quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Ana Hatherly. As lágrimas do poeta


Um poeta barroco disse:
As palavras são
As línguas dos olhos
Mas o que é um poema
Senão
Um telescópio do desejo
Fixado pela língua?
O voo sinuoso das aves
As altas ondas do mar
A calmaria do vento:
Tudo
Tudo cabe dentro das palavras
E o poeta que vê
Chora lágrimas de tinta


Ana Hatherly, O Pavão Negro, Lisboa, Assírio & Alvim, 2003.

domingo, 17 de agosto de 2014

Calaveritas, riso e morte na Poesia Popular Mexicana

  
As Calaveritas são um género de literatura popular especificamente mexicana. Aproximam-se na sua forma e no seu tempo de criação específico e perene às quadras populares portuguesas, são também elas poemas em quadra, uma ou várias (embora haja exceções) e tal como as quadras populares fazem parte de um conjunto amplo de celebrações de um dia específico do ano, neste caso, o Dia de Mortos celebrado nos dias 1 e 2 de Novembro, o dia 1, dedicado às crianças mortas e o dia 2 aos adultos.
Também como as quadras populares, as Calaveritas invocam uma personagem, mas neste caso ao contrário das figuras católicas, (Santo António, São João, São Pedro), a personagem central da invocação é a própria personificação da morte, sem qualquer alusão a uma marca religiosa católica. Essa marca existe nas celebrações uma vez que o Dia de Mortos coincide com o Dia de Finados ou Dia de Todos os Santos do calendário religioso de praticamente todos os países onde a religião cristã é predominante, no entanto nesta festa de dimensão nacional o dia é apenas uma das poucas apropriações que a igreja católica assumiu de uma festividade ancestral. O Dia de Mortos é uma celebração de raiz pré-hispânica comemorada há mais de 3.000 anos por praticamente todas as civilizações mesoamericanas. Durante a civilização asteca as festividades tinham a duração de um mês completo, o nono mês do calendário solar asteca e tratava-se de um festival de grandes dimensões que homenageava e celebrava a morte, não como um fim mas como uma passagem e início de um novo ciclo.
Na atualidade, o Dia de Mortos é uma das maiores festas mexicanas, a tradição popular acredita que na noite de 1 para 2 de Novembro os mortos vêm visitar as famílias que deixaram, por isso mesmo as casas são decoradas com papeis coloridos, recortados em formas alegóricas específicas e é montado um pequeno altar de oferenda aos mortos familiares, mesas decoradas com flores e com fotografias, com as comidas e bebidas preferidas dos familiares que já faleceram, cigarros, por exemplo no caso de ele ter sido fumador, charutos, uma garrafa de tequila ou cerveja e objetos que simbolizam afinidades que eles tiveram durante a vida. Da oferenda faz também sempre parte o pão de mortos, doce típico desta festa, um pão redondo que em cima tem a forma de ossos que se cruzam no centro. Na entrada das casas ou na mesa da Oferenda há também pétalas de flores de diferentes cores dispostas de forma a criarem desenhos, também as campas dos cemitérios são cobertas com estes desenhos feitos com pétalas. As Oferendas são também feitas nos lugares de trabalho, nas empresas, nas escolas e universidades.
As Calaveritas enquadram-se nesta celebração como uma manifestação cultural tipicamente popular, mas que ao contrário das Oferendas, não são dedicadas aos mortos mas sim aos vivos, amigos ou familiares a quem aquele que escreve dedica satirizando algumas das suas características descrevendo o momento da morte da pessoa a quem é dedicada. A morte aparece assim no poema sob as personagens de: La Catrina, La Flaca, La Tilica, La Calaca ou la Parca. Os termos Flaca e Tilica (magra, esquelética) fazem alusão ao esqueleto e de forma eufemística à morte, tal como Calaca (caveira).
A Catrina é a personagem feminina central do imaginário popular mexicano ligada à morte que ela mesmo personifica, é representada na forma de um esqueleto com um chapéu e ficou popularizada nas gravuras do pintor José Guadalupe Posada. A Calaverita é, assim, um género poético que, redigida em forma de epitáfio, simula o momento da morte. Vejamos este exemplo:

La catrina llegó a la escuela
y a Laura tomó de la oreja
le dijo te llevo por ser gritona
aunque prometas y prometas
ay huesuda no me lleves
te prometo no gritar
te conozco Laura loca
que lo vas a intentar
la huesuda no creyó
y a Laura se llevó.
Pobre Laura ya murió
y a su amor abandonó
ay Gricell como le llora
a su amiguita adorada
y le dice ay amiguis mía
por qué fuiste tan mal portada…

Como género poético, as Calaveritas seguem um esquema narrativo e salientam ou aumentam de forma jocosa as características físicas ou psicológicas da pessoa a quem é dedicada, neste caso, a morte veio buscar a Laura porque ela gritava muito. Em jeito de caricatura, os traços são exagerados, salientados de forma hiperbólica e humorística e nem sempre é a morte que ganha porque também ela é satirizada, por exemplo, a morte veio buscar A mas A era tão feia que a morte fugiu, ou a morte veio por B mas B era tão gordo que a morte não o conseguiu levar, ou ainda A Catrina veio buscar C mas ele era tão teimoso que ela desistiu. A morte humanizada em todas as suas características pode não conseguir realizar o seu objetivo. Assim na Calaverita pode não ficar fixado o momento da morte, mas sempre um encontro com a morte, por exemplo na seguinte quadra: Tenía la muerte en su lista / a Edith como pendiente / más no la reconoció, /pues ahora no tiene dientes.
A Morte pode não reconhecer, pode desistir do seu objetivo ou ainda juntar-se àquele que vinha buscar, por exemplo, Estava D a comer pastéis quando veio a morte que tinha muita fome e comeu com ele.
O efeito humorístico da Calaverita não passa só pela sátira à pessoa a quem é dedicada, mas também pela sátira à própria morte que é tornada risível, ridícula (mais tolerável) porque dela se ri. Servem-se assim de um humor negro simples e direto para expressar amizade ou amor, são uma manifestação de afeto através de um intermediário improvável, a morte. encontram o riso na morte, olhando-a de frente.
Na imprensa mexicana do século XIX as Calaveritas apareciam como formas de crítica política, eram quase sempre acompanhadas de gravuras, como neste caso:


 Nas escolas primárias, nos dias anteriores ao Dia de Mortos, os professores pedem aos alunos que façam Calaveritas para os colegas e tal como com as quadras populares portuguesas há concursos de Calaveritas nas escolas, nas empresas e em outras instituições. Elas são o reflexo literário de uma atitude cultural; uma aprovação de vida mesmo na morte.

Nuno Brito.


O mundo não existe, o mundo é a luz.

Raúl Brandão, Os Pescadores (1923).


sábado, 16 de agosto de 2014

Joseph Conrad. Situação Limite


Tinha-lhe chamado  Ivy – Yedra – pelo som da palavra, e obscuramente fascinado por uma vaga associação de ideias. E ele queria que a rapariga se mantivesse junto do pai como torre de força; esqueceu assim, enquanto ela foi criança, que pela natureza das coisas ela elegeria, provavelmente, ir para outro sítio. Mas o homem amava a vida o suficiente para que mesmo esse acontecimento lhe produzisse certa satisfação aparte do sentimento íntimo de perda.


Joseph Conrad, Situação Limite.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

João Rios. Infância


 como pela nudez das mãos
os seus pés
calcavam com mais certeza
de remo
a navegação incerta do mundo
e aprimorando a bolina dos olhos
arrancavam da pobreza
os sargaços de medo
que as cismas de deus
não sabiam calar
                     

João Rios, Aprendizagem Balnear, 2013.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Cecília Meireles. Serenata



Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.

Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.

Cecília Meireles.

Pedro Sena-Lino: Cemitério de Brecht


a minha infância é um animal deserto roendo as escarpas de Deus
ouço-a respirar a luz consciente
ainda da sombra cegueira que montanha os dias
procuro aquele que nasceu ontem de agora
é um movimento sem mãos
somos separados por um corpo mas unidos por uma cidade
somos a interferência da luz antes da luz
e eu quero despedir os olhos mas a cegueira sou eu
projecto-o contra os muros da cidade
há quem nunca mais tenha voltado de si mesmo
ouve-me e regressa-me
a minha respiração dói mais que os meus pés
nos mares de ruas levantadas
no acto físico de andar na pedra o que foi o coração
mil vidas antes todas ressuscitadas
sinto a recordação da minha própria vida
a rasgar a devolver a reter o próprio coração
a vida é uma água de pedra
bebo-lhe a chuva de luz
vejo-me devolvido o rapaz maior que o seu corpo
um rosto perdido entre movimentos suspensos
e todas as coisas que pisamos esgotados de ilusões
numa lápide que foi água triturada
a sobreposição de corpos quebrados
no coração dos olhos um ser que se amou
há milhares de sentimentos atrás
e o futuro a construir-se bombardeadamente do imperfeito
vejo-o-me
no centro de todas as ruas ressuscitadas
avenidas do que há de ser em jamais
e esquinas do impossível erguidas com o que afoguei no coração
uma cidade nasceu um homem


Pedro Sena-Lino, Material Angústia, Maia, Cosmorama, 2010.

Partilhado a partir de: Poems From The Portuguese