terça-feira, 26 de agosto de 2014

Merícia de Lemos. Tangentes


Verde

O verde espalhou-se no ar
e vem verde das árvores, das folhas,
das folhas que me olham como olhos.
Os meus olhos são folhas a olhar…
É verde o Sol, é verde a terra, é verde a água.
O canto dos pássaros é verde.
E são verdes:
todas as rosas que ainda não abriram,
todas as palavras que se não disseram,
todos os raios do Sol que se não guardam
e o murmúrio das fontes
e a ária que não cantamos
e os pinheiros, as acácias, os cedros,
o alecrim, o rosmaninho, o loureiro,
os craveiros, os musgos e as heras.
Os cisnes são negros e são brancos,
Para que os lagos pareçam mais verdes.
Há aves, borboletas e avelhas, verdes, verdes.
Há olhos de crianças muito verdes
e são verdes as ervas do campo.
Foi verde o violino que hoje canta.
Há beijos e abraços tão frescos que são verdes.
As rãs e as lagartas são folhas
Que por serem loucas se perderam.
Há verde-claro, vivo, negro e seco
E há o verde rico das esmeraldas

Merícia de Lemos, Tangentes, Lisboa, Ática, 1975.

Delfim Lopes. No Cumprimento do Devir

VII
Como se não bastasse já
o sol ao ocaso
tal como a chapa gasta
ou ouro falso
Não chegasse o seu dinheiro sujo
e vem-me ainda
essa metáfora velha como
uma puta para
fechar o dia com a sua
chave de prata
a lua
Delfim Lopes, No Cumprimento do Devir, Lisboa, Edição de Autor, 2013.
Partilhado a partir de As Folhas Ardem.



sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Violante de Cysneiros. A mim propria de ha dois annos


As minhas mãos são esguias,
São fusos brancos d'arminho,
Onde fiaste e não fias
O Sonho do teu carinho.

As minhas mãos são esguias,
Côr de rosa são as unhas,
E nellas todos os dias
Ponho a pomada que punhas.

Quando Eu as fico polindo
Perpassa nellas em ancia
A tua boca sorrindo…

Mas os meus dedos em i
Dizem a longa distancia
Que vae de Mim para Ti.



Violante de Cysneiros, in Orpheu 2, Lisboa, 1915.

Eduardo Guimaraens. Folhas Mortas


Dêste relogio belga, enorme, branco e triste,
tombam as horas como folhas mortas.
Por uma tarde outomnal, triste de spleen e folhas mortas:
Em cada vaso negro ha um lirio nobre e triste.

Em cada vaso negro ha um lirio nobre e triste e as horas tombam como folhas mortas.
Porque não nasci eu um lirio nobre e triste, pétala sem perfume entre essas folhas
mortas?

Um Versalhes fulgura em cada illusão triste, um Versalhes de outomno atapetado de
folhas mortas! Em cada vaso negro ha um lirio nobre e triste e as horas tombam como
folhas mortas…


Eduardo Guimaraens, in Revista Orpheu nº 2, Lisboa, 1915.

Manuel António Pina


O Bilhete de Identidade de um escritor é, na realidade (não me lembro onde é que li isto), o seu bilhete de alteridade.
Manuel António Pina


 

 In «À poesia pouco mais é dado dizer do que o silêncio do mundo», entrevista por Osvaldo Manuel Silvestre e Américo António Lindeza Diogo, Ciberkiosk, nº 9, Março de 2000. (Citado a partir de Inês Fonseca Santos, A Poesia de Manuel António PinaO encontro do escritor com o seu silêncio, Lisboa, Departamento de Culturas Românicas da Faculdade de Letras de Lisboa, 2004, p. 110. Dissertação de Mestrado em Literatura Portuguesa).

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Rui Pires Cabral. Biblioteca dos Rapazes



Rui Pires Cabral, Biblioteca dos Rapazes, Lisboa, Pianola, 2012. (p.15).

Nuno Higino


As minhas mãos sabem a terra
das minhas mãos nascem gardénias
e neva nas minhas mãos
quando é inverno


Nuno Higino, Onde correm as águas, Porto, Campo das Letras, 2003.
Partilhado a partir de Poesia distribuída na rua