terça-feira, 24 de março de 2015

Herberto Hélder


Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?

Herberto Hélder


quarta-feira, 18 de março de 2015

Carlos de Oliveira

Tempo

O tempo é um velho corvo
de olhos turvos, cinzentos.
Bebe a luz destes dias de um só sorvo
como as corujas o azeite
de lampadários bentos.

E nós sorrimos,
pássaros mortos
no fundo de um paul
dormimos.

Só lá do alto do poleiro azul
o sol doirado e verde,
o fulvo papagaio
(estou bêbado de luz,
caio ou não caio?)

nos lembra a dor do tempo que se perde.


Carlos de Oliveira, Trabalho Poético: Primeiro Volume, Lisboa, Livraria Sá da Costa.

Carlos de Oliveira

Há lágrimas nos teus olhos
e oiço sem querer o meu povo chorar:
soubesses tu que tudo o que me dizes
é a sombra do que me não podes dar.

Venço apenas a morte
quando te amo.
Mas o medo e o silêncio andam connosco
e se sofro não é a ti que chamo.

Choro por mim, por nós,
lembra-me a voz desse proscrito antigo:
morro e toda a tua grandeza,
pátria, vai comigo.


Carlos de Oliveira, Trabalho Poético: Primeiro Volume, Lisboa, Livraria Sá da Costa.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Nuno Moura: Canto Nono

Nuno Moura
 Canto Nono
Lisboa, Douda Correria / 2013


Canto Nono é a mais recente publicação de Nuno Moura, apresenta-se como uma unidade poética dividida em 9 partes que se liga intertextualmente ao episódio camoniano. Tal como a Ilha dos Amores, Canto Nono inaugura um espaço de utopia amorosa, um lugar de posse e encontro ideal que se funda na idealização de um tempo épico em que “ninguém abusava da sua posição” (5) e “a presença de um filho era a pose que o amor mais admirava” (6); é, por isso mesmo, o pretérito imperfeito o tempo nuclear desta unidade poética. Mas Canto Nono fala essencialmente do nosso tempo, dos desequilíbrios e excessos do nosso tempo, do presente enquanto transbordo, do presente em que tudo passa e do presente tal como a primeira geração modernista o viu, enquanto tempo limite polarizado pela euforia e disforia, pelo desmedido e colossal. Nesse sentido o sujeito poético de Canto Nono é itinerante, deambulatório, multiplica-se por diferentes espaços, fala através do cruzamento de diferentes vozes, tempos e linguagens, aproxima-se, ora do olhar urbano de Cesário Verde, ora da apurada experimentação plástica da língua em Ângelo de Lima e encontra no Modernismo Português uma zona de diálogo permanente com o nosso tempo. Por isso mesmo, o tempo incerto e indefinido de um passado vago serve a própria mitificação do presente que é construída neste poema. O presente é estranhado nos seus milagres quotidianos, captado no que ele tem de insólito mas também de intemporal, de não-lugar e de utópico, por um olhar poético transfigurado a partir de um tratamento do humor bastante específico e singular, facto a que nos foi habituando nos seus livros anteriores. Este tratamento do humor e esta visão de mitificação do presente é o que mais afasta Nuno Moura dos restantes autores presentes na Antologia Os Poetas sem qualidades e o que mais singulariza a sua criação poética.
A velocidade do fluxo de imagens de Canto Nono é intensificada pela multiplicidade de referências, pelo equilíbrio entre a fluidez e a fragmentação, por um lado a fluência do registo narrativo e a quase inexistência da pontuação em detrimento do polissíndeto: “havia itinerância antes de haver autocarros / e os dragões vermelhos cerimoniavam aulas fúnebres / ainda a morte não tinha conhecimento de prosa / e era comum a paixão súbita por cadelas / e explicava-se a velocidade aos filhos / sem loção solar / e as correntes de ar cheiravam à planta do café / e já admirávamos as estrelas / sentados no colo do João dos Santos” (6), e por outro, a fragmentação imposta pela quebra da oração, pelo anacoluto, pela justaposição de diferentes tempos verbais “e acionista era um local difícil de visitar / e expludo, não olhes para mim / e Não mintas era abrir por aqui / e Tens os meus livros todos era hã / e Encanta-me era Quando acabares de olhar devolve-me” (12); Esta sugestão de fragmentação potencia, paradoxalmente, a fluidez e o fluxo das imagens ao permitir uma multiplicidade de vozes e referências que se interrompem, sobrepõem e cruzam. Esta rede de sobreposição de discursos serve também a simulação da oralidade através das suas quebras, do recurso à linguagem popular, aos provérbios e aos trocadilhos: “a mim pranto se me dá […] ah meu rimão” (7), “Dama de Copos” (17). A criação de Nuno Moura manifesta-se em Canto Nono como uma Poética de múltiplos recursos, onde imperam as figuras fónicas, a valorização do tecido rítmico do texto, conseguido singularmente através da assonância e da aliteração, da anáfora, do recurso à paronímia e aos jogos de palavras, do emprego de neologismos e sugestões onomatopaicas, da alternância entre o verso longo e o verso curto e da coexistência do português e do inglês que complementa as inúmeras referências: “e trazer livros à random / para ler poemas avulso” (17), “ninguém queria saber da gráfica Private Space / de Barcelona, nem do Olin Regular / ou do imuro Recycle, Symbol Mat / Cotton Wove” (16).
Em Canto Nono o recurso ao humor alia-se à ironia para denunciar o que de artificialidade pode haver no literário “somos o cânone do signo do texto / vendeu bem / eu não tenho tento na tristeza / vendeu muito bem” (20), “desperspicácia era criação de pássaros” (17), denúncia humorística de um discurso erudito e humor omnipresente sobre o qual as múltiplas imagens vão sendo criadas, muitas vezes seguindo um tipo de construção surrealista “ainda se imaginava o que estaria a arder pelo sorriso das flores / e tudo o que se comia era através do nó da colher do sobreiro / e sabem o que é uma lágrima no metro de Lisboa? / pois vos digo que é uma meloneia” (8). Do diálogo entre dois tempos culmina uma promessa de futuro, apresentada nos últimos versos de Canto Nono “e o que ficava sempre bem era / vou fazer-te uma coisa linda / adicionar música / adicionar intersecções / adicionar caules / adicionar feridas / adicionar contrapesos / adicionar ir / vamos” (23). A passagem do infinitivo para o imperativo que culmina no verso final “vamos” serve o cruzamento dinâmico de tempos e vozes que confluem à subversão de um discurso que se pretende plural. Subversão também em alguns elementos extratextuais lançados nesta edição, como a ausência do número de página e a colocação da nota prévia no final do livro. O diálogo intertextual que este livro nos oferece é extenso, são vários os poetas invocados, Miguel Manso, Miguel Cardoso, Raquel Nobre Guerra ou Rui Costa são alguns dos exemplos aludidos, poetas representativos da novíssima poesia portuguesa que, tal como Camões, viveram numa época tocada por milagres em que a utopia se poderia sentir mais nitidamente. Essa poderia ser uma das mensagens deste Canto Nono enquanto lugar de celebração de um lugar impossível, que se pode no entanto sentir no batimento do presente.



Nuno Brito



sexta-feira, 13 de março de 2015

Nuno Moura: Canto Nono

ainda os carteiros andavam a pé
e a água com gás era no mar e o sangue grosso diluía
estendia-se a roupa nos areais
e ainda conhecíamos as pessoas da nossa vida
ainda se entrava e saía deste país
com a ligeireza de um empregado de mesa
ainda ninguém abusava da sua posição
a não ser para lançar filhos ao ar
o homem do talho pendurava corações excelentes
há muito se tinha abandonado a ideia dos números oficiais
procuravam-se ataques de fome deitando fogo a tocas
e daí nada surgia
a não ser um maior entendimento da terra
e dos seus camaleões sonolentos
farejadores de novas estradas
havia itinerância antes de haver autocarros
e os dragões vermelhos cerimoniavam aulas fúnebres
ainda a morte não tinha conhecimento de prosa
e era comum a paixão súbita por cadelas
e explicava-se a velocidade aos filhos
sem loção solar
e as correntes de ar cheiravam à planta do café
e já admirávamos as estrelas
sentados no colo do João dos Santos
ainda pedíamos desculpa quando nos sentávamos de viés
porque aprendemos o provérbio luandino
o sábio corre de costas
ainda não havia moedas nas piscinas naturais
e já o peixe-espada preto coloria porto-moniz
e já uma mulher baralhava uma aldeia
com a doçura da roupa trocada
e se havia motoristas era para levarem resumos
éramos todos criados sem toalhetes, só com abraços
ainda os nossos festivais eram por carta
o feminino de puto era miúda e de
abundância vagem
ainda o Líbano não fazia anúncios ao turismo
nem Portugal tinha mar
ninguém tinha dito “esse dinheiro vai
levar-nos à ruína”
e os homens usavam apenas marcas
de feras perigosas e não sonhavam ainda
escrever a soberanos
nem em catálogos literários
para smart-shops
e os frigoríficos ainda não interferiam
com a rádio áfrica
e a national geographic era apenas música
e as teorias eram horários que ninguém habitava
e a presença de um filho era a pose que o amor mais admirava
e o interior e o exterior
eram as posições que essa criança ensaiava
durante o seu sono
e ainda ninguém tinha ocupado as 30 vagas

para pintar na rua.

Nuno Moura, Canto Nono, Lisboa, Mariposa Azual, 2013.

Raquel Nobre Guerra


O FIM DO MUNDO, JÁ SE SABE, COMEÇA SEMPRE
NO CAFÉ DO BAIRRO.
O vietnamita eleva uma maçã acima da cabeça
como se me atravessasse nesse seu gesto corso
— gente que se sabe que está viva, pasto para as
sensações, diria, e isto não quer dizer nada senão
que sigo a forma dos objectos mortos nos dias
para que as coisas passem, que me esforço
por um certo sossego.
Ainda sou essa criança predadora que
empurra a noite para os lados com os dentes.
Acordo com um perfume que não é o meu,
faço contas ao corpo antes de ser bicho
— às vezes penso, esta obsessão não é verdade
estou morta sou infinita
e a manhã despenca como uma grua.
Agora vou ao café todos os dias,
respiro com as raparigas da cidade
para confirmar que a ordem exacta
das coisas me entra pelo pulmão, digo
como é quente e pesado este fato preto,
que vai doendo menos abrir os olhos debaixo de água
que se canta melhor na Praça das Flores
de frente como estás para mim
que eu só queria entrar um pouco
e soprar a musa mais leve
a rigorosa definição do fogo
a força da árvore resumida ao vento.
Mas depois a minha vida é só a minha vida
um olhar bovino treinado
para devolver ao mundo o mínimo insulto
sem me mexer um milímetro.
Agora escrevo diários íntimos
para cumprir o instinto canalha
de quem rouba para ser apanhado
de quem mata pela beleza de um corpo
por onde se enfiou um dos braços
até não saber a que altura se pôs a noite.
E eu já não sei a que altura se pôs a noite,
nem da fraqueza do sol que cai de borco
no cimento.
O café ilumina-se de todos os anjos filhos da puta.
Daqui a pouco sairei de casa
estou certa que daqui sairá o poema mais triste.



                                                                                            Raquel Nobre Guerra.

Olhos que abraçam



Somos um Sol em frente ao espelho
 com o seu olhar sáfico
de quem se despede para voltar com mais força
e posso dizer como Rilke
Vamos te construindo com mãos a tremer
descer esta vila onde o sol
 pousa à entrada das tabernas
e se parece com muitas mãos pequeninas
de crianças que deixam escorrer areia por entre os dedos.

O sopro que vira a página, a possibilidade
cheia de luz da nossa geração.
É um sonho e o sonho tem razão.

Sublinho tudo, ligo todas as pontas
deixo um ou dois castelos desfeitos,
uma bola esquecida na areia,
uno as minhas pontas a esta vida quente
que me  multiplica, ilimita e acelera,
abraço a estrela que tenho à minha frente,
até ficar pastoril, cheio, contente
como um fim de festa de Verão.

Uno as minhas pontas, até então desconexas,
a esta vida quente que me acelera
com um olhar sáfico de quem ri e regressa.
Alto, colossal, criança, olhos de urso,
cabelo de gaivota. Uno as minhas pontas
a este coração,
faço-o rir

como um sol em frente ao espelho.