Numa das ruas mais estreitas da cidade há velozes migrações humanas que
aos pássaros parecerão demasiado rápidas, manchas confusas num movimento
estranho, observadas de cima para baixo entre as duas filas de telhados que
quase se tocam, ali onde um gato pode facilmente saltar para o outro lado da
rua; é uma das ruas mais estreitas da cidade, a mãe que agora amamenta a filha
no último andar raramente vem à janela, há também pouco sol para secar a roupa.
Ali onde há pouco um se gabava de que com
aquela gaja tinha sido como foder com duas focas ao mesmo tempo, onde tudo
é deixado como a uma casa de penhores colossal, há poucos minutos um homem
tirou do dedo o anel de casamento e deixou-o ali ficar, na rua, para sempre, em
troca de outras migrações, (variantes da fome), que essa velhinha que pode ter
só 37 anos procura no chão, a pedra mais pequena, mais branca da rua. Parece-se
ao fantasma de uma gaivota - paralítica, sem asas e impossibilitada de olhar
para cima, deverá haver um qualquer mito grego para ela, um castigo dos deuses
por alta traição, a falsa previsão sobre o futuro de uma cidade que logo é
queimada pelos inimigos do rei. Estar sempre na mais estreita linha que separa
os homens e os animais, presa àquela rua como os fios de secar a roupa por
baixo das janelas que ali são quase inúteis. Às vezes uma pequena linha de luz
atravessa a janela e ri-se ao encher o quarto onde a mãe amamente a filha, uma corrente
de vida que se expande e ilimita quando pensa em migrar para fora da rua, e a
luz dá em cheio nas duas, no sorriso das duas, no quarto todo, corrente de luz
que se ilimita e acende, mesmo depois do sol se esconder por trás das casas.
Pouco tempo de exposição que não apaga nem quebra uma corrente, uma vontade, um
laço - Há uma filha entre os braços - a migração dos pássaros que no fim do
Verão partem para África para voltarem no ano seguinte - Em busca de calor e
comida, eles não poderiam perceber as velozes migrações destas ruas, destes
grupos que se formam e dissolvem à velocidade de certos sons, que se rodeiam
rápido e desfazem ainda mais rápido, em círculos ou filas que se tornam manchas
e desaparecem a correr - que aparecem rápido demais e caem rápido demais - que sobem
e baixam rápido as escadas seguindo outras manchas que abrem as suas portas, que
se aninham e encostam aos muros como dormideiras. Fiéis a esta linha entre a
vida e a morte como as gaivotas às cidades marítimas. Numa das ruas mais
estreitas da cidade há migrações que os pássaros não entendem – só nisso,
talvez, são mais livres que os homens.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
domingo, 18 de janeiro de 2015
Macedonio Fernández
Mas peço ao leitor ajuda para não me meter em incidências. Às vezes perde-se a vida num incidente, sendo a vida útil e os incidentes inúteis. Melhor é seguir praticando a longevidade.
Macedonio Fernández, Papéis do Recém-chegado.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
As mães de Ayotzinapa*
Vivos os levaram, vivos os queremos
Cartaz usado nos protestos que se seguiram ao massacre de Ayotzinapa
Há as que nunca desligam a televisão para ver os filhos pintados em todas
as faixas das manifestações e numa delas ver escrito a fundo negro que Um País
que semeias corpos colhe tempestades. Há as que as já apagaram para sempre
e agora servem de prateleira aos últimos retratos dos filhos. A vida foi ali
deixá-las nos troncos mais finos como pulsos onde estão gravados os nomes dos
filhos. A fina pele dos barcos, os seus nomes nos pulsos. Há ainda os corpos que
se estendem nas pontes pedonais que atravessam as estradas do norte, os coyotes e a peregrinação das mulas, os pés inchados de caminhar no
deserto, tapetados por baixo com erva de marijuana para não deixar pegadas no
deserto. Podia imitar aqui essa subida frágil para norte, como uma árvore,
vista de cima, a fila dos homens, o tronco grosso e central na linha férrea da Bestia, o comboio que começa em El
Salvador, até os troncos mais finos do norte, cada vez mais finos quando
atravessam o deserto de Sinaloa ou a Baixa Califórnia, e os que já muito finos
e quebrados se dividem ou partem em Tijuana, os homens que se perdem no
deserto, como paus finos partidos, os que chocam num muro uni-nacional, como
tangerinas atiradas contra a parede, os troncos que ficam no rio e não chegam a
ser molhados. Há os que chegam, os
que tiveram filhos, ramificações que nunca vão regressar, os que mesmo partidos
desistiram de voltar à raiz, porque nascidos da mesma semente não voltariam a
pisar uma terra que semeia corpos. Há também os que foram forçados a regressar
- depois de limpar os bares mais sujos de Las Vegas, a esta alegoria débil de
uma árvore forte, onde todas as folhas estão acesas, entrelaçadas de luzes e
celebração até na morte Há as mães de Ayotzinapa, que quando querem desistir,
bebem mais um pouco de pulque, com outros filhos nos braços. Trabalham sem
falar, não falam espanhol -falam mixteco e falam sempre no presente. Mesmo
depois das evidências da fossa comum, dos corpos queimados com gasolina, uma
delas diz a apontar para uma cama de ferro:
Esta é a cama dele, Eu estou à espera que regresse, todos os dias estou à
espera que regresse. Uma ou outra compra qualquer jornal sensacionalista
para ver uma cara que seja sua, uma impressão que reconheça, uma pegada, em
qualquer deserto que seja, que desminta um país que semeia corpos. Falam em
mixteco, desconhecem o espanhol e como em quase todas as línguas indígenas o
passado é um tempo pouco usado - Há uma língua do presente porque há um passado
sempre pronto para ser dissolvido.
A mãe aponta para a cama e diz: Esta
é a cama dele, o meu filho dorme aqui.
*O Massacre de Ayotzinapa deu-se em
26 de Setembro de 2014 quando 43 estudantes se dirigiam para uma manifestação
contra o abuso do poder local, alguns dos corpos foram queimados e arderam
durante várias horas até as cinzas serem atiradas ao rio, outros foram
enterrados numa fossa comum. O governador de Ayotzinapa deu a ordem do massacre
que foi levado a cabo por grupos de narcotraficantes fortemente militarizados.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
Os poemas sobre barcos
Falamos de
barcos e gerações sem falar de barcos e gerações, porque os símbolos já se
partiram em certos olhares.
Talvez os textos
mais perfeitos do nosso tempo estejam a ser escritos na nossa língua e falem do
sepultamento dos navios, talvez só possamos falar sobre barcos, de países inteiros
que se sentam à volta de uma mesa, de bandeiras que se abraçam.
Talvez só
possamos falar de barcos numa cama, nas traseiras de um livro, com o Livro de
Cesário Verde como mastro, vela e capitão do olhar, Guardador de Rebanhos todo
sublinhado a verde - A minha pátria é a
língua portuguesa e a minha família é
o meu país – e talvez não haja Portugal, mas
sim uma mistura ignóbil de "estrangeiros do interior" a governar-nos
e a estropiar-nos o resto do que somos. (Pessoa, Carta a um herói estúpido) - Talvez
esteja apenas cruel, frenético, exigente e só já não queira ver mais
sofrimento, em nenhuma cara do meu país, que é sempre a bandeira do meu país –
Olhamos em diagonal, quase a meia haste – uns dentro dos outros – Sabemos
sempre do que falamos quando falamos de amor, só não podemos perceber – quando
o coração acelera, porque é que essa bandeira chora, bebe e treme, porque é que
ela nos abandona, porque é que não a abraçamos no tempo certo.
Beatriz Hierro Lopes: Do sepultamento dos navios
Tenho uma janela que abre portas para o mundo: o
início e o fim da minha avenida. Tenho estas horas de tédio em que me escondo
nos punhos dos sobretudos que debaixo da minha janela passam. No punho, junto
ao pulso, mais perto do que no peito ou do que no interior da boca, sei do que
pensam, do que dizem a si mesmos, das justificações que repetem para calar este
desejo de corte. Esta vontade de lâmina.
Somos este tempo e este tempo é da idade dos que
vestem sobretudos e suportam o mais longo frio sobre os ombros. De olhar baixo.
Voz baixa, rente à terra sobre a qual somos os pontos menores de uma costura
que remedeia este ter-se nascido costeiro.
Não somos mais filhos de nossos pais, nem netos ou
bisnetos de nossos avós e bisavós, não crescemos à margem da terra que vê
partir, que vê chegar, os navios. Somos a memória mais presente do sepultamento
da nossa própria História, a três milhas a sudoeste da costa de Portimão em
Outubro de dois mil e doze.
Justificamos a noite com a ausência de um caminho.
Fazemos trocadilhos com o que caminhou sobre as águas enquanto nós, marés
várias, caminhamos sobre praças: uma ou outra vaga marítima lava o rosto às
pedras enquanto duas gerações embalam a tristeza com o medo, desviam a revolta
com silêncio, sacrificam palavras pela memória de frases não ditas. Somos
disto, desta espécie de derrota vestida de negro, óculos redondos e
guarda-chuva indiano num tempo em a que só os mortos dão razão. Submersos,
respiramos o interior da cor e, o interior da cor, sem luz ou olhos que lhe encontrem
salvação; lentos gestos afogados, lentas palavras colhidas do outro lado da
trincheira. E nos punhos isto, nos pulsos isto: esta vontade imensa de quebrar.
Beber toda esta água, secar o futuro no interior das mãos. Inscrever uma nova
cartografia que nos faça costa sem naufrágios nem saudade.
Beatriz Hierro Lopes.
Thomas Pynchon: Celebridade
- Ele disse algum coisa?
- Não.
Absolutamente nada?
O doutor sacudiu a cabeça mecanicamente
e agregou uma nova entoação à sua canção fúnebre de todas as tardes. E na
realidade não me inclino muito a crer que o fará.
- Nunca?
- Essa é a minha opinião.
- Mas às vezes vocês enganam-se.
Não é assim? Quero dizer que às vezes o cancro desaparece sem razão. É certo? –
Sim – Admitiu Witt -. E às vezes de repente os cegos começam a ver, os surdos a
ouvir e os coxos a caminhar. Os tontos escrevem poemas. Há um prémio novel
esperando o idiota que defina a palavra “milagre”.
Thomas Pynchon, Celebridade.
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
A última fábrica de fósforos
É visto todos os
dias, fora da ilha, nas ruas visíveis da cidade. No grande contentor do lixo ao
lado da frutaria podemos vê-lo apanhar, entre tangerinas podres e outras que se
aproveitam menos mal, grandes ananases que dará para aproveitar mais de metade,
feios de mais para estarem nas caixas, fruta que já vem pisada e que os
fornecedores não aceitam como devolução – Dará para a sobrinha. Os mesmos
contentores onde ao lado recolheu todo o seu mobiliário, três cadeiras onde amontoa
alguns casacos que também o lixo e a caridade lhe ofereceram, e uma fotografia
da mulher, que enquanto viva, fazia bolacha americana para venderem nas praias de
Espinho e depois de Leça. A sua sobrinha ainda sabe a receita e os dois não
abandonariam o ofício, não fosse terem de se esconder por causa da fiscalização
alimentar, um crime público de que têm de fugir só por ter sido a Europa a
cometê-lo, a sobrinha que vai entrar agora nas aulas de empreendedorismo
obrigatório – para suster o núcleo com dignidade, dois, será difícil não dizer,
quando alguém ao lado do contentor se demora a despejar garrafas no vidrão e o
observa, que a fruta não é para ele, que é para os animais. E em que animais
pensará? De cima para baixo ou de baixo para cima, como um farol trémulo entre
os dedos, o retrato será sempre parcial - o mais parcial. Capta quanto muito um
movimento orgânico. Nem sequer entre dois instantes ele é fixo.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

