sábado, 13 de dezembro de 2014

Malcolm Lowry


Sê paciente, pois o lobo


Sê paciente, pois o lobo está sempre contigo.
Escuta, imbecil, o som do teu desejo;
Não te deixes iludir, não é o mar,
O lobo é loucura, mas a lua é luz.
Deus virá de uma ignorância como a tua,
Não como um boneco de caixa de surpresas, mas como
Árvore feita pai choroso em delírio,
As dores da noite têm todas o seu trágico lugar,
Meio rosto de Deus procura a outra metade.
E Ele achará o teu génio na escuridão
E to restituirá sem fiador.

Sê paciente, pois o lobo está sempre contigo,
Feio e mau e, contudo, divino.
Esquece o estrépito do mar,
O mar desdenhoso fazendo beiço todo o dia,
Estridente como fábricas de vidro a estilhaçar-se.
Passa ao largo do mar lustroso, invindimável,
Pois quem lhe bebe mais fundo são os afogados.
A neve negra amontoa-se sob o relógio,
Onde o encontro falhado se junta a tempo ao coração magoado.
Este é um mundo de mistérios sem valor.
Sê paciente, pois muita, muita coisa é paciente.

Sê paciente, pois o lobo é paciente,
Aquele cuja sombra curta aqui parou.
Os prados aguardam que os arco-íris digam Deus,
As sombras aguardam que tu digas a palavra,
Duas almofadas confiam no amor para salvar o mundo.
Ao luar o mineiro vacila junto à âncora suja.
O frete aguarda: o navio congela no fiorde.
O anjo aguarda, o coração feito mão dorida
Pronta a levar-te, longe de nós, para o país do entardecer,
Onde ninguém é voraz, mas onde as coisas se fazem,
E onde não há lobo, nem pensar em dilúvio.
Sê paciente, porque o lobo é paciente.
O pisco aguarda das trevas a reparação,
A andorinha anseia pelo Outono para dizer já,
E Eco por Hero, para não responder não.
Só o sino que segue não espera,
Galopando o seu rosto de mãe pelos campos fora,
Para te esfolar até ao osso com a rudeza do repique.
No começo do Inferno, no meio
Da floresta, a imagem oscila entre mãe e mar.
Não dês ouvidos ao sino nem ao mar envelhecido,
Mas ao bom e querido lobo jura fidelidade.

Sê paciente, por causa do lobo, sê paciente:
Todas as dores e guinchos da noite têm o seu lugar,
Acharás a tua toca de sangue quente e enfim repousarás;
As sombras aguardam que digas a palavra.
Escuta agora o teu próprio passo macio e manhoso.
Sê paciente, por causa do lobo, sê paciente -
O passo dele é já o teu, és livre porque despojado.


Malcolm Lowry, As cantinas e outros poemas do álcool e do mar, Lisboa, Assírio & Alvim, 2008.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Ana Martins Marques


 Dardo

Existe o corpo,
o eixo dos joelhos, as dobras,
a força teatral dos membros, o gosto acre,
o extremo silêncio,
as mãos pendentes.
Existe o mundo,
as savanas e o iceberg,
as horas velozes, o falcão,
o crescimento secreto
das plantas, o repouso dos objetos
que envelhecem no uso, sem dor.
Existe o poema,
um dardo atirado a coisas mínimas,
à noite, às cicatrizes.
Um secreto amor os une,
as mãos na água, a memória do verão,
o poema ao sol.


Ana Martins Marques, A Vida Submarina (2009).

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Alexandre Sarrazola

 Reis

está para chegar o inverno
desbotam as cores de estio no teu sorriso
são martinho atravessa a Rua da Palma
e a avó reza a santa bárbara

eu mordo o lábio quando tocam os sinos
no jardim zoológico abrigam-se os leões
passa a última fanfarra à nossa porta
chegou o tempo de jogar ao prego

virá o discurso do patriarca
e o radiador entre os pés e a televisão
o gato dorme ao nosso colo
vamos pôr os músicos sobre o musgo do presépio

depois chegam os Reis (é um dia sempre triste)
e sob a chuva de domingo a alma passeia
envergando o seu fato branco de janeiro


Alexandre Sarrazola, Thaumatrope, Lisboa, Averno, 2007.


Partilhado a partir de HospedariaCamões.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

André Domingues

Personagens Secundárias


Escreves o livro da tua vida com a boca colada a um manancial. O teu coração está em Madrid, algures entre a promiscuidade da selva e a tristeza do arcanjo. Fazes um esforço insano para pareceres invariável, grato, trivial, nem que seja por um instante. Aprendeste a falar mais alto. A dobrar as consoantes, a abrir as vogais. Aprendeste a conviver com a elipse, a olhar com profundidade para os vazios narrativos que arrastam o fedor e a fidelidade pelas paredes do teu pequeno quarto alugado e até o teu desespero se tornou elegante e sociável, depois de teres provado a sua ineficácia total. Sempre que o narrador te obriga a caminhar pelas ruas movimentadas da cidade, sem outro propósito que não o da pura locomoção, tu fazes ligeiras digressões interiores para escapares à prepotência mecânica da fábula e extrais dessa minúscula infracção uma radiosa e inevitável felicidade. O enredo dobra-se e desdobra-se vezes sem
conta numa sinuosa procissão de mandatos, ordens, desordens e recados, que cumpres escrupulosamente até não poderes mais. Quando anoitece e julgas que sais do trabalho, mandam-te finalmente jantar e depois regressar ao quarto, assistir a um pouco de solidão no ecrã. Mas assim que finges os protocolos do sono e crias a elipse terminal, diriges-te para a penumbra redentora de um bar, numa hora tóxica em que o diálogo reina sobre a descrição pouco apaziguada de um sofá, e ficas sentado junto de um par de pernas em chamas, com a garganta desfeita de tanto calares, um copo de uísque na mão onde o reflexo do teu rosto perdura trémulo e oxidado.
É quando te escorrem as lágrimas.
           
André Domingues. em Enfermaria 6.

sábado, 8 de novembro de 2014

Luiza Neto Jorge



O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede
até à queda vinda
da lenta volúptia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.


Luiza Neto Jorge 

domingo, 5 de outubro de 2014

João César Monteiro: O Último Mergulho (1992)


João César Monteiro, O Último Mergulho. (1992).

Francisco Sá de Miranda. Comigo me desavim



Comigo me desavim,
sou posto em todo perigo;
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim.

Com dor, da gente fugia,
antes que esta assi crescesse;
agora já fugiria
de mim, se de mim pudesse.

¿Que meo espero ou que fim
do vão trabalho que sigo,
pois que trago a mim comigo,

tamanho imigo de mim?


Francisco Sá de Miranda.