sábado, 13 de setembro de 2014
Luis Maffei. Orientação dos Gatos
a Beth e Bethina, gatas
para medir a felicidade de um gato
cortázar
temo
não diz nada. basta
se eu digo
uma aterrissagem,
plano em contrário sabor
ao colapso: é
um gato
o poema nunca
que ensina o caimento,
simétrica mostra ao
saber da planagem, ato
impoluto e inumano
de cair de
pé
Luís Maffei, partilhado a partir de Revista Literária Sítio.
Luis Maffei. Contrariedades
Cruel, frenético e exigente é o
tempo,
poeta,
tu não.
Tu és morto e ele
a mim
arma de armas e bagagens e
instrumentos de fuga rumo
(a morte é depois,
(a morte é depois,
é outra coisa)
ao que dura
pouco
dura
menos que o tempo
próprio fosse
justo fosse e ainda à mão
de um dedo à mão
da parte nova que
do tempo
escorre para o mais longe do
tempo tempo fosse.
E a vocação, poeta,
se a morte é depois, se
é outra coisa
é um tempo vivo e tão vivo
que
a mim
sorve de escombros
de coisa nova
beira uma finda
antes da
finda antes do
tempo antes do
abismo.
Luis Maffei, partilhado a partir de
Revista Literária Sítio.
António Botto. Ciúme
I
Venham ver a maravilha
do seu corpo juvenil.
O sol encharca-o de luz,
e o mar de rojo tem rasgos
de luxúria provocante.
Avanço, procuro olhá-lo
mais de perto… A luz é tanta
que tudo em volta cintila
num clarão largo e difuso…
Anda nu - saltando e rindo,
e sobre a areia da praia
parece um astro fugindo.
Procuro olhá-lo; - e os seus olhos,
amedrontados, recusam
fixar os meus… - Entristeço…
Mas nesse olhar fugidio –
pude ver a eternidade
do beijo que eu não mereço.
IX
Não. Continua o teu caminho.
-Abraça e beija aqueles que tu quiseres
porque fico na certeza
de que fui eu quem deu alma
a todos os movimentos
da tua sensualidade!
Carícias intermináveis,
comprou-as o meu dinheiro!
Inútil!... Guarda os teus braços,
Guarda-os, sim, para o primeiro!...
Deste-me tudo o que eu quis!
Fiz do teu corpo bandeira
na guerra do meu anseio!
Mas sinto que me apeteces
por entre náuseas profundas.
Cheio de lama e de sonho,
ando a ver se encontro a origem
das nossas vidas imundas.
António Botto,
in Antologia de Poesia Portuguesa
Erótica e Satírica, (Seleção, prefácio e notas de Natália Correia), Lisboa,
Antígona / Frenesi, 2008, (5ª edição), p. 417.
terça-feira, 26 de agosto de 2014
Merícia de Lemos. Tangentes
Exageros
Ai meu amor, eu bem sei
que nós nos queremos bem,
como os pombos querem bem
às suas asas.
Ai meu amor, tu bem sabes
que nos gostamos os dois
como gostamos do sol,
do mel, do pão…
Ai meu amor, tu bem sabes
Ai meu amor, eu bem sei
tal e qual como te agrado
nem mais nem menos me agradas.
Ai, meu amor, tu bem sabes,
ai meu amor, eu bem sei
que nos amamos os dois
bem fundo no coração
Meu amor, quem não anseia
ternuras exageradas?
Meu amor, eu creio as rosas
exageros das roseiras.
Merícia de Lemos, Tangentes, Lisboa, Ática, 1975.
Merícia de Lemos. Tangentes
Verde
O verde espalhou-se no ar
e vem verde das árvores, das
folhas,
das folhas que me olham como olhos.
Os meus olhos são folhas a olhar…
É verde o Sol, é verde a terra, é
verde a água.
O canto dos pássaros é verde.
E são verdes:
todas as rosas que ainda não
abriram,
todas as palavras que se não
disseram,
todos os raios do Sol que se não
guardam
e o murmúrio das fontes
e a ária que não cantamos
e os pinheiros, as acácias, os
cedros,
o alecrim, o rosmaninho, o
loureiro,
os craveiros, os musgos e as heras.
Os cisnes são negros e são brancos,
Para que os lagos pareçam mais
verdes.
Há aves, borboletas e avelhas,
verdes, verdes.
Há olhos de crianças muito verdes
e são verdes as ervas do campo.
Foi verde o violino que hoje canta.
Há beijos e abraços tão frescos que
são verdes.
As rãs e as lagartas são folhas
Que por serem loucas se perderam.
Há verde-claro, vivo, negro e seco
E há o verde rico das esmeraldas
Merícia de Lemos, Tangentes, Lisboa, Ática, 1975.
Merícia de Lemos, Tangentes, Lisboa, Ática, 1975.
Delfim Lopes. No Cumprimento do Devir
VII
Como se não
bastasse já
o sol ao ocaso
tal como a chapa gasta
ou ouro falso
Não chegasse o seu dinheiro sujo
e vem-me ainda
essa metáfora velha como
uma puta para
fechar o dia com a sua
chave de prata
o sol ao ocaso
tal como a chapa gasta
ou ouro falso
Não chegasse o seu dinheiro sujo
e vem-me ainda
essa metáfora velha como
uma puta para
fechar o dia com a sua
chave de prata
a lua
Delfim Lopes, No Cumprimento do Devir, Lisboa, Edição de Autor, 2013.
Partilhado
a partir de As Folhas Ardem.
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