sábado, 10 de maio de 2014

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Rui Pires Cabral

SUPER-REALIDADE
estranho à franqueza dos teus modos, baço
para os teus sentidos.
Parávamos o carro num beco qualquer,
queimávamos o rastilho das palavras
até ao deserto onde dávamos as mãos.
Lá fora, a realidade era o espaço inteiro
deitado nos vidros, o mundo caído
para dentro do silêncio.
Gastávamos depressa o tempo, perdidos
no nosso único mapa,
nenhum sinal de mudança no regresso a casa.

Rui Pires Cabral, A Super-Realidade, Lisboa, Língua Morta, 2011.


Inês Dias


Requiem para um pássaro e um autocarro perdido 
Mais um dia
Em forma de pássaro morto.
Uma amálgama ainda quente
da manhã que nasce, espécie de beleza
desmanchada a que nem o nosso olhar
consegue servir de pietá. O vento
teima em agitar uma ou outra pena,
mas não há golpe de asa que o arranque
agora ao asfalto negro.

Partilhamos, no fundo, a impotência:
o destino que o esmagou
é o mesmo que esperamos para
embarcar sem surpresas, sem direito a atrasos.
A essa indiferença cansada prefiro
a do outro pássaro que, lá muito em cima,
hoje ainda mais, refaz a traços negros
a vida. É por esses instantes

de voo que aceito continuar a aprender.

Inês Dias, In Situ, Língua Morta, Lisboa, 2012.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Beatriz Hierro Lopes

rio adentro


Um dia direi que soube de gente, ínsuas injectadas rio adentro, transbordando peito afora como enchentes que lavam de cinza os meus olhos, os teus olhos, os deles ou mesmo destes que nunca souberam, vidro ardendo entre pulsos na vez da lanterna de deus, ao alargar o abraço à margem costeira em que fantasmas marcham entre fogueiras, madrugadas inteiras em que eu, tu, eles ou aqueles dormem. Antes que a primeira maré nos venha salgar pés, tornozelos, pernas ou beijos, somos destes, destes que temem cada corredor, cada passo vagaroso, cada barra de aço ou simples saco de soro: o movimento involuntário do corpo ao aspergir sal sobre rosto de mães, irmãs e irmãos, filhos e mulheres. Um dia direi que soube dessa gente, ínsua injectada rio adentro, e que é meu o sal – só meu – a salina mais perfeita de que outros se alimentaram.

Beatriz Hierro Lopes,

Catarina Santiago Costa

PLUTÃO

A oriente 
lambia o sol
da manhã aliviava
o rubor da queimadura
com um gole de água fria
e um fio de azeite na língua.
Perseguia-o o resto do dia
até tombar na distracção
do mar em vertigem
sem veneração.
Sonambulismo
e nada mais.

Catarina Santiago Costa
Retirado de Enfermaria 6.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Os beijos que vais dar


Os beijos que vais dar

Na entrada e na saída do metro, nas carruagens, rápidos, longos, os beijos que vais dar na praia, na montanha, no carro, as mãos que vais dar, rápidos, longos, o sol que tantas vezes se vai ver a ele próprio nos teus olhos, os beijos no elevador, no carro, na faculdade, que vais dar, as mãos rápidas, os braços que te vão abraçar, os sinos passados, fotografias, as torres que vais subir, os espelhos todos em que te vais ver, segura, extremamente segura, linda, feia, obcecada, feliz, vazia, cheia, gorda, magra, dando-lhe as costas, experimentando vestidos, feliz, sentindo que a vida é um mergulho, dando a volta, que não há tempo, que há muito tempo, extremamente feliz, a euforia, o tédio, o que vais ver e dar, os sonhos abandonados, os sonhos realizados, a salitre depois do mergulho, o sol que vai ficar sempre dentro de ti e que tantas vezes se vai ver ao espelho em ti – e dentro, a corrente de vida segura, a felicidade extrema, a felicidade-mergulho ou a felicidade-estrela, as portas que vais abrir, a vida com todas as suas pegadas, dias vazios, dias citrinos, dias de chumbo, de calor ou de frio – mas dias de ganhar sempre e ganhar sempre contra ninguém, vais sentir neve nos olhos, neve nos pés, abraços nos pólos, abraços no centro, um olhar para cima que te vai libertar, sentir-te protegida, abraçada, ter recordações que te vão magoar, que te vão fazer mais forte, que vais ter que esquecer, os beijos que vais dar – no metro, rápidos na subida do autocarro, atrás, dentro, fora dos prédios, a chuva e o vento que te vai bater, todas as cores que vais vestir, todas as formas que vais tocar, sentir, modelar, guiar e ser guiada, pela estrela ou como estrela. Mas pensa, guarda e mantém, em todos os momentos, que está sempre ao teu lado o Capitão Soninho, ao lado de todos os beijos e de todas as páginas que vais virar, marcar, reler, saltar rápido, comer - páginas, capítulos - marcados, sublinhados, limpos, abandonados, livros que vais esquecer numa paragem, num autocarro, ou que vais querer incendiar, poemas que vais deixar em sítios a que não voltas – acidentes voluntários ou involuntários, conquistas, perdas que não existem, ajustes - Paginas rápidas, demoradas, relidas, reescritas, apagadas, riscadas, escritas nas margens, escritas no fundo, escritas por cima - Sempre escritas por cima com o privilegio de renovar, em varias cores e fundos. Em muitos espelhos te vais sentir desejada, sozinha, cheia, desejada com mais força, um diadema verde, o cabelo liso, puxado para trás, apanhado, comprido, curto, pintado, frisado nos dias de verão e a mudança percetível e palpável na libido do planeta que sempre gira sem que nos demos conta enquanto mudam ainda mais rápido as linhas da tua mão, a cada nascimento e decisão - Endireitar umas, fortalecer outras, encaminhar, orientar - Encaminhar com mais força a vitória, que se for verdadeira, nunca aceitará que haja um único homem derrotado. E em todas elas vais sentir o Capitão Soninho ao teu lado – a dar-te a segurança quando mais precisares de segurança e a dar-te o sono quando quiseres dormir, a vigília quando mais precisares dela. Calor, segurança e milagres quando deles precisares. Sempre, o Capitão, com a estrela debaixo do braço, nos caminhos, túneis, autoestradas, carris, funiculares, elétricos, desertos, decisões, Caminho enfim: num único símbolo resumido; em todo ele, em todos eles, o capitão ao teu lado com a estrela debaixo do braço e nos seus olhos refletidos os beijos que vais dar – Enquanto o sol se vê a si mesmo, em nova e maior escala, como quem nada nos teus olhos, vindo em raios rápidos outra vez enquanto dormes. Escrevo rápido contigo no colo.

                                                                                                     Nuno Brito.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Homero Pumarol

JACK VENENO HA MUERTO
Esta mañana en el carro rojo de Deseo
dando vueltas al Parque Independencia
mientras intentaba enrolar un tabaco
en la portada del National Geographic
lo pude leer con estos ojos
JACK VENENO ha muerto.
Deseo inmediatamente rompió aguas,
así de feo, así de cero, así mismo,
sí, ese es su deseo,
y lloró y lloró y lloró
porque además no encontramos
una puta suficiente para los dos
y porque no hay nada que hacer sino llorar
y dar vueltas al Parque Independencia
que es el parque más feo de la bolita del mundo.
...y llorar y dar vueltas al parque Independencia y al tabaco
y terminar de enrolarlo a lágrima viva
del mismo lado de la calle El Conde,
entre los borrachos de a pie, los maniceros,
las barrigas verdes de polyester de los policías,
los carros públicos, las guaguas voladoras
y siete locos que iban corriendo, llorando, gritando
"degracimao, hijoetumalditamai, mamagüebo"
a un pintor que corría y lloraba y gritaba más rápido que ellos
y que les había robado todas las piedras
que ahora ellos no tenían y que ya nunca nadie podría tirar.
JACK VENENO ha muerto,
el campeón de la bolita del mundo,
el líder de la cuadra de los técnicos,
que luchó en mi sueño a trío con Blue Demon y El Santo
contra Frankenstein, El Hombre Lobo y La Mujer Maravilla;
JACK con Forty malt, un brazo de poder en cada cucharada,
con el salami especial de mallita,
con SangYang ahí van,
champú, rinse y acondicionador BPT,
con Avispa al pelo y piojo al suelo,
JACK saltando con la bota preparada
desde la tercera cuerda hasta el infinito;
el hijo de Doña Tatica,
el hombre de pelo en pecho,
que venció a Rick Flair con la polémica
por la faja mundial,
que acabó con El Vampiro Cao
y con La Gallina Relámpago Hernández.
Relámpago te jodieron,
Relámpago te agarraron comprando crack en Catanga,
Relámpago qué mierda es el congreso,
en mi inodoro ha crecido una mata gigante,
hay telarañas en los lavamanos,
tengo seis días sin luz,
la policía pone cada vez más cara la yerba,
mezclan la coca con azúcar de leche
y al final uno parece cada vez más una gallina
picoteando polvo en el vacío.
Relámpago vuelve a la cuadra de los rudos,
te lo piden los muchachos de La Victoria,
Relámpago vuelve por Deseo, por Vickiana, por Luis Días,
por Aramis Camilo y su organización secreta.
JACK VENENO HA MUERTO
Nietzsche lo sospechó desde un principio,
Deseo aún no para de llorar
y no hay una sola puta suficiente
en todo el Parque Independencia.
Homero Pumarol, Cuartel Babilonia.