried for all your troubles
Smiled at your funny little ways
We watched our friends grow up together
And we saw them as they fell
Some of them fell into Heaven
Some of them fell into Hell

I took shelter from a shower
And I stepped into your arms
On a rainy night in Soho
The wind was whistling all its charms
I sang you all my sorrows
You told me all your joys
Whatever happened to that old song
To all those little girls and boys

Sometimes I wake up in the morning
The gingerlady by my bed
Covered in a cloak of silence
I hear you talking in my head
I'm not singing for the future
I'm not dreaming of the past
I'm not talking of the first time
I never think about the last

Now the song is nearly over
We may never find out what it means
Still there's a light I hold before me
You're the measure of my dreams
The measure of my dreams

domingo, 13 de abril de 2014

Inês Fonseca Santos

Por muito que

…como se correr perigo não fosse talvez a minha mais profunda razão de vida

Ruy Belo


Como se correr perigo não fosse talvez
a minha mais profunda incapacidade

(por muito que os significantes possam significar)

escrevo melhor nos sítios onde o papel se desfaz
durante o mergulho
no banho
à chuva

num dilúvio, sei, teria escrito apenas

isto

Inês Foneca Santos, in Revista Correntes de Escrita, 2014.

Plínio, o Jovem


Nunca li um livro tão mau que não me permitira tirar o mínimo proveito dele.
                                                                                                       Plínio, o Jovem.

Citado a partir de Tristan Shandy - Laurence Sterne