domingo, 17 de agosto de 2014



O mundo não existe, o mundo é a luz.

Raúl Brandão, Os Pescadores (1923).


sábado, 16 de agosto de 2014

Joseph Conrad. Situação Limite


Tinha-lhe chamado  Ivy – Yedra – pelo som da palavra, e obscuramente fascinado por uma vaga associação de ideias. E ele queria que a rapariga se mantivesse junto do pai como torre de força; esqueceu assim, enquanto ela foi criança, que pela natureza das coisas ela elegeria, provavelmente, ir para outro sítio. Mas o homem amava a vida o suficiente para que mesmo esse acontecimento lhe produzisse certa satisfação aparte do sentimento íntimo de perda.


Joseph Conrad, Situação Limite.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

João Rios. Infância


 como pela nudez das mãos
os seus pés
calcavam com mais certeza
de remo
a navegação incerta do mundo
e aprimorando a bolina dos olhos
arrancavam da pobreza
os sargaços de medo
que as cismas de deus
não sabiam calar
                     

João Rios, Aprendizagem Balnear, 2013.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Cecília Meireles. Serenata



Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.

Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.

Cecília Meireles.

Pedro Sena-Lino: Cemitério de Brecht


a minha infância é um animal deserto roendo as escarpas de Deus
ouço-a respirar a luz consciente
ainda da sombra cegueira que montanha os dias
procuro aquele que nasceu ontem de agora
é um movimento sem mãos
somos separados por um corpo mas unidos por uma cidade
somos a interferência da luz antes da luz
e eu quero despedir os olhos mas a cegueira sou eu
projecto-o contra os muros da cidade
há quem nunca mais tenha voltado de si mesmo
ouve-me e regressa-me
a minha respiração dói mais que os meus pés
nos mares de ruas levantadas
no acto físico de andar na pedra o que foi o coração
mil vidas antes todas ressuscitadas
sinto a recordação da minha própria vida
a rasgar a devolver a reter o próprio coração
a vida é uma água de pedra
bebo-lhe a chuva de luz
vejo-me devolvido o rapaz maior que o seu corpo
um rosto perdido entre movimentos suspensos
e todas as coisas que pisamos esgotados de ilusões
numa lápide que foi água triturada
a sobreposição de corpos quebrados
no coração dos olhos um ser que se amou
há milhares de sentimentos atrás
e o futuro a construir-se bombardeadamente do imperfeito
vejo-o-me
no centro de todas as ruas ressuscitadas
avenidas do que há de ser em jamais
e esquinas do impossível erguidas com o que afoguei no coração
uma cidade nasceu um homem


Pedro Sena-Lino, Material Angústia, Maia, Cosmorama, 2010.

Partilhado a partir de: Poems From The Portuguese

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Constantin Cavafy. Círios

  
Temos à frente os dias do futuro
como uma fila de velas acesas –
quente e vivas e douradas velas.

Ficam atrás os dias passados,
fileira triste de velas sem chama:
ainda sobe fumo das que estão mais perto,
vergadas pelas frias que já se apagaram.

Eu não quero vê-las: tanto me entristece o seu ar de agora
como relembrar o fulgor antigo.
Olho à minha frente as velas acesas.

Não vou voltar-me nem vou ver num arrepio
como cresce tanto a fileira escura,
como é tão veloz o apagar das velas.

Bruno Béu.


I.                    
Organonon[1]

a mão manifesta: quando
manifesta esconde. Azul
pelo vitral meia manhã tanto
pelo lado esquerdo, como
direito, a luz. por um segundo
olhava-a nas mãos. Suspenso
(no centro da simetria) ele tocava
um órgão alto. mas nesse instante, só
as mãos tocavam: sem ele
(ele via). por cima dos seus ombros, muito mais
do lado nascente (afinal meia manhã) vinha pelo vitral, o
azul nas mãos: sem ele. nenhuma vontade, como se
tudo já fora feito. música por si. As mãos nada
agarravam, tocando em tudo
só um som: o sopro longuíssimo
de um órgão alto. e lá atrás
do som, do êxtase, vitral, da simetria
escondido, só um mesmo movimento
de um homem pequeno no fole.

II
[relato posterior, já claro quanto ao local da morte]

A Joaquina Paes[2] hoje ainda
colocou as meias verdes, pela
manhã cedo (pouco antes
tinha saído para o banho) junto
do roupeiro claro, e alto: entre
o espelho quando se entra,
e ao longo, e larga («No princípio
era desfeita») a minha cama.

III
[nota de João torrêncio bompasto ao seu singular falecimento]

Morri hoje. Não posso dizer
muito mais de quem morreu:
fui eu.

Bruno Béu, in Meditações sobre o Fim: Os Últimos Poemas, Lisboa, Hariemuj, 2012.




[1] Texto encontrado junto ao seu corpo nu, ainda molhado e oleroso.
[2] Sua empregada de longos anos.