sexta-feira, 18 de julho de 2014

Charles Baudelaire. O Albatroz


Às vezes no alto mar, distrai-se a marinhagem
Na caça do albatroz, ave enorme e voraz,
Que segue pelo azul a embarcação em viagem,
Num vôo triunfal, numa carreira audaz.

Mas quando o albatroz se vê preso, estendido
Nas tábuas do convés, — pobre rei destronado!
Que pena que ele faz, humilde e constrangido,
As asas imperiais caídas para o lado!

Dominador do espaço, eis perdido o seu nimbo!
Era grande e gentil, ei-lo o grotesco verme!...
Chega-lhe um ao bico o fogo do cachimbo,
Mutila um outro a pata ao voador inerme.

O Poeta é semelhante a essa águia marinha
Que desdenha da seta, e afronta os vendavais;
Exilado na terra, entre a plebe escarninha,
Não o deixam andar as asas colossais!

Charles Baudelaire, As Flores do Mal.

Joaquim Cardoso Dias. Quarto Escuro


Estou demasiado perto
das coisas que não existem.
Devoro os meus animais
 e dou ar ao mundo,
com um dos seus cantores fascinados.
Sobre o que dissemos ontem, os dentes mais felizes.
E misteriosamente os braços são lindos.
Imaginam o que comiam se eu fosse
uma criança perfeita,
e têm pelos repetidamente fáceis de pensar.
Mas os outros já não existem na morte.
Tento acender outras imagens devoradas pelo tempo.
e sei que é por tua causa
que esta noite existe e se repete
a vida inteira.


Joaquim Cardoso Dias, in Meditações sobre o Fim: os últimos poemas, Lisboa, Hariemuj, 2012. (p. 116).

Joaquim Cardoso Dias. Sem mentir


ainda não sei se o amor esteve aqui de luz acesa
e se caminhou nu toda a noite
pelo tecto do quarto mas
eu tirei a roupa toda bebi água
e não te telefonei
qualquer coisa assim atirou-me de bruços
para o coração e lembrei-me
de te esquecer desde o começo
muito longe e alto nas escadas de incêndio
foda-se como acreditar que te amo
sem mentir


Joaquim Cardoso Dias, in Meditações sobre o Fim: os últimos poemas, Lisboa, Hariemuj, 2012. (p. 117).

Joaquim Cardoso Dias. Pequeno Poema


hoje vou acreditar que ao escrever
o nome de um pássaro branco
o teu silêncio fascinado
se atira ao mar
com estas asas


Joaquim Cardoso Dias, in Meditações sobre o Fim: os últimos poemas, Lisboa, Hariemuj, 2012. (p. 118)

Renata Correia Botelho


é sempre a mesma curva
cega, neste troço de pedra lascada,
não há como escapar
às primeiras chuvas
ao piso escorregadio dos olhos,
despiste, falésia mortal,
o coração não entende
sinais vermelhos.

Renata Correia Botelhoin  Telhados de Vidro nº 2, p. 39, Averno, Lisboa, Maio 2004.

Partilhado a partir de As Folhas Ardem, de Manuel Margarido.

Renata Correia Botelho


viste que os dias não passavam
disto, e viste bem. desse lado
do céu, tens o melhor miradouro
sobre a madrugada. se encontrares
o pintainho que sepultámos,
em segredo e lágrimas, no
quintal das tias, pede-lhe o
arco da sua asa nas noites de lua nova.
remete-me, quando puderes,
pacotes de chuva miúda, gosto
de a ver decalcar a terra, fundir-se
com as sementes de milho
no canto da achadinha.
entretanto, vou montando o
telescópio, com as instruções
que me deste. põe-te à vista
e combinamos um gelado a
meio caminho,
à hora da infância.

Renata Correia Botelho, Avulsos por causa, Lisboa, Língua Morta, 2010.

Marta Chaves. Podias obedecer a um registo de perder


Podias obedecer a um registo de perder
o respeito, levantar a saia se a tivesses,
alçar a perna se cão fosses, mandar à merda
quem vem socorrer-te da vida e te decepa os dedos.

Com um rigor de artilharia que amortece o cansaço,
o combate quase parece sereno. De vez em quando,
fazes a conta de cor e dizes apesar de tudo, inspira-me
e não queres saber muito mais do que isto.

Estás na vida como na montra alguns relógios,
parado, e pensas numa sepultura no mar, tudo
menos esta terra, tudo menos uma corda, tudo menos
viver a pulso e ter de sacudir a chuva contra o casaco.

Os dias sem prognóstico, vivendo apenas para
esperar a madrugada, e que ela venha como o cortejo
e aprendas a ficar.

Marta Chaves, Telhados de Vidro n.º 16. Lisboa, Averno, 2012, p. 81.


Partilhado a partir de As Folhas Ardem de Manuel Margarido.