quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Beatriz Hierro Lopes: Do sepultamento dos navios


Tenho uma janela que abre portas para o mundo: o início e o fim da minha avenida. Tenho estas horas de tédio em que me escondo nos punhos dos sobretudos que debaixo da minha janela passam. No punho, junto ao pulso, mais perto do que no peito ou do que no interior da boca, sei do que pensam, do que dizem a si mesmos, das justificações que repetem para calar este desejo de corte. Esta vontade de lâmina.
Somos este tempo e este tempo é da idade dos que vestem sobretudos e suportam o mais longo frio sobre os ombros. De olhar baixo. Voz baixa, rente à terra sobre a qual somos os pontos menores de uma costura que remedeia este ter-se nascido costeiro.
Não somos mais filhos de nossos pais, nem netos ou bisnetos de nossos avós e bisavós, não crescemos à margem da terra que vê partir, que vê chegar, os navios. Somos a memória mais presente do sepultamento da nossa própria História, a três milhas a sudoeste da costa de Portimão em Outubro de dois mil e doze.
Justificamos a noite com a ausência de um caminho. Fazemos trocadilhos com o que caminhou sobre as águas enquanto nós, marés várias, caminhamos sobre praças: uma ou outra vaga marítima lava o rosto às pedras enquanto duas gerações embalam a tristeza com o medo, desviam a revolta com silêncio, sacrificam palavras pela memória de frases não ditas. Somos disto, desta espécie de derrota vestida de negro, óculos redondos e guarda-chuva indiano num tempo em a que só os mortos dão razão. Submersos, respiramos o interior da cor e, o interior da cor, sem luz ou olhos que lhe encontrem salvação; lentos gestos afogados, lentas palavras colhidas do outro lado da trincheira. E nos punhos isto, nos pulsos isto: esta vontade imensa de quebrar. Beber toda esta água, secar o futuro no interior das mãos. Inscrever uma nova cartografia que nos faça costa sem naufrágios nem saudade.

Beatriz Hierro Lopes.

Thomas Pynchon: Celebridade


- Ele disse algum coisa?
- Não.
Absolutamente nada?
O doutor sacudiu a cabeça mecanicamente e agregou uma nova entoação à sua canção fúnebre de todas as tardes. E na realidade não me inclino muito a crer que o fará.
- Nunca?
- Essa é a minha opinião.
- Mas às vezes vocês enganam-se. Não é assim? Quero dizer que às vezes o cancro desaparece sem razão. É certo? – Sim – Admitiu Witt -. E às vezes de repente os cegos começam a ver, os surdos a ouvir e os coxos a caminhar. Os tontos escrevem poemas. Há um prémio novel esperando o idiota que defina a palavra “milagre”.




Thomas Pynchon, Celebridade.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A última fábrica de fósforos


 Um retrato é sempre parcial, a sua força é ser incompleto, capta quanto muito o instante-luz de uma vida, recriada por outra. O outro sob a luz de Eros, aguarelas que nunca serão as mesmas, corrente de uma vida que por uns segundos é observada no seu movimento e por isso nunca o retrato está parado. Nem sequer entre dois instantes ele é fixo. Este pode ser feito por quem está no quinto andar (traseiras), ali onde ele fuma um cigarro, uma ponta acesa que se vê ao longe, de cima para baixo, ali onde cai a cinza: a ilha – que também ele não sabe por onde se entra, quem vive nas suas traseiras, entre o som dos galos que ocupam, como os homens, algumas pequenas hortas abandonadas, entre casitas e casitas, zinco, telhas, construções para trás, tubos de exaustão de restaurante, mosaicos azuis de casas centenárias onde pousam as gaivotas, o som de uma festa brasileira, gatos malhados e negros, hortas com um triciclo, ao lado, uma criança que brinca sempre sozinha. Ali onde cai a cinza, onde a roupa seca e escorre, onde algumas marquises e varandas fechadas foram tapadas com móveis, tábuas de passar a ferro, mecanismos velhos, caixas de diferentes cores, a máquina de lavar, coisas amontoadas por gerações que forram agora, num mosaico aleatório os vidros traseiros. Porque para ali já há muito que se desistiu de olhar, para onde pinga a roupa de muitos andares, a cinza da festa brasileira, do (homem ou mulher do quinto) Ali a parte de trás, da nossa cidade, o lado B do nosso país: a ilha. Parcelada quando a cinza cai e o velho dos gatos que sai da ilha entre outras coisas para recolher picas do chão - vê no quinto andar traseiras o brilho do cigarro, sem ver quem o fuma, ao longe, de baixo para cima, o cigarro parece um farol – intermitente, ao longe, em Gaia, para quem está quase em Espinho, perto da antiga fábrica de fósforos. E, entre os dedos, esse pequeno farol ilumina-se às vezes com uma vida maior, acelerado, no instante em que o fumo é puxado rápido para os pulmões e parece uma estrela prestes a explodir para apagar-se para sempre, fumada até ao fim, apagada. Pode não ser um homem, pode ser uma mulher, a brasileira, o romeno, a travesti negra, nisso a falta de luz nivela, só faróis a tremer ao fundo, no fim dos braços, na pedra, nas varandas, sem luz não se percebe onde acabam as traseiras e começa a ilha, onde acaba a terra e começa o mar, onde é céu ou onde é água. Onde é cidade e onde é a parte de trás. Nisto, o passado confunde-se - O velho dos gatos, acumula anos de trabalho num armazém de pirotecnia, outros tantos na extinta fábrica de fósforos de Espinho, e ele veio entre tantos ocupar, entre outros, a ilha onde cai a cinza e os pingos gordos da roupa, uma ou outra rodilha que cai no zinco, um ou outro pacote vermelho de comida chinesa.
É visto todos os dias, fora da ilha, nas ruas visíveis da cidade. No grande contentor do lixo ao lado da frutaria podemos vê-lo apanhar, entre tangerinas podres e outras que se aproveitam menos mal, grandes ananases que dará para aproveitar mais de metade, feios de mais para estarem nas caixas, fruta que já vem pisada e que os fornecedores não aceitam como devolução – Dará para a sobrinha. Os mesmos contentores onde ao lado recolheu todo o seu mobiliário, três cadeiras onde amontoa alguns casacos que também o lixo e a caridade lhe ofereceram, e uma fotografia da mulher, que enquanto viva, fazia bolacha americana para venderem nas praias de Espinho e depois de Leça. A sua sobrinha ainda sabe a receita e os dois não abandonariam o ofício, não fosse terem de se esconder por causa da fiscalização alimentar, um crime público de que têm de fugir só por ter sido a Europa a cometê-lo, a sobrinha que vai entrar agora nas aulas de empreendedorismo obrigatório – para suster o núcleo com dignidade, dois, será difícil não dizer, quando alguém ao lado do contentor se demora a despejar garrafas no vidrão e o observa, que a fruta não é para ele, que é para os animais. E em que animais pensará? De cima para baixo ou de baixo para cima, como um farol trémulo entre os dedos, o retrato será sempre parcial - o mais parcial. Capta quanto muito um movimento orgânico. Nem sequer entre dois instantes ele é fixo.

 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O CAPITÃO SONINHO





Ver com os
sentidos todos juntos, como se ver não exigisse
crença nenhuma. Como a música.
Rosa Maria Martelo, Matéria.

O Capitão Soninho veio com uma estrela debaixo do braço e os planetas rodavam à volta dele, ouvia-se um coração a bater ao lado da estrela (na almofada) e os planetas adormeciam quando não lhes dava o sol e acordavam quando lhes davam os raios em cheio. Mas havia sempre alguém acordado do outro lado, o Capitão Soninho com a estrela debaixo do braço e o coração a bater ao lado da estrela - Amor nos dedos e nas mãos, atrás das orelhas um sopro contínuo que o sol iniciou - Aqui no chão seres lançados para a vida agarram, abraçam, prolongam - criam sempre outra, unidos na mesma que está a começar agora, apanhados a meio num documentário sempre incompleto sobre a Ilha dos Amores – De um qualquer ângulo, ao fundo, pode alguém perguntar, ao sair ou ao entrar na Estrela dos Penhores: Como podem as nossas vidas serem vistas da ponte, de baixo, de cima, do último tabuleiro – na outra margem, nesta ou no meio? Apanhados a meio de um documentário, que quase parece um país - Acelerados por um olhar quente, seja ele um fio, seja ele o riso sincero dos trabalhadores da luz. Todo, cheio / Em cheio. A dar aqui no chão onde as pessoas se abraçam como faróis, caem como faróis / fazem planos para o futuro, como faróis, a meio da subida, paisagem acelerada pelo beijo dos amantes, banhistas felizes, bolacha americana. Há ainda um fio, um fio que nos une, porta, ponta, estrela caída, braços sabor a subida, diários abertos, chaves, planos, um herói de carne e osso que nos faz adormecer, dois anjinhos abraçados, agora mesmo, a dormir, numa expressão do renascimento, as cabeças juntas na mesma respiração e um dedo pequenino de criança dentro da narina da mãe, que sem acordar, afasta a cabeça num leve reflexo de sono. Aqui no chão onde as ondas batem, onde o sol chega, onde, nivelados, os homens se deixam ver - Foi-nos dado remar e remar é a nossa forma de ver - O aviãozinho a Portugal, A vida de Marinheiro, esses braços que sobem como penínsulas pelo meu peito e o bater do sol agora dentro - Futuro, enfim, num único símbolo resumido: o seu vínculo de luz com tudo. Peço então esse riso-estrela, gerador único do universo, que não deixe de bater no teu coração, que te abrace em todas as subidas, que não te deixe – não te vai deixar nunca - sem que a luz do coração se expanda. Peço então o riso, cheio, porque só ele permite que as estrelas (infanticidas por natureza) se mantenham vivas e não cortem as suas pontas, que as ligações frágeis e seguras não percam vida ou se extingam até à anorexia, perdendo luz e força, ou se arrebentem por dentro sobre o seu próprio eixo – Porque só ele é deus, só ele cavalga e molda verdadeiramente as caras, só ele cria luz e espelhos de espuma, e no fim, só ele goza a poesia. Quem escreve “O Fim da História” mais não faz do que a começar.

Sou a vontade em tudo malhada de te ver sorrir*

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domingo, 11 de janeiro de 2015

Beatriz Hierro Lopes:



da irredutibilidade

A minha família é o meu país, disse-o, despedem-se deles como se fossem para a guerra, como se ir para a guerra fosse sair deste país quando a guerra é ficar cá, continuou. Eu, que a ouvi, pouco sei de guerra. Guerra, para mim, é a voz da minha avó paterna a dizer-me daqueles dias em que o seu país fora uma casca de batata, ao falar-me da Guerra Civil Espanhola. Tão longínqua como qualquer outra. O meu país, a minha Cidade, não são cascas de batata ou a metade da cebola ou limão guardada no frigorífico. Gosto de pensar que a nacionalidade não é um electrodoméstico. Um mecanismo que serve à utilidade. Não é útil ser-se português. Imagino que nunca o tenha sido. Assim como creio que também não é útil ser-se espanhol, italiano ou grego.
Há mais de trezentos anos que a minha família materna nasce e morre no Porto. Não lhes sei o rosto, apenas nome, apelidos, profissões, datas de morte e nascença. Vieram de terras ainda mais frias. Começaram por curtir peles e fabricar velas de sebo. Desde há sete gerações que somos baptizados na mesma igreja. Subimos a mesma escadaria de Santo Ildefonso para expurgar pecados, muito embora, num dado momento da história, todas as velas que ardessem fossem nossas. Demos luz ao corpo de santos. É legítimo dizê-lo, como seria legítimo eu dizer que também a minha família é a minha cidade e o meu país.
Não acredito na utilidade da naturalidade. Nasci na freguesia da Sé, no mesmo ano de mil novecentos e oitenta e cinco em que nasceram a maioria dos novos emigrantes. Com uma excepção. Não serei portuguesa em outro país que não seja o meu. Sou deste tempo em que não há fronteiras, em que a língua se desdobra em muitas outras línguas numa promiscuidade que se quer intelectual, cosmopolita, europeia. Sou deste tempo em que quem não troca de língua alimenta a boca a migalhas. Ser-se português em Portugal é ser-se clandestino. É ser-se moralmente ilegal. Mas eu não nasci para a clandestinidade nem para a imoralidade ilegal. Talvez por isso haja quem me chame de irredutível.
Nasci nesta família e esta família ensinou-me que há gente que não se curva perante a fome e perante o medo. Que há quem não se deixe contaminar por esta imensa chantagem social que resume a vida portuguesa à sobrevivência do português. Tenho apenas uma língua. A minha fronteira é quando a razão legitima a cobardia e dá asilo à corrupção. Talvez seja cismática quando, ao fim de um ano de desemprego, digo que não passarei falsos recibos verdes. Que não admitirei que me paguem um ordenado abaixo do salário mínimo nacional. Que não sobreviverei pacatamente à sombra da reforma de quem trabalhou.
Tenho vinte e nove anos. Quero um emprego com um contrato legal e o mínimo que se paga a um licenciado. Tenho fome mas não como migalhas. Sou irredutivelmente portuguesa. O mesmo é dizer que nasci em Portugal, que nasci no Porto, e que ainda acredito que a cidade e o país que me viram mesmo antes que eu os visse, não me deixarão morrer.


Beatriz Hierro Lopes

sábado, 20 de dezembro de 2014

Beatriz Hierro Lopes

Do Espaço

O meu avô materno morreu há um ano e nove meses. A última coisa que lhe pedi foi uma salamandra. Em troca enviou-me um cheque de cem euros para comprar um aquecedor que tive a oportunidade de lhe agradecer no seu leito de morte no corredor do Hospital de Penafiel. Da herança, a coisa mais certa que deixou foi metade de um jazigo onde não quis ser sepultado por lá estarem os seus pais. A família conta agora com dois meios jazigos em dois cemitérios do Porto.
Tenho um amigo. Um novo que agora tem nome. No seu quarto não há janelas. Duas clarabóias que nada devem ao romantismo centenário: antes à necessidade de haver luz. Que, uma sorte qualquer, garantiu ao dar dias ao tempo e umas telhas de vidro que um caixote de lixo lhe guardou. Sob elas uma cama para um corpo que, se olhar em frente e, se ao olhar em frente, olhar ainda mais em frente, vê uma retrete de louça. Livre de plásticos. Na casa do meu amigo nada se esconde. Tem periodicamente duas sacas de plástico. Uma, com fruta, maioritariamente laranjas; outra com um saco de arroz, conservas, um pacote de massa e um papelinho vermelho que diz «vale mensal: 2,50» para carne, se conseguir dão-lhe dois. Hoje, ao oferecer-lhe o almoço, confessou-me a sua preferência por unhas de porco.
Horas antes, na rua da Alegria, n.º 200, uma funcionária ao ler o seu relatório médico anexo ao pedido de pensão por invalidez disse-me que não bastava. Não chegava a tuberculose, o enfisema pulmonar ou o sangue. Era preciso um cancro. Daqueles de que um gajo sabe que não se safa. – «Isto será indeferido de certeza, as Juntas médicas só as dão quando uma pessoa está quase com os pés para a cova.», disse-me. Sorrindo-me com um colar de prata ao pescoço na forma de uma lemniscata. O meu amigo espera pelo rendimento social de inserção desde Fevereiro mas perdeu-o há mais de três anos. Comeu muitos vales mensais de carne. Tem sessenta e quatro anos e cinquenta e dois quilos. Receberá, talvez, enquanto espera um «fundo de maneio» na melhor das hipóteses de setenta euros.
Na casa do meu amigo não há segredos. Há ferro velho, um fogão de um só bico eléctrico, a retrete e a gratidão ao homem que lhe deu a chave daquela casa, de onde saiu quando o telhado aluiu. Quem passar na Ilha da Merda verá em frente a sua meia casa um pequeno quintal com um único limoeiro e uma vedação feita de persianas. Agora: cento e cinquenta quilos de batatas greladas e muitas podres que encontrou na Latino Coelho e trouxe às costas, em longas viagens, para lavar comer e dar a quem quiser. – «Quer batatinhas menina? Olhe que lavadinhas e limpinhas sabem muito bem.».
Às vezes enerva-se. Quando se enerva na segurança social ou no centro de saúde, abre muito os olhos, fecha os punhos, fecha a boca de quatro metades de dentes com muita força. Chora. O choro que o embacia e ajuda à surdez serve-lhe à ausência de se imaginar longe de mulheres, colares de prata, lemniscatas ou santíssimas trindades. Somos amigos e não o deixo falar. Somos amigos e jurei-lhe que não ia deixar que ele voltasse a acordar no meio de um procedimento médico por causa da negligência do anestesista. Prometi-lhe que ele não morreria. Ele confia em mim.
Na minha família temos dois meios jazigos em dois cemitérios da cidade, um mais nobre, o outro menos. Há cinquenta anos que deixamos de morrer na casa onde há duzentos anos nascíamos, adoecíamos, recuperávamos, casávamos e morríamos. Vendeu-se a homens de lei. Onde, por riso, em nove gerações apenas houve Homens de Lei. Nos anos vinte, ao bater um mendigo à porta de casa, o meu bisavô, que se preparava para jantar uma pescada cozida mandou a criada servi-la ao homem que pedia comida. Nessa noite, conta-se, o meu bisavô não quis comer.
Se eu fosse à meia casa do meu amigo e se ele estivesse a comer dois euros e meio de unhas de porco, ele dar-mas-ia. E, nessa noite, eu saberia que ele não comeria. Nem nessa nem nas seguintes. 
O que eu talvez só lhe poderia pagar cedendo-lhe um espaço onde deixar as suas cinzas. Espaço para a morte ainda há; mas, mesmo esse, nunca se sabe: é que a minha família é muito grande.

Beatriz Hierro Lopes

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Rosa Maria Martelo

A última cor

«Venenoso escuro» disse a criança
Ao mergulhar na água o pincel sujo de tinta.

Aviso, sinal, apocalipse, rio sem futuro,
Pequeno muro onde cor nenhuma
Fechava a toda a luz um copo de água.



Rosa Maria Martelo, Matéria, Lisboa, Averno, 2014.