terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Tomaz Kim: Elegia



O teu corpo,
uma vez o meu altar e pecado,
O teu corpo
agora amarelo e viscoso,
hostil como a freira enclausurada,
é uma forma obscena ao sol.

Tu estás morta –
tu, o meu pão e vinho santo!

Tu foste
a minha dor,
o sol
            e a chuva;
Tu foste
saudade,
tudo
            e desejo
quando nós
            sofrendo,
quando nós
encontrámos
            uma nova luz
            uma nova fé!

Tu estás morta –
Tu, o meu pão e vinho santo.

V.A., A Saudade na Poesia Portuguesa: Seleção e prefácio de Urbano Tavares Rodrigues, Lisboa, Portugália, 1967.


Mário Cesariny: Discurso ao príncipe de Epaminondas, mancebo de grande futuro


Mário Cesariny: Discurso ao príncipe de Epaminondas, mancebo de grande futuro

Despe-te de verdades
das grandes primeiro que das pequenas
das tuas antes que de quaisquer outras
abre uma cova e enterra-as
a teu lado
primeiro as que te impuseram eras ainda imbele
e não possuías mácula senão a de um nome estranho
depois as que crescendo penosamente vestiste
a verdade do pão      a verdade das lágrimas
pois não és flor nem luto nem acalanto nem estrela
depois as que ganhaste com o teu sémen
onde a manhã ergue um espelho vazio
e uma criança chora entre nuvens e abismos
depois as que hão-de pôr em cima do teu retrato
quando lhes forneceres a grande recordação
que todos esperam tanto porque a esperam de ti
Nada depois, só tu e o teu silêncio
e veias de coral rasgando-nos os pulsos
Então, meu senhor, poderemos passar
pela planície nua
o teu corpo com nuvens pelos ombros
as minhas mãos cheias de barbas brancas
Aí não haverá demora nem abrigo nem chegada
mas um quadrado de fogo sobre as nossas cabeças
e uma estrada de pedra até ao fim das luzes
e um silêncio de morte à nossa passagem

 Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação, Lisboa, Assírio & Alvim, 1991.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A rua mais estreita



Numa das ruas mais estreitas da cidade há velozes migrações humanas que aos pássaros parecerão demasiado rápidas, manchas confusas num movimento estranho, observadas de cima para baixo entre as duas filas de telhados que quase se tocam, ali onde um gato pode facilmente saltar para o outro lado da rua; é uma das ruas mais estreitas da cidade, a mãe que agora amamenta a filha no último andar raramente vem à janela, há também pouco sol para secar a roupa. Ali onde há pouco um se gabava de que com aquela gaja tinha sido como foder com duas focas ao mesmo tempo, onde tudo é deixado como a uma casa de penhores colossal, há poucos minutos um homem tirou do dedo o anel de casamento e deixou-o ali ficar, na rua, para sempre, em troca de outras migrações, (variantes da fome), que essa velhinha que pode ter só 37 anos procura no chão, a pedra mais pequena, mais branca da rua. Parece-se ao fantasma de uma gaivota - paralítica, sem asas e impossibilitada de olhar para cima, deverá haver um qualquer mito grego para ela, um castigo dos deuses por alta traição, a falsa previsão sobre o futuro de uma cidade que logo é queimada pelos inimigos do rei. Estar sempre na mais estreita linha que separa os homens e os animais, presa àquela rua como os fios de secar a roupa por baixo das janelas que ali são quase inúteis. Às vezes uma pequena linha de luz atravessa a janela e ri-se ao encher o quarto onde a mãe amamente a filha, uma corrente de vida que se expande e ilimita quando pensa em migrar para fora da rua, e a luz dá em cheio nas duas, no sorriso das duas, no quarto todo, corrente de luz que se ilimita e acende, mesmo depois do sol se esconder por trás das casas. Pouco tempo de exposição que não apaga nem quebra uma corrente, uma vontade, um laço - Há uma filha entre os braços - a migração dos pássaros que no fim do Verão partem para África para voltarem no ano seguinte - Em busca de calor e comida, eles não poderiam perceber as velozes migrações destas ruas, destes grupos que se formam e dissolvem à velocidade de certos sons, que se rodeiam rápido e desfazem ainda mais rápido, em círculos ou filas que se tornam manchas e desaparecem a correr - que aparecem rápido demais e caem rápido demais - que sobem e baixam rápido as escadas seguindo outras manchas que abrem as suas portas, que se aninham e encostam aos muros como dormideiras. Fiéis a esta linha entre a vida e a morte como as gaivotas às cidades marítimas. Numa das ruas mais estreitas da cidade há migrações que os pássaros não entendem – só nisso, talvez, são mais livres que os homens.


domingo, 18 de janeiro de 2015

Macedonio Fernández




Mas peço ao leitor ajuda para não me meter em incidências. Às vezes perde-se a vida num incidente, sendo a vida útil e os incidentes inúteis. Melhor é seguir praticando a longevidade.




Macedonio Fernández, Papéis do Recém-chegado.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

As mães de Ayotzinapa*



Vivos os levaram, vivos os queremos
Cartaz usado nos protestos que se seguiram ao massacre de Ayotzinapa

Há as que nunca desligam a televisão para ver os filhos pintados em todas as faixas das manifestações e numa delas ver escrito a fundo negro que Um País que semeias corpos colhe tempestades. Há as que as já apagaram para sempre e agora servem de prateleira aos últimos retratos dos filhos. A vida foi ali deixá-las nos troncos mais finos como pulsos onde estão gravados os nomes dos filhos. A fina pele dos barcos, os seus nomes nos pulsos. Há ainda os corpos que se estendem nas pontes pedonais que atravessam as estradas do norte, os coyotes e a peregrinação das mulas, os pés inchados de caminhar no deserto, tapetados por baixo com erva de marijuana para não deixar pegadas no deserto. Podia imitar aqui essa subida frágil para norte, como uma árvore, vista de cima, a fila dos homens, o tronco grosso e central na linha férrea da Bestia, o comboio que começa em El Salvador, até os troncos mais finos do norte, cada vez mais finos quando atravessam o deserto de Sinaloa ou a Baixa Califórnia, e os que já muito finos e quebrados se dividem ou partem em Tijuana, os homens que se perdem no deserto, como paus finos partidos, os que chocam num muro uni-nacional, como tangerinas atiradas contra a parede, os troncos que ficam no rio e não chegam a ser molhados. Há os que chegam, os que tiveram filhos, ramificações que nunca vão regressar, os que mesmo partidos desistiram de voltar à raiz, porque nascidos da mesma semente não voltariam a pisar uma terra que semeia corpos. Há também os que foram forçados a regressar - depois de limpar os bares mais sujos de Las Vegas, a esta alegoria débil de uma árvore forte, onde todas as folhas estão acesas, entrelaçadas de luzes e celebração até na morte Há as mães de Ayotzinapa, que quando querem desistir, bebem mais um pouco de pulque, com outros filhos nos braços. Trabalham sem falar, não falam espanhol -falam mixteco e falam sempre no presente. Mesmo depois das evidências da fossa comum, dos corpos queimados com gasolina, uma delas diz a apontar para uma cama de ferro: Esta é a cama dele, Eu estou à espera que regresse, todos os dias estou à espera que regresse. Uma ou outra compra qualquer jornal sensacionalista para ver uma cara que seja sua, uma impressão que reconheça, uma pegada, em qualquer deserto que seja, que desminta um país que semeia corpos. Falam em mixteco, desconhecem o espanhol e como em quase todas as línguas indígenas o passado é um tempo pouco usado - Há uma língua do presente porque há um passado sempre pronto para ser dissolvido.
A mãe aponta para a cama e diz: Esta é a cama dele, o meu filho dorme aqui.


*O Massacre de Ayotzinapa deu-se em 26 de Setembro de 2014 quando 43 estudantes se dirigiam para uma manifestação contra o abuso do poder local, alguns dos corpos foram queimados e arderam durante várias horas até as cinzas serem atiradas ao rio, outros foram enterrados numa fossa comum. O governador de Ayotzinapa deu a ordem do massacre que foi levado a cabo por grupos de narcotraficantes fortemente militarizados. 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015


Os poemas sobre barcos

Falamos de barcos e gerações sem falar de barcos e gerações, porque os símbolos já se partiram em certos olhares.

Talvez os textos mais perfeitos do nosso tempo estejam a ser escritos na nossa língua e falem do sepultamento dos navios, talvez só possamos falar sobre barcos, de países inteiros que se sentam à volta de uma mesa, de bandeiras que se abraçam.

Talvez só possamos falar de barcos numa cama, nas traseiras de um livro, com o Livro de Cesário Verde como mastro, vela e capitão do olhar, Guardador de Rebanhos todo sublinhado a verde - A minha pátria é a língua portuguesa e a minha família é o meu país – e talvez não haja Portugal, mas sim uma mistura ignóbil de "estrangeiros do interior" a governar-nos e a estropiar-nos o resto do que somos. (Pessoa, Carta a um herói estúpido) - Talvez esteja apenas cruel, frenético, exigente e só já não queira ver mais sofrimento, em nenhuma cara do meu país, que é sempre a bandeira do meu país – Olhamos em diagonal, quase a meia haste – uns dentro dos outros – Sabemos sempre do que falamos quando falamos de amor, só não podemos perceber – quando o coração acelera, porque é que essa bandeira chora, bebe e treme, porque é que ela nos abandona, porque é que não a abraçamos no tempo certo. 

Beatriz Hierro Lopes: Do sepultamento dos navios


Tenho uma janela que abre portas para o mundo: o início e o fim da minha avenida. Tenho estas horas de tédio em que me escondo nos punhos dos sobretudos que debaixo da minha janela passam. No punho, junto ao pulso, mais perto do que no peito ou do que no interior da boca, sei do que pensam, do que dizem a si mesmos, das justificações que repetem para calar este desejo de corte. Esta vontade de lâmina.
Somos este tempo e este tempo é da idade dos que vestem sobretudos e suportam o mais longo frio sobre os ombros. De olhar baixo. Voz baixa, rente à terra sobre a qual somos os pontos menores de uma costura que remedeia este ter-se nascido costeiro.
Não somos mais filhos de nossos pais, nem netos ou bisnetos de nossos avós e bisavós, não crescemos à margem da terra que vê partir, que vê chegar, os navios. Somos a memória mais presente do sepultamento da nossa própria História, a três milhas a sudoeste da costa de Portimão em Outubro de dois mil e doze.
Justificamos a noite com a ausência de um caminho. Fazemos trocadilhos com o que caminhou sobre as águas enquanto nós, marés várias, caminhamos sobre praças: uma ou outra vaga marítima lava o rosto às pedras enquanto duas gerações embalam a tristeza com o medo, desviam a revolta com silêncio, sacrificam palavras pela memória de frases não ditas. Somos disto, desta espécie de derrota vestida de negro, óculos redondos e guarda-chuva indiano num tempo em a que só os mortos dão razão. Submersos, respiramos o interior da cor e, o interior da cor, sem luz ou olhos que lhe encontrem salvação; lentos gestos afogados, lentas palavras colhidas do outro lado da trincheira. E nos punhos isto, nos pulsos isto: esta vontade imensa de quebrar. Beber toda esta água, secar o futuro no interior das mãos. Inscrever uma nova cartografia que nos faça costa sem naufrágios nem saudade.

Beatriz Hierro Lopes.