domingo, 15 de junho de 2014

Carlos Alberto Machado


Fodidos e Resignados

Resignação é haver proletariado
sem ditadura e o socialismo
na gaveta dos administradores
dos bancos que emprestam o dinheiro
do estrangulamento futuro dos teus filhos
que maltratam os filhos dos outros
e os dos outros os teus em directo na tv
que é para parecer liberdade
e democracia que é aquela coisa
misturada com sangue coalhado
a feder na imensa vala comum
do “não me venhas dizer
Que preferias o fascismo e a ditadura?”
preferir por preferir prefiro
um longo pano negro
a tapar a vergonha de ser
deste país de homens e de mulheres
forrados a pele de “antes assim que”
rotinados republicanos laicos e socialistas
empanturrados d’hinos e bandeiras menstruadas
a disfarçar o medo
e a fingir o futuro
fodidos
todos.

Houve aqui alguém que se enganou?
Naturalmente.

A veia aberta da revolução
entulhada com dez milhões
de telemóveis.

Revolução a vir? Claro:
McDonald’s ou Morte!

Carlos Alberto Machado, in 40XAbril, Lisboa, Abysmo, 2014. 

sábado, 14 de junho de 2014

Herman Melville


O fim de uma viagem longa e perigosa não é mais do que o princípio de outra e logo de outra, assim incessantemente até ao fim, são assim intermináveis e intoleráveis todos os esforços terrestres.


Herman Melville, Moby Dick.

Claudio Magris


 Toda a Narrativa é um paradoxo, um jogo de espelhos sem fim


Claudio Magris, Danúbio.


Pedro Eiras

A sociedade não pode despedir a poesia, a poesia é que pode despedir a sociedade


Pedro Eiras, A Lenta Volúpia de Cair.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Raúl Brandão (sobre Guerra Junqueiro)

Março de 1904

Veio a Lisboa acompanhar, por solidariedade, os lavradores do Douro o poeta
Guerra Junqueiro. É outro homem, que perdeu talvez em exterioridades mas ganhou em
funda emoção. Tendo-se-lhe um dia deparado universais interrogações no caminho;
tendo encontrado frente a frente, ao meio da vida, ideias abaladoras, que só o homem de
génio pode encarar sem o pavor e o deslumbramento que o grande mistério comunica –
as raízes do universo –, ele mudou de rumo, tão simplesmente como se praticasse o acto
mais banal da existência. Sendo já um dos maiores poetas da Europa – quis ser também
um santo... Durante anos procurou como Fausto o segredo da Vida no fundo dos
laboratórios. E noutra fase do seu espírito decorativo, tendo entrevisto, pelo poder do
génio, novas veredas a tentar, seguiu-as, fazendo experiências que a ciência de hoje
plenamente confirma.
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Guerra Junqueiro está na mesma: alguns fios brancos a mais na grande barba de
santo, começo de calva amarelada no alto da cabeça, chapéu baixo, uma simplicidade de
trajo que vai bem com a simplicidade verdadeira ou fictícia da sua alma. E sobre isto os
olhos terríveis que nos fitam e nos adivinham até ao fundo. A conversa é prodígio que
evoca, ilumina, toca em todos os problemas da vida, dando-lhes uma grandeza e novos
aspectos que entontecem.
Fala-se a propósito dum livro, e ele diz, não palidamente, nem decerto com as
inexactidões com que reproduzo, o seguinte:
– É um livro interessante. O autor conseguiu deixar faiar a parte de inconsciente
que cada um de nós traz consigo... Porque, meu amigo, a porção do infinito que cabe a
cada homem é exactamente a mesma. O camiseiro ali defronte e um homem de génio
têm na alma idêntico quinhão. Somente, o camiseiro não consegue encontrá-la nem
pode exteriorizá-la. Porquê? Porque só pensa em camisas. O homem é o universo
reduzido... Que cada um pudesse deixar-se narrar – e teríamos a mais maravilhosa
história do Mundo.
E como incidentemente se refira à ciência, ei-lo que se desvia por outro
esplêndido caminho:
– As últimas descobertas modificaram completamente a ciência. Fm um
terremoto. E eu entrevi isto mesmo: há anos que chegara ao seguinte resultado: –
radiação universal e desassociação dos átomos. Fiz experiências, que me deram
resultados incompletos, procurei homens de ciência, que não me quiseram atender. Um
dia vim de propósito a Lisboa falar a Sousa Martins e expus-lhe as minhas teorias.
Ouviu-me... Quando me fui embora, encolheu decerto os ombros. E, no entanto,
passados anos, vejo confirmado experimentalmente tudo o que eu previra... Que quer?...
Faltavam-me, como compreende, os meios de verificação. Precisava de factos.
Cala-se um momento e depois continua:
– Hei-de publicar, depois da Oração à Luz, que sai brevemente, uma série de
memórias com os resultados dessas experiências. A vida – é o Amor e a Dor. Procurar
as suas leis, eis tudo. Seguir-se-á a minha teoria filosófica. Adivinhei todo este
terremoto que se deu n1timamente na ciência. Hoje, a matéria não existe: já a definem –
associação de energias. Que é feito dos materialistas? A ciência futura será portanto o
estudo de energias. Por último publicarei uma introdução à ciência, visto não poder
escrever essa obra: seria a revisão dos trabalhos de Spencer – a tarefa de toda uma vida.
– E tem muitos documentos?
– Tenho tudo pronto. Necessito apenas de encontrar a forma precisa, a forma
matemática, para exprimir as minhas ideias.
Incansável. É de ferro. Pequeno e mirrado, passeia horas e horas a conversar...
Não conversa – monologa.


                                                       Raúl Brandão, Memórias Vol. I.

Raquel Nobre Guerra: Há dez anos que escrevo o mesmo poema

Há dez anos que escrevo o mesmo poema
no mesmo café.
Esta ideia arrumada nesta cadeira triste
todos os dias no mesmo sítio.
Até que me venham bater à porta
ando meio distraída nisto. 

Falam-me da barbárie e dos seus irmãos brutos
mas ninguém falou ainda da flor de Coleridge
nem das pernas melancólicas dos meus amigos. 

Exceptuando isto penso no imenso com os dentes.
Penso num serviço de chá e numa porta de serviço.
Penso num chão absoluto no petróleo e na lixívia.
Penso na tua cabeça enunciativa e és um Rolls
às nove e meia da noite para toda a parte comigo. 

Exceptuando isto talvez não se morra e ninguém
desça à guerra e ao medo senão pelos livros.
Penso no amor e exceptuando isso está frio
e a mudança de hora e a jukebox
e contar-te os meus medos porque penso nisto há dez anos
que penso nisto. 
Cruz na porta da tabacaria e o teu cabelo
cortado à escovinha.
Há dez anos que desconfio do mesmo poema 

forma inteira do homem para diante
                                                e de diante para o abismo  

E poder ser livre e fumar na cama
com a excitação de arder numa linha. 

É que Sócrates nunca escreveu.
Milton ao menos fingia.
No fim de contas caía bem.
Um Kropotkin e uma bica.

E convicção ser do teu signo.
Porque uma coisa nos atraía.
Fome não era adição.
Erecção não era cinismo.
Porque havia motivo para risos. 

Tu nunca te atrasaste.
Tu nunca te mataste.
Porque enfim não mentiste 
que há dez anos que escreves o mesmo poema 

tu que só queres o sol
para descê-lo para descê-lo
ilha dos amores

no mesmo corpo no mesmo casaco
apoiado à esquerda do meu braço. 

Raquel Nobre Guerra, Cadernos de Poesia nº 2, Lisboa, Enfermaria 6, 2014.


sábado, 31 de maio de 2014

Thomas Hobbes


Artificialmente se cria esse grande Leviatã, chamado Confederação ou Estado (em latim Civitas) que não é mais do que um homem artificial.

Thomas Hobbes, Leviatã (1651).