sexta-feira, 18 de julho de 2014

Joaquim Cardoso Dias. Sem mentir


ainda não sei se o amor esteve aqui de luz acesa
e se caminhou nu toda a noite
pelo tecto do quarto mas
eu tirei a roupa toda bebi água
e não te telefonei
qualquer coisa assim atirou-me de bruços
para o coração e lembrei-me
de te esquecer desde o começo
muito longe e alto nas escadas de incêndio
foda-se como acreditar que te amo
sem mentir


Joaquim Cardoso Dias, in Meditações sobre o Fim: os últimos poemas, Lisboa, Hariemuj, 2012. (p. 117).

Joaquim Cardoso Dias. Pequeno Poema


hoje vou acreditar que ao escrever
o nome de um pássaro branco
o teu silêncio fascinado
se atira ao mar
com estas asas


Joaquim Cardoso Dias, in Meditações sobre o Fim: os últimos poemas, Lisboa, Hariemuj, 2012. (p. 118)

Renata Correia Botelho


é sempre a mesma curva
cega, neste troço de pedra lascada,
não há como escapar
às primeiras chuvas
ao piso escorregadio dos olhos,
despiste, falésia mortal,
o coração não entende
sinais vermelhos.

Renata Correia Botelhoin  Telhados de Vidro nº 2, p. 39, Averno, Lisboa, Maio 2004.

Partilhado a partir de As Folhas Ardem, de Manuel Margarido.

Renata Correia Botelho


viste que os dias não passavam
disto, e viste bem. desse lado
do céu, tens o melhor miradouro
sobre a madrugada. se encontrares
o pintainho que sepultámos,
em segredo e lágrimas, no
quintal das tias, pede-lhe o
arco da sua asa nas noites de lua nova.
remete-me, quando puderes,
pacotes de chuva miúda, gosto
de a ver decalcar a terra, fundir-se
com as sementes de milho
no canto da achadinha.
entretanto, vou montando o
telescópio, com as instruções
que me deste. põe-te à vista
e combinamos um gelado a
meio caminho,
à hora da infância.

Renata Correia Botelho, Avulsos por causa, Lisboa, Língua Morta, 2010.

Marta Chaves. Podias obedecer a um registo de perder


Podias obedecer a um registo de perder
o respeito, levantar a saia se a tivesses,
alçar a perna se cão fosses, mandar à merda
quem vem socorrer-te da vida e te decepa os dedos.

Com um rigor de artilharia que amortece o cansaço,
o combate quase parece sereno. De vez em quando,
fazes a conta de cor e dizes apesar de tudo, inspira-me
e não queres saber muito mais do que isto.

Estás na vida como na montra alguns relógios,
parado, e pensas numa sepultura no mar, tudo
menos esta terra, tudo menos uma corda, tudo menos
viver a pulso e ter de sacudir a chuva contra o casaco.

Os dias sem prognóstico, vivendo apenas para
esperar a madrugada, e que ela venha como o cortejo
e aprendas a ficar.

Marta Chaves, Telhados de Vidro n.º 16. Lisboa, Averno, 2012, p. 81.


Partilhado a partir de As Folhas Ardem de Manuel Margarido.

Emicida: Samba do fim do mundo


Wislawa Szymborska. Vermeer


Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum,
em quietude pintada e concentração,
dia após dia, não verter o leite
do jarro para a vasilha,
o Mundo não merece
o fim do mundo.


 Wislawa Szymborska, Aqui (2009).