Vivos os levaram, vivos os queremos
Cartaz usado nos protestos que se seguiram ao massacre de Ayotzinapa
Há as que nunca desligam a televisão para ver os filhos pintados em todas
as faixas das manifestações e numa delas ver escrito a fundo negro que Um País
que semeias corpos colhe tempestades. Há as que as já apagaram para sempre
e agora servem de prateleira aos últimos retratos dos filhos. A vida foi ali
deixá-las nos troncos mais finos como pulsos onde estão gravados os nomes dos
filhos. A fina pele dos barcos, os seus nomes nos pulsos. Há ainda os corpos que
se estendem nas pontes pedonais que atravessam as estradas do norte, os coyotes e a peregrinação das mulas, os pés inchados de caminhar no
deserto, tapetados por baixo com erva de marijuana para não deixar pegadas no
deserto. Podia imitar aqui essa subida frágil para norte, como uma árvore,
vista de cima, a fila dos homens, o tronco grosso e central na linha férrea da Bestia, o comboio que começa em El
Salvador, até os troncos mais finos do norte, cada vez mais finos quando
atravessam o deserto de Sinaloa ou a Baixa Califórnia, e os que já muito finos
e quebrados se dividem ou partem em Tijuana, os homens que se perdem no
deserto, como paus finos partidos, os que chocam num muro uni-nacional, como
tangerinas atiradas contra a parede, os troncos que ficam no rio e não chegam a
ser molhados. Há os que chegam, os
que tiveram filhos, ramificações que nunca vão regressar, os que mesmo partidos
desistiram de voltar à raiz, porque nascidos da mesma semente não voltariam a
pisar uma terra que semeia corpos. Há também os que foram forçados a regressar
- depois de limpar os bares mais sujos de Las Vegas, a esta alegoria débil de
uma árvore forte, onde todas as folhas estão acesas, entrelaçadas de luzes e
celebração até na morte Há as mães de Ayotzinapa, que quando querem desistir,
bebem mais um pouco de pulque, com outros filhos nos braços. Trabalham sem
falar, não falam espanhol -falam mixteco e falam sempre no presente. Mesmo
depois das evidências da fossa comum, dos corpos queimados com gasolina, uma
delas diz a apontar para uma cama de ferro:
Esta é a cama dele, Eu estou à espera que regresse, todos os dias estou à
espera que regresse. Uma ou outra compra qualquer jornal sensacionalista
para ver uma cara que seja sua, uma impressão que reconheça, uma pegada, em
qualquer deserto que seja, que desminta um país que semeia corpos. Falam em
mixteco, desconhecem o espanhol e como em quase todas as línguas indígenas o
passado é um tempo pouco usado - Há uma língua do presente porque há um passado
sempre pronto para ser dissolvido.
A mãe aponta para a cama e diz: Esta
é a cama dele, o meu filho dorme aqui.
*O Massacre de Ayotzinapa deu-se em
26 de Setembro de 2014 quando 43 estudantes se dirigiam para uma manifestação
contra o abuso do poder local, alguns dos corpos foram queimados e arderam
durante várias horas até as cinzas serem atiradas ao rio, outros foram
enterrados numa fossa comum. O governador de Ayotzinapa deu a ordem do massacre
que foi levado a cabo por grupos de narcotraficantes fortemente militarizados.
