sexta-feira, 18 de julho de 2014

Wislawa Szymborska. Retrato de mulher


Tem de ser à escolha.
Tem que mudar para que nada mude.
É fácil, impossível, difícil, vale a pena tentar.
Olhos tem, se necessário, ora azuis, ora cinzentos,
negros, alegres, rasos de água sem motivo. 
Dorme com ele como qualquer uma, única no mundo.
Dá-lhe quatro filhos, nenhum, um. 
Ingénua, mas a melhor a aconselhar. 
Frágil, mas carregará o fardo. 
Não tem a cabeça no lugar, mas há-de ter.
Lê Jaspers e revistas femininas, mas constrói uma ponte.
Jovem, como sempre jovem, ainda jovem. 
Segura nas mãos um pardal com a asa partida,
o seu próprio dinheiro para uma viagem longa e distante,
o cutelo da carne, a compressa e um cálice de vodka.
Para onde corre assim, não estará cansada?
De maneira nenhuma, um pouco, muito, não importa.
Ou o ama, ou teima em amá-lo.
Para o bem, para o mal e por amor de Deus. 



 Wislawa Szymborska, Alguns Gostam de Poesia, Lisboa, Cavalo de Ferro, 2014.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Margarida Vale do Gato. Émulos


Foi como amor aquilo que fizemos
ou tacto tácito? – os dois carentes
e sem manhã sujeitos ao presente;
foi logro aceite quando nos fodemos

Foi circo ou cerco, gesto ou estilo
o acto de abraçarmos? foi candura
o termos juntos sexo com ternura
num clima de aparato e de sigilo.

Se virmos bem ninguém foi iludido
de que era a coisa em si – só o placebo
com algum excesso que acelera a líbido.

E eu, palavrosa, injusta desconcebo
o zelo de que nada fosse dito
e quanto quis tocar em estado líquido.


Margarida Vale do Gato, Mulher ao Mar, Lisboa, Mariposa Azual, 2010.


quarta-feira, 16 de julho de 2014

Rui Pires Cabral. Plano de Evasão

Que mais podemos fazer?
Este amor é um país cansado

que não nos deixa mudar.
O medo cerca as fronteiras

e a capital é Nenhures,
cidade de perdulários

e pequenas ruas tortas
onde vem morrer a noite -

aqui estamos ambos sós,
desunidos, extraviados,

não há táxis na praceta
nem cinzeiros nos cafés

e perdemos os amigos
entre as curvas de um enredo

que deixámos de seguir.
Mas não era nada disto

o que tinha na cabeça
ao começar a escrever:

os versos chamam o escuro,
abrem os portões ao frio

e eu quero estar nas colinas
do outro lado do rio.


Rui Pires Cabral, in Ladrador, Lisboa, Averno, 2012.

Museu da Língua Portuguesa, Estação da Luz - São Paulo


Rui Miguel Ribeiro. XX dias


XI - As noites

Noite após noite
apenas posso confiar na sua descida.
Este jogo de amanhãs
no peso das horas
em que procuro uma harmonia.
Sob esta luz contínua
não tenho um reflexo
há dias que não vejo o meu rosto.

A cama marca o calendário
fora de mim, débil raiz
que se alimenta da contagem,
as semanas, a roleta que jogo
com o futuro e as suas representações.

Há dias que não vejo o meu rosto.
Hoje dizem-me que atingi a aplasia.
Terei viciado o jogo? A vida?

Rui Miguel Ribeiro, XX Dias, Lisboa, Averno, 2009.


Partilhado a partir de Editora Averno

sábado, 12 de julho de 2014

Ruy Cinatti. Linha de Rumo


Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Encontro-me parado...
Olho em redor e vejo inacabado
O meu mundo melhor.


Tanto tempo perdido...
Com que saudade o lembro e o bendigo:
Campos de flores
E silvas...


Fonte da vida fui. Medito. Ordeno.
Penso o futuro a haver.
E sigo deslumbrado o pensamento
Que se descobre.


Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Desterrado.
Desterrado prossigo.
E sonho-me sem Pátria e sem Amigos,
Adrede.

Ruy Cinatti

Ruy Cinatti. Quando o Amor Morrer Dentro de Ti


Quando o amor morrer dentro de ti, 
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobre as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonhos que gelaram.

Ruy Cinatti, Obra Poética.