quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Alexandre Sarrazola

 Reis

está para chegar o inverno
desbotam as cores de estio no teu sorriso
são martinho atravessa a Rua da Palma
e a avó reza a santa bárbara

eu mordo o lábio quando tocam os sinos
no jardim zoológico abrigam-se os leões
passa a última fanfarra à nossa porta
chegou o tempo de jogar ao prego

virá o discurso do patriarca
e o radiador entre os pés e a televisão
o gato dorme ao nosso colo
vamos pôr os músicos sobre o musgo do presépio

depois chegam os Reis (é um dia sempre triste)
e sob a chuva de domingo a alma passeia
envergando o seu fato branco de janeiro


Alexandre Sarrazola, Thaumatrope, Lisboa, Averno, 2007.


Partilhado a partir de HospedariaCamões.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

André Domingues

Personagens Secundárias


Escreves o livro da tua vida com a boca colada a um manancial. O teu coração está em Madrid, algures entre a promiscuidade da selva e a tristeza do arcanjo. Fazes um esforço insano para pareceres invariável, grato, trivial, nem que seja por um instante. Aprendeste a falar mais alto. A dobrar as consoantes, a abrir as vogais. Aprendeste a conviver com a elipse, a olhar com profundidade para os vazios narrativos que arrastam o fedor e a fidelidade pelas paredes do teu pequeno quarto alugado e até o teu desespero se tornou elegante e sociável, depois de teres provado a sua ineficácia total. Sempre que o narrador te obriga a caminhar pelas ruas movimentadas da cidade, sem outro propósito que não o da pura locomoção, tu fazes ligeiras digressões interiores para escapares à prepotência mecânica da fábula e extrais dessa minúscula infracção uma radiosa e inevitável felicidade. O enredo dobra-se e desdobra-se vezes sem
conta numa sinuosa procissão de mandatos, ordens, desordens e recados, que cumpres escrupulosamente até não poderes mais. Quando anoitece e julgas que sais do trabalho, mandam-te finalmente jantar e depois regressar ao quarto, assistir a um pouco de solidão no ecrã. Mas assim que finges os protocolos do sono e crias a elipse terminal, diriges-te para a penumbra redentora de um bar, numa hora tóxica em que o diálogo reina sobre a descrição pouco apaziguada de um sofá, e ficas sentado junto de um par de pernas em chamas, com a garganta desfeita de tanto calares, um copo de uísque na mão onde o reflexo do teu rosto perdura trémulo e oxidado.
É quando te escorrem as lágrimas.
           
André Domingues. em Enfermaria 6.

sábado, 8 de novembro de 2014

Luiza Neto Jorge



O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede
até à queda vinda
da lenta volúptia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.


Luiza Neto Jorge 

domingo, 5 de outubro de 2014

João César Monteiro: O Último Mergulho (1992)


João César Monteiro, O Último Mergulho. (1992).

Francisco Sá de Miranda. Comigo me desavim



Comigo me desavim,
sou posto em todo perigo;
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim.

Com dor, da gente fugia,
antes que esta assi crescesse;
agora já fugiria
de mim, se de mim pudesse.

¿Que meo espero ou que fim
do vão trabalho que sigo,
pois que trago a mim comigo,

tamanho imigo de mim?


Francisco Sá de Miranda.

sábado, 27 de setembro de 2014

João Miguel Queirós.



Perto do fogão

Ponho a sopa a aquecer num tacho pequeno.
sentado perto do fogão,
pouso os braços na mesa vazia.
Encosto ligeiramente a cabeça na parede
enquanto ouço o som da sopa ao lume.
Passados uns minutos, uma pequena sombra
percorre tranquilamente a parede, mergulhando
na penumbra o relógio, uma factura da E.D.P., o calendário,
a fotografia de família...
A ligeira corrente de ar
que passa perto de mim
leva o meu ouvido na direcção do pequeno rádio portátil,
que toca baixinho, e
deixa-me o outro ouvido
sobre o fogão. Fico à escuta.
Dentro de mim vou remisturando uma música
que desenha no meu espírito imagens,
algumas delas são bem fáceis de visualizar
mas outras são tão simples que se perdem,
deixando-me abandonado no ar,
rodeado de uma luz ligeira e suave.


João Miguel Queirós, in Poetas sem qualidades, Lisboa, Averno, 2002.

João Miguel Queirós.


Lianor

Hoje no elevador descobri o seu nome.
No cartão pessoal, que retirou com cuidado
para não soltar os fios da camisola de lã,
estava escrito à màquina Lianor.

Leonor no espelho do elevador vê pelo canto do olho se está
                                                                         [arranjada.
Ela sabe que por detrás da orelha já não tem uma flor
                                                         [selvagem, e por isso
tem espaço para arrumar o seu cabelo com a mão, como se
                                                                  [o escondesse.
Repara nos seus dedos riscados pela esferográfica que deixou
                                                                          [arrumada
sobre a secretária. Está bonita na sua insegurança.
Leonor é agora tão verdadeira nessa impureza frágil como
a água canalizada, que escondida na parede do prédio
só é relembrada quando falta na torneira.
Leonor em vez de se colocar a meio do elevador vazio
                                                                   [prefere pôr-se,
aconchegada a um canto, tal como faz à noite antes de
                                                                       [adormecer,
de modo a não sentir o resto da cama fria.


João Miguel Queirós, in Poetas sem qualidades, Lisboa, Averno, 2002.