quarta-feira, 9 de julho de 2014

Clarice Lispector. Precisão


O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

Clarice Lispector

Luís Miguel Nava. O Corpo Espacejado

Perdia-se-lhe o corpo no deserto, que dentro dele aos poucos conquistava um espaço cada vez maior, novos contornos, novas posições, e lhe envolvia os órgãos que, isolados nas areias, adquiriam uma reverberação particular. Ia-se de dia para dia espacejando. As várias partes de que só por abstracção se chegava à noção de um todo começavam a afastar-se umas das outras, de forma que entre elas não tardou que espumejassem as marés e a própria via láctea principiasse a abrir caminho. A sua carne exercia aliás uma enigmática atracção sobre as estrelas, que em breve conseguiu assimilar, exibindo-as, aos olhos de quem o não soubesse, como luminosas cicatrizes cujo brilho, transmutado em sangue, lentamente se esvaía. Ele mais não era, nessas ocasiões, do que um morrão, nas cinzas do qual, quase imperceptível, se podia no entanto detectar ainda a palpitação das vísceras, que a mais pequena alteração na direcção do vento era capaz de pôr de novo a funcionar. Resolveu então plastificar-se. Principiou pelas extremidades, pelos dedos das mãos e pelos pés, mas passado pouco tempo eram já os pulmões, os intestinos e o coração o que minuciosamente ele embrulhava em celofane, contra o qual as ondas produziam um ruído aterrador.

Luís Miguel Nava, revista Colóquio Letras, n.º 100, p. 116, Novembro de 1987.


Rui Caeiro. Bar dos 4 Gémeos


                Para o Manuel de Freitas

E se por acaso quiseres beber, tens
não direi toda a terra pois tudo
aquilo que nela há é escasso
mas uma estreita faixa em forma
de rectângulo ou em forma de país
e lá dentro à beira mar uma cidade
grande bonita e feia que é até
a capital e lá um largo – Praça do Rossio,
assim chamada – e lá um bar
(ah, finalmente) mas um bar
a céu aberto, sem balcão de zinco
e sem barman, sem tamboretes
nem cadeiras e também sem copos
nem garrafas, mas bar à mesma
- dos 4 gémeos, assim chamado –
situado cerca do meio da praça
e se por acaso tiveres mesmo sede
abeira-te deles (isto é, dos 4 gémeos
em bronze), põe a cabeça a jeito
aproxima a boca e bebe, consoante
a sede que for a tua, e bebe - água,
que é o que há lá para se beber.


Rui Caeiro, Revista Criatura nº 5.

Rui Caeiro. Um fio que te prende à vida


À semelhança de qualquer mortal,
tens a vida presa por um fio.
Uma espécie de fio de nylon mais ou menos resistente, mais ou menos frágil e quebradiço. Que te prende à vida.
....
O fio, esse fio, até podia ser baço ou resplandescente, pouco adiantava para o caso. Como não adiantava a circunstância de um deus qualquer estar a segurar numa das pontas.


Rui Caeiro, Um fio que te prende à vida, Lisboa, Língua Morta, 2011.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Ted Hughes. Fidelidade

Era um lugar para viver. Andava
só a ver passar o tempo, a namorar-te,
a flutuar na maré da manhã com as confusas sensações
dos meus vinte e cinco anos. Esvaziada e redecorada
À la mode, a Alexandra House
tinha-se tomado a sopa dos pobres. Estes eram os dias
anteriores à moda vanguardista dos cafés.
A ruidosa cantina do Restaurante Britânico,
uma das marcas deixadas pela guerra,
era um lugar para retemperar noitadas com pequenos-almoços.
Mas a Alexandra House era o lugar onde se ia para ser visto.
As raparigas que recebiam viviam no andar de cima,
acompanhadas por um grupo de perdidos, pessoas que só
  dormiam de dia,
exaustos de andarem pela noite. Nem sei como
consegui um colchão ali, num quarto do andar de cima,
com vista para Petty Cury. Um colchão
sem mais, em cima de umas tábuas nuas, num quarto vazio.
Era tudo o que eu tinha, o meu caderno e aquele colchão.
Sob os pegajosos ouriços dos castanheiros que se abriam,
pelo mês de Junho, abandonei o emprego, preocupava-me
só contigo, esbanjando tudo o que tinha poupado.
Livre da Universidade perdia-me
nas suas liberdades. Todas as noites
dormia naquele colchão, debaixo de uma manta,
com uma rapariga encantadora, que acabava de se escapar
ao marido para aquela experiência limite
de servir na sopa dos pobres. Que
cavalheirismo se apoderou de mim? Penso nisto tudo
como se tivesse acontecido num tempo que nunca passou,
que nunca usei, e ainda está, portanto, em meu poder.
Essa rapariga e eu dormimos nos braços um do outro,
nus e tranquilos como amantes, todas as noites, durante um mês,
sem nunca termos feito amor. Uma qualquer lei sagrada
tinha sido inventada só para mim.
Mas também ela lhe obedecia, como uma sacerdotisa,
delicada e meiga e completamente nua a meu lado.
Seguia com o dedo os arranhões que tu tinhas acabado
  de inscrever
a toda a largura das minhas costas, e até parecia que se queria
  juntar a mim
na minha obsessão, na minha concentração,
para manter a minha preocupação intacta.
Nem uma única vez me convidou, nunca tentou nada.
E eu nunca movi um dedo para além
de um consolo fraterno. Eu era como uma irmã,
e aquilo nunca me pareceu antinatural. Estava absorto,
tão fechado em ti, de uma forma tão cega,
que tudo o que não fosses tu não existia para mim.
E ainda hoje medito — embora já tenha dúvidas
se é motivo para me orgulhar, ou para me lamentar. A sua amiga
tinha um quarto maior, e era mais selvagem.
Mudámo-nos e ficámos no quarto dela. Aquele quarto enorme
transformou-se em dormitório e em quartel-general
alternativo a St Botolph’s. Bonita e roliça,
com um desenvergonhado riso de dentes ralos, esta
  sua amiga
fez tudo o que pôde para me ter dentro dela.
E nunca saberás da batalha
que eu travei para manter o sentido às minhas palavras,
no mundo que nós estávamos a construir.
Eu tinha medo que, se perdesse aquela luta,
alguma coisa nos abandonasse. Erguendo do solo uma
daquelas raparigas nuas, enquanto elas me sorriam
nos seus vinte e poucos anos, coloquei-as
no limiar do nosso improvável futuro
como aqueles que, precisando de proteger a sua casa
tinham por hábito sepultar, no limiar da nova casa,
uma criança inocente.



Ted Hughes, Cartas de Aniversário, Lisboa, Relógio d’água, 2000.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Rosa Maria Martelo. Azuis


I.
 Não sei se o fio do horizonte separa ou junta dois azuis. Faz rimar azul com azul, mas é talvez falsa, essa rima. O finito e o infinito, e ao meio uma só linha a cerzir azul com azul: céu e mar não rimam, e no entanto haverá rima mais perfeita? O mar, e depois dele o outro azul (que às vezes parece negro), assim por esta ordem. Ou é apenas falsa rima, a esconder, noite com noite, uma outra noite maior e mais dispersa?

(...)

Rosa Maria Martelo, Matéria, Lisboa, Averno, 2014.

Rosa Maria Martelo. Constelações

Houve sempre coisas magníficas
e muitas até de trazer no bolso
como a chama do isqueiro
pronta a refazer-se em luz e fogo aceso.
E apenas direi toda a verdade se disser
ter tido sempre ao alcance da mão
a perfeição: as cores dos frutos, um ovo
ruídos como os que fazem os ralos
na espessura do calor ou uma tesoura grande
em mesa de madeira. Havia, de verão, o vento leste,
e castanhas entre fumos ao fundo de uma rua
no inverno. Tudo isto, sim,
e ainda existe. Na parede, a cada risco
sobe pelos anos a altura dos meus filhos.
E havia dizer: também pensas assim? E os olhos
frágeis onde uns aos outros mais amamos,
que é no desamparo de nos sabermos sempre tão perto 
da tristeza, tão perto de um cão, ou de seres mais altivos,
como os gatos esquivos por causa disso, bichos.
Havia fazer de conta que não era isto,
Que não se via a inteireza crua disto.
Mas era quando mais assim que a vida cintilava
nos reflexos do fogo. Como um vidro antigo lavado agora,
brilha o que nos faz amar como morder, como morrer
de repente fulminados por afinal tudo ser grande,
demasiado grande sobre as nossas cabeças, e rente ao chão.
Abriram-nos a porta e o sorriso, chover, estar sol, haver
um grande temporal, cair granizo, a rua toda branca
lá em baixo. E o vento. Isto, e outras vezes, sempre,
aquele vaso que persiste em flores vermelhas cada ano,
janelas abertas, a cortina a esvoaçar vista da rua
como se as casas pudessem afinal voar,
as mãos pequenas das crianças
em volta do pescoço, o movimento dos cabelos. E a luz.
E o esquecimento, que salva do horror
e nos deixa acordar sem o passado, a história comprida
do aviltamento, o absurdo de haver injustiça nisto.
E a morte, única razão de nos querermos
para sempre, eternamente vivos.


Rosa Maria Martelo, Matéria, Lisboa, Averno, 2014.