quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Nuno Higino


As minhas mãos sabem a terra
das minhas mãos nascem gardénias
e neva nas minhas mãos
quando é inverno


Nuno Higino, Onde correm as águas, Porto, Campo das Letras, 2003.
Partilhado a partir de Poesia distribuída na rua 

Mário Cesariny.


in Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, (selecção, prefácio e notas de Natália Correia), Lisboa, Antígona / Frenesi, 2008, (5ª edição), p. 417.

Charles Baudelaire.

 (E para quê?...)

E para quê realizar projectos, se o projecto é já um prazer suficiente?


O spleen de Paris, XXIV.

Ana Marques Gastão. Alvo


Por uma vez conta como o corpo se ajusta à superfície
das tuas palavras. Fala de um depois anterior, desse sono
demente na fissura da luz; do violento voo ou ferida
cíclica, a ausência excedendo-se na pele quando a desoras
perfumas minhas mãos. Estende-se o calor aos lábios,
o verão simula a duração no verso, circula a água, vigorosa,
no fundo do poço até desaparecer na cama muda.
Nada é o que parece, lembra-se o que se esquece e eu digo
os dedos descalços dissolvem em tua boca o mel à flor dos
destroços. Olha-me: deita o olhar em meu vestido, tira-o
num gesto ébrio e precipitado como a um prisioneiro,
os peixes sobem lestos no lago imoderado e a noite volta,
lenta, adormecida. Dou-te o que não tenho - a história
de um rio exultante a explodir na boca em versão romântica,
poema sem trágicos sulcos ou fala completa. E tu, tu dás-me
o que sou: metáfora doendo-se alto onde acaba o texto.

Ana Marques Gastão, Nós: 25 Poemas sobre 25 Obras de Paula Rego, Lisboa, Gótica, 2004.


Paula Rego, Target.

António Aragão.


No fundo somos todos iguais. A prova básica dessa igualdade, que tanto se discute, reside principalmente no cheiro comum. Se, em vez de discutirem, as pessoas se cheirassem julgo que muitos equívocos acabariam.


          António Aragão,  Desastre nu: peça em quatro episódios, Lisboa, Moraes, 1981.


Partilhado a partir de: Biblioteca Municipal do Funchal

António Manuel Couto Viana. As Rapinas Rapaces


Do cerne da calúnia,
As rapinas rapaces
Buscam a morte, o oiro,
Em lascivas caçadas.
Escorre-lhes das presas
o sangue, a amarga lágrima:
teu fuzil, caçador
não as encontra n’alma:
ocultam-se na terra,
no coração da carne!

Vibram rasteiro voo
As rapinas rapaces
nas caves inundadas
de fumo, álcool, escarro.
Na órbita das órbitas,
Roçam balofas asas;
Com duro bico imundo,
Picam luar e graça;
E devoram, com gula,
Meretriz e pederasta.

Na época do cio,
As rapinas rapaces
Aninham-se nos versos,
Espojam-se nas camas,
Toldam, em cada espelho
As virgens e os rapazes,
Alarmam o silêncio
Das furtivas passadas
E exibem um lençol
De poluídas pragas!

Plo tempo que não cessa,
As rapinas rapaces
Pairam sob a cabeça
De crua divindade.
Nada as destrói. Existem
Como hóstia nos altares
E adornam-se de pomba
E cravam-se de farpas
E gemem e suplicam
E morrem e renascem.

Aviso de extermínio,
As rapinas rapaces
Apontam-se com pedras,
Lumes, lixos, espadas
ou beijos repetidos
ou águas perturbadas
ou a mulher azul
ou o brinco de prata
ou o aço do braço
e o cristal da garganta!

Quanto é impuro e atroz
As rapinas rapaces
Arrastam para o ninho
Onde me encontro e canto.
Meu lirismo se afoga
Em palavras..., palavras...
Atinjo a extrema forma!
Destruo-me de imagens!
E mordo, com seis dedos,
O ventre da verdade!


António Manuel Couto Viana, Relatório Secreto, Lisboa, Verbo, 1963.

Ana Cristina César. Este Livro


Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do
Coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two
Total tilintar de verdade que você seduz,
Charmeur volante pela posta, a toda. Enfie a
carapuça.
E cante.
Puro açúcar branco e blue.

Ana Cristina César.