terça-feira, 10 de março de 2015

Rainer Maria Rilke


A hora inclina-se e toca-me
com golpe claro, metálico:
Tremem-me os sentidos. Sinto: eu posso –
e agarro o dia plástico.

Nenhuma coisa era perfeita antes de eu a olhar,
todo o devir parara.
A cada um dos meus olhares, agora já maduros,
vem como noiva, a coisa apetecida.

Nada é pequeno para mim, e amo-o apesar de tudo
e pinto-o em fundo de ouro, e grande,
e ergo-o ao alto, e não sei a quem
libertará a alma…



Rainer Maria Rilke, Poemas, As Elegias de Duino e Sonetos a Orfeu, Porto, O Oiro do Dia. 2000.

domingo, 1 de março de 2015

Dizia-se em Oaxaca


Falava­se em Oaxaca da tua sede e de uma menina que injectou petróleo no peito — Cristalizou na sua boca um líquido em fogo a formar­se no canto do lábio em ponto de açúcar, em ponto de sol e fuga e conjunto de limões e conjunto de homens que acedem os faróis: e descia da sua boca, pela casa, pelo chão, descendo as escadas, descendo o passeio, descendo a montanha, e pela montanha abaixo descia um sol líquido adocicado pela memória de todos — toda a memória do mundo a descer como um degelo solar pela montanha abaixo, todas as montanhas abaixo: À beira do mar pensava­se que o Vesúvio tinha irrompido. Todos saíam para os seus trabalhos e acendiam todos os faróis vermelhos que anunciam a nova era e os faroleiros entravam com uma mensagem nova, e as mulheres dos faroleiros iam aos faróis levarem um tupperware com sopa e trazer a roupa suja para lavar, e sacavam a roupa suja e voltavam a levar a roupa suja. E faziam amor com eles no cimo de todos os faróis. E da montanha descia a memória em direcção ao mar, em ponto de sol, em ponto de fuga adocicada: Fizemos um pacto com a vida e com tudo quanto flui. A santa injectou petróleo e cristalizou na sua boca um fio que caía ardente — Todo o sol, carregado de sal e doçura a entrar na veia de cada heroinómano, de todos os amantes… Iam para perto dos faróis: às seis e trinta: por baixo da ponte da Arrábida um carro estacionado com dois amantes, os vidros embaciados. Depois ele abre o vidro e acende um cigarro de haxixe, o vento do mar entra no carro e bate fresco e quente ao mesmo tempo na cara dos dois. Ela baixa­se, encosta­se contra o peito dele. Sente­lhe o coração. Leve e seguro. Ele passa­lhe suavemente as mãos pelos cabelos. Beija­lhe as orelhas. A menina em directo para a CNN a injectar leite condensado no peito para afastar todas as nuvens que são rios inteiros em forma de vapor a flutuarem. Não era o quê? Dizia­se o quê? Em Oaxaca. Falava­se de febre e limões, de beijos na boca que podem não acabar, de línguas entrelaçadas, de mãos dadas, de mergulhos no mar. Falava­se de Pedro Abelardo e Heloísa, de Mariana Alcoforado e de Alejandra Pizarnik. Diziam as raparigas de cabelo curto, com a boca cheia de cerejas negras, que o sol podia um dia não vir. Os Atlantas esperam­no, fazem um pacto com ele, nós com a vida. Creme de la creme pela montanha abaixo.

O padre de Hiroshima a apanhar o sol no fundo da montanha. O padre de Hiroshima a meter um bocado na boca. A beber o degelo: a apanhar as sombras do chão. A prendê­las com molas no estendal — e, como a mulher dos faroleiros e dos cortadores de carne, a estender também a sombra dos cogumelos e dos prédios que derreteram para o chão e a sombra dos lírios e dos corvos e a pegar fogo, com o seu isqueiro, às sombras das girafas, de todos os homens, animais, plantas e coisas: Adora, como todos a palavra «húmido»e o seu deus não é palavra e não se escreve por palavras e não sabe ler nem escrever. E ler nem escrever ajuda a encontrá­ lo e ler e escrever não é nenhum deus: Dizia­se em Oaxaca que o sol viria sempre e isso chegava aos homens que levavam os seus burros pela manhã.

Passava um carro, um camião, os dois amantes por baixo da ponte Arrábida. Vão à bomba de gasolina comprar tabaco e cerveja em lata. Voltam para o carro abraçados. Dizia­se em Oaxaca que o sol lhes ia entrar no peito: Dizia­se em Oaxaca que nós somos todos os outros. Uma roleta russa de mel, para diabéticos enquanto descem flocos de neve para dentro das bocas negras. Um nevão que cobre África. Falava­se em Oaxaca da minha vontade de te abraçar. Falava­se de um derrame na artéria do coração, um derrame de petróleo doce e branco como o leite condensado ou o leite gordo das baleias. Um petróleo injectável: Falava­se disso em Oaxaca enquanto todos os carros passavam para o trabalho. Falava­se com febre e as mãos a tremer, outras vezes com calma e com a ajuda do mezcal e tequilla. A sombra dos lírios violava a sombra dos homens. E a febre dos homens entrava nas mulheres: Dizia­se tudo isso em métrica sáfica e escrevia­se nas paredes dos cafés, das casas, das escolas e de todos os edifícios públicos, o quanto te Adoro. O Padre de Oaxaca ouvia e secava as sombras e secava os rios e esvaziava os mares com o seu balde de plástico: um trabalho como o de Sisifo. De cada vez que se contem o choro, os rios sobem mais um pouco. Falava­se em Oaxaca da febre dos búzios, de pernas entrelaçadas, de braços entrelaçados, de estrelas entrelaçadas. As mulheres dos pasteleiros acordavam a meio da noite, com as suas meias de lã grossa, para virem abrir a porta à estrela que com todas as suas pontas batia em cada porta, e entrava dentro das casas: Uma estrela feita de solidariedade, que cresce quando as pessoas se abraçam, que é só febre, sensação e calor.



O Futureiro


Não levamos grande coisa
nem o corpo é nosso. Só o milagre
da língua debaixo dos braços
a decisão que demos a cada passo,
o direito de ser felizes que levamos em testamento.
Não levamos grande coisa,
nem o sobretudo largo nem o casaco de coiro.

Somos irmãos no Céu, Somos irmãos no Céu

Façamos dos nossos vícios coisas pequenas
como patas que nos ajudam a subir.
Unir certas pontas até então desconexas
 foi um texto que a vida nos foi dando:

Nem um amuleto de ouro, invisível
nos quatro bolsos, uma mãozinha aberta ou fechada
cinco  pontas felizes a brilhar em todo o lado,
à saída ou à entrada da ilha, à espera de um autocarro



Não levamos grande coisa. Nem o casaco de coiro
nem o sobretudo largo. Só a decisão a cada passo,
o milagre da língua debaixo dos braços,
um texto que a vida nos foi dando:
 Um farol, o Futureiro.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Antoine Debargue : Fugas


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No creo en los milagros
Camino solo hacia ellos
Sobre una lluvia que no deja nada
Una pequeña tristeza viaja por mi carne
Y me arrepiento de las huellas de mis pasos
.
Abro un libro, me voy a la orilla del río
Donde el azul del cielo zozobra a la deriva
Es el miedo repentino de mí mismo
Ese que paga el precio del destino
Uno por uno, en actos de amor
.
No creo en los milagros
.
Camino sobre magníficas calles llenas de lodo
La gente se fue, renunció a los lugares
.
Basta ofrecer una vasta paz sin sangre ni corazón
Las sombras están lejos, estoy feliz por la ausencia
Me caigo y voy pasos atrás
.
Mi rutina es ahora nueva
Percibo los golpes de manera diferente
Exagero mis lágrimas, vieja manía
Me hundo en el agua que me rodea,
No, todavía no creo
Ahora es fatal
.
Ya no creo en los milagros.

Antoine Debargue, 
Partilhado a partir de Círculo de Poesía

.

Antoine Debargue: En la calma


.
Él se va, otro ocupa su lugar
 …..Y otro más…
…..Y otros más…
Sin fineza recojo una mirada
Tímida y ligera, todavía oscura.
.
Él no define nada. Reconoce
Solamente.
.
Un chubasco, afuera
Durante el insomnio,
Quieto, en la quietud
…..De tiempos infrecuentados
…..Tener ese algo, siempre.
.
Mi vida se vuelve innegable
Despierta; desea expresarse.
Tú y yo en todos lados
En todos los ojos,
Y todos en otra parte,
¡Vayamos a donde sea después del horizonte!
.
He visto todo, leído todo, nunca más
romperé con mi libertad,  mejor huir en busca
del cielo.
.
…Impostora alegría
Melodía de memoria…
.
Ahora, de una vez por todas

Saldré ileso de tantas noches largas.

Antoine Debargue

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

António Manuel Couto Viana. No Sossego da Hora



Vou espalhar alegria
Pelas ruas!
(Sempre este pasmo ou esta nostalgia
Nas faces imprecisas, lisas, cruas.

Bocejos largos, fundos, nos passeios;
Fúteis conversas calmas nos cafés;
Nem desesperos, nem anseios
- Corpos sepultos a milhares de pés.

Gestos lodosos, lentos, limitados:
«Custa tanto estender a mão, amigos!»
E todos os olhares estão parados
Aquém da negra estreita dos postigos.)

Vou pois, soltar no ar,
Como um balão de cor,
Esta vida que tenho para dar,
No modo simples de quem dá uma flor.

(Não há futuro que não seja hoje
Se vou a perguntar quem me responde?
Uma criança canta e o medo foge
- Jogam as sombras ao esconde-esconde.)

Olha o balão subindo!
Menino, olha o brinquedo que te dou:
Não é feio nem lindo
- É tal qual o que sou.

Leva-o pra casa preso por um fio
(Dói a excessiva fuga no espaço):
Vem encher de promessa este vazio!
Vem encher de sentido este cansaço!



António Manuel Couto Viana. 60 Anos de Poesia. Lisboa: INCM, 2004.

António Manuel Couto Viana. Pórtico


 Seja a minha poesia delicada,
Redondo afago em corpo feminino;
Grácil, viril, como uma espada;
Pura como um desejo de menino;

Em lhe bulindo o Sol, seja um brilhante;
Doce qual uma nota musical
- E que eu me espante
De tê-la assim criado natural.



 António Manuel Couto Viana. 60 Anos de Poesia. Lisboa: INCM, 2004.