João César Monteiro, O Último Mergulho. (1992).
domingo, 5 de outubro de 2014
Francisco Sá de Miranda. Comigo me desavim
Comigo me desavim,
sou posto em todo perigo;
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim.
Com dor, da gente fugia,
antes que esta assi crescesse;
agora já fugiria
de mim, se de mim pudesse.
¿Que meo espero ou que fim
do vão trabalho que sigo,
pois que trago a mim comigo,
tamanho imigo de mim?
Francisco Sá de Miranda.
sábado, 27 de setembro de 2014
João Miguel Queirós.
Perto do fogão
Ponho a sopa a aquecer num tacho
pequeno.
sentado perto do fogão,
pouso os braços na mesa vazia.
Encosto ligeiramente a cabeça na
parede
enquanto ouço o som da sopa ao
lume.
Passados uns minutos, uma pequena
sombra
percorre tranquilamente a parede,
mergulhando
na penumbra o relógio, uma factura
da E.D.P., o calendário,
a fotografia de família...
A ligeira corrente de ar
que passa perto de mim
leva o meu ouvido na direcção do pequeno
rádio portátil,
que toca baixinho, e
deixa-me o outro ouvido
sobre o fogão. Fico à escuta.
Dentro de mim vou remisturando uma
música
que desenha no meu espírito
imagens,
algumas delas são bem fáceis de
visualizar
mas outras são tão simples que se
perdem,
deixando-me abandonado no ar,
rodeado de uma luz ligeira e suave.
João Miguel Queirós, in Poetas sem qualidades, Lisboa, Averno,
2002.
João Miguel Queirós.
Lianor
Hoje no elevador descobri o seu
nome.
No cartão pessoal, que retirou com
cuidado
para não soltar os fios da camisola
de lã,
estava escrito à màquina Lianor.
Leonor no espelho do elevador vê
pelo canto do olho se está
[arranjada.
Ela sabe que por detrás da orelha
já não tem uma flor
[selvagem, e por isso
tem espaço para arrumar o seu
cabelo com a mão, como se
[o
escondesse.
Repara nos seus dedos riscados pela
esferográfica que deixou
[arrumada
sobre a secretária. Está bonita na
sua insegurança.
Leonor é agora tão verdadeira nessa
impureza frágil como
a água canalizada, que escondida na
parede do prédio
só é relembrada quando falta na
torneira.
Leonor em vez de se colocar a meio
do elevador vazio
[prefere pôr-se,
aconchegada a um canto, tal como
faz à noite antes de
[adormecer,
de modo a não sentir o resto da cama
fria.
João Miguel Queirós, in Poetas sem qualidades, Lisboa, Averno,
2002.
João Miguel Queirós.
A tarde fria arrasta-nos para
dentro da cama.
Aos poucos deixamo-nos ficar...,
por ali.
Fixo a fraca coluna de sol
mergulhar pelo vidro da janela
e sustentar-se friamente no soalho
silencioso.
As tuas costas flutuam amparadas no
colchão.
Lentamente deixas cair o braço para
fora da cama.
Sorrio não só por te sentir
adormecida
mas também por a tua pulsação ser
como uma balada,
- o seu refrão será sempre um
refresco -
e as suas melodias ainda que
electrónicas
estarão sempre à nossa espera
nos head-phones abandonados
sobre a mesa de cabeceira.
João Miguel Queirós, in Poetas sem qualidades, Lisboa, Averno, 2002.
Filipe Teles
Na gare de Lyon ouço música
pop
Não sei o que faço aqui com os
guichets preenchidos de perguntas
Em que lugar?
Qual o cais para Grenoble?
E espero, como tantas vezes.
Jornais, revistas, sanduíches
Humildes balcões húmidos repletos de publicidade desinteressante
Viagens circulares sem destino, de quem espera
sem correr, sem vontade.
A mulher de verde com óculos escuros
O homem de fato a tentar esconder o coçado do colarinho
O homem de fato a tentar disfarçar as sapatilhas
O de sapatilhas a tentar arrebatar o porta-moedas da mulher de verde
Os gritos da velha que não sabe do marido que está mais interessado na miúda loura
Coca-cola que aqui se diz côcá
Batatas fritas, frites, frites,
E o cheiro imundo a óleo
E espero com os
miúdos que correm para lá do alcance dos olhos.
Os papéis voam-me
São os aviões na gare de Lyon
Não sei o que faço aqui com os
guichets preenchidos de perguntas
Em que lugar?
Qual o cais para Grenoble?
E espero, como tantas vezes.
Jornais, revistas, sanduíches
Humildes balcões húmidos repletos de publicidade desinteressante
Viagens circulares sem destino, de quem espera
sem correr, sem vontade.
A mulher de verde com óculos escuros
O homem de fato a tentar esconder o coçado do colarinho
O homem de fato a tentar disfarçar as sapatilhas
O de sapatilhas a tentar arrebatar o porta-moedas da mulher de verde
Os gritos da velha que não sabe do marido que está mais interessado na miúda loura
Coca-cola que aqui se diz côcá
Batatas fritas, frites, frites,
E o cheiro imundo a óleo
E espero com os
miúdos que correm para lá do alcance dos olhos.
Os papéis voam-me
São os aviões na gare de Lyon
À minha frente, enquanto aguardo o
autocarro,
lê triste um livro
- verso foleiro, mas o rosto era esse.
Não percebo o que lê.
Triste porque parece
não que tenha a certeza.
Está na idade de ler livros tristes.
Com as mãos a vibrar lentamente sobre páginas antigas
As palavras sussurrando-lhe ao ouvido
Cenas imaginadas, mais ricas do que o próprio texto
Mais húmidas do que a chuva
Ou o balcão imundo
Como se fazer-lhe mal fosse um primário desejo.
lê triste um livro
- verso foleiro, mas o rosto era esse.
Não percebo o que lê.
Triste porque parece
não que tenha a certeza.
Está na idade de ler livros tristes.
Com as mãos a vibrar lentamente sobre páginas antigas
As palavras sussurrando-lhe ao ouvido
Cenas imaginadas, mais ricas do que o próprio texto
Mais húmidas do que a chuva
Ou o balcão imundo
Como se fazer-lhe mal fosse um primário desejo.
Apetece sair e dar uma boa
caminhada entre os autocarros
Respirar o ar puro, ou o fumo do escape,
Ver luz
Sem a voz repetida do anúncio dos cais de partida.
Apetece mergulhar numa queda de água
Bater a espuma nos ombros
E sorrir um verde imaturo.
Mas sou puxado de novo para a gare.
Para a espera em viagens circulares sem destino, com as folhas a fugirem-me,
sem lugar onde sentar,
apenas aquele com ela de frente
segurando o livro como cálice sagrado
sem fingimento
só lágrimas e vibração religiosa.
Respirar o ar puro, ou o fumo do escape,
Ver luz
Sem a voz repetida do anúncio dos cais de partida.
Apetece mergulhar numa queda de água
Bater a espuma nos ombros
E sorrir um verde imaturo.
Mas sou puxado de novo para a gare.
Para a espera em viagens circulares sem destino, com as folhas a fugirem-me,
sem lugar onde sentar,
apenas aquele com ela de frente
segurando o livro como cálice sagrado
sem fingimento
só lágrimas e vibração religiosa.
Se falasse talvez eu desistisse de
a admirar
talvez tudo fosse muito mais normal e a cheirar a óleo como tudo o resto.
Há dois tipos de poetas, os que trabalham com imagens
e os que produzem as imagens. Os últimos morrem por dentro
e nós morremos pelos olhos.
A única forma de estar verdadeiramente a salvo
é ser cego
Uma cegueira que corre em sentido anti-horário
anti-vida que nos entra pelos olhos.
Ou então fechá-los propositadamente sempre que doam.
Quando a imagem fere
e essa dor se mantém intimamente, como um silvo interminável.
Se um dia penso numa cor, verde ou laranja,
não preciso encontrá-la para sobre ela construir um poema.
Mas se a cor, o verde ou o laranja, vem ter comigo,
então posso cegar-me de dor.
talvez tudo fosse muito mais normal e a cheirar a óleo como tudo o resto.
Há dois tipos de poetas, os que trabalham com imagens
e os que produzem as imagens. Os últimos morrem por dentro
e nós morremos pelos olhos.
A única forma de estar verdadeiramente a salvo
é ser cego
Uma cegueira que corre em sentido anti-horário
anti-vida que nos entra pelos olhos.
Ou então fechá-los propositadamente sempre que doam.
Quando a imagem fere
e essa dor se mantém intimamente, como um silvo interminável.
Se um dia penso numa cor, verde ou laranja,
não preciso encontrá-la para sobre ela construir um poema.
Mas se a cor, o verde ou o laranja, vem ter comigo,
então posso cegar-me de dor.
São quase três horas.
Olho-a uma última vez para deixar a ferida por cicatrizar
embutida nos olhos
por dentro
- pelo menos por uns minutos, enquanto me durar a vontade.
Não a deixo falar, não a quero ouvir,
nem mexer. Deixá-la ali quieta é melhor.
A vida é água fria
com menos sabor do que a imaginação
- pelo menos a minha
de onde consigo domar o destino
e despentear a realidade
até ela gritar de prazer.
Deixo-a girar ritmadamente as páginas
sonhando-a como quero
- sem que fale, nem me olhe.
Melhor assim,
sublimada, despenteada, irreal,
quente.
Olho-a uma última vez para deixar a ferida por cicatrizar
embutida nos olhos
por dentro
- pelo menos por uns minutos, enquanto me durar a vontade.
Não a deixo falar, não a quero ouvir,
nem mexer. Deixá-la ali quieta é melhor.
A vida é água fria
com menos sabor do que a imaginação
- pelo menos a minha
de onde consigo domar o destino
e despentear a realidade
até ela gritar de prazer.
Deixo-a girar ritmadamente as páginas
sonhando-a como quero
- sem que fale, nem me olhe.
Melhor assim,
sublimada, despenteada, irreal,
quente.
Na gare de Lyon não há
aviões.
Há livros e lágrimas escondidas.
Há livros e lágrimas escondidas.
Filipe Teles, partilhado a partir
de Enfermaria 6.
Patrícia Baltazar
CARTA DE MAREAR
Não há corpo igual. Não há cheiro
nenhum no mundo que colmate o meu vício por ti. Não há tragédia igual. Drama
incorruptível.
O tamanho de tudo, encaixe perfeito, a dimensão do conjunto e a distância entre opostos.
O que aporto eu? Flores. Mecanismos para deliciar. Sorrisos repartidos ao pôr-da-lua. Fazer ver a leveza do mundo, afinal. São flores que eu aporto. A minha caneta, o meu lápis, a tua vida no meu caderno-para-sempre. Votos de mar a vida inteira.
Leva-me. Está a ficar escuro. Tenho tudo tão pertinho.
Há uma pornografia íntima nisto nosso. Dá água na boca.
Segura-me. Musa.
Porque a pele.
Porque o rosto e as minhas mãos descendo.
Porque nós.
Não fiques, mas não vás. Avião outra vez. Porque tu.
O meu anel está a arder.
Tudo tão muito e eu a tremer como sempre.
A minha esperança é azul. Propagação. Níveis do Inferno.
Flores de Jacarandá no chão.
Gostava de me decifrar. Perdi o relógio, perdi a caneta, não perdi o anel. Ele arde-me.
Era isso! A faísca. No caos, a faísca. Tu. Não esquecer.
Fazer ver a leveza da tempestade. Até doerem os dedos. Até chorar. Até rir. Até dormir descansada no teu peito azul.
Comer-te.
Orgasmo.
Não esquecer.
O tamanho de tudo, encaixe perfeito, a dimensão do conjunto e a distância entre opostos.
O que aporto eu? Flores. Mecanismos para deliciar. Sorrisos repartidos ao pôr-da-lua. Fazer ver a leveza do mundo, afinal. São flores que eu aporto. A minha caneta, o meu lápis, a tua vida no meu caderno-para-sempre. Votos de mar a vida inteira.
Leva-me. Está a ficar escuro. Tenho tudo tão pertinho.
Há uma pornografia íntima nisto nosso. Dá água na boca.
Segura-me. Musa.
Porque a pele.
Porque o rosto e as minhas mãos descendo.
Porque nós.
Não fiques, mas não vás. Avião outra vez. Porque tu.
O meu anel está a arder.
Tudo tão muito e eu a tremer como sempre.
A minha esperança é azul. Propagação. Níveis do Inferno.
Flores de Jacarandá no chão.
Gostava de me decifrar. Perdi o relógio, perdi a caneta, não perdi o anel. Ele arde-me.
Era isso! A faísca. No caos, a faísca. Tu. Não esquecer.
Fazer ver a leveza da tempestade. Até doerem os dedos. Até chorar. Até rir. Até dormir descansada no teu peito azul.
Comer-te.
Orgasmo.
Não esquecer.
Patrícia Baltazar, Catapulta, Coimbra, Do Lado Esquerdo,
2014.
Partilhado a partir de Enfermaria 6
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